Cidades estão se tornando os novos países e nações?
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São Paulo, Brasil. Foto: Istock/Getty Images
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Cidades são os novos países?

Kaluan Bernardo em 26 de novembro de 2016

Talvez o modelo de nações em que vivemos já não dê mais conta do mundo urbanizado e globalizado tal como conhecemos hoje. Ao passo em que cidades crescem, se conectam e se tornam poderosas, faz sentido mantê-las na lógica de um estado nacional? Líderes nacionalistas colocam, cada vez mais, a globalização em xeque e nos fazem questionar o papel dos países.

É o que questionam pesquisadores e organizações importantes, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Tóquio, Japão. Foto: Istock/Getty Images

Tóquio, Japão. Foto: Istock/Getty Images

Um relatório da OCDE que analisa tendências para o futuro da educação, tem um capítulo justamente com essa provocação: “Cidades são os novos países?”. Ele mostra que mais de metade da população vive em áreas urbanas. E a tendência é que até 2050 a proporção chegue até a 70%.

A organização aponta os paradoxos desse cenário. Megacidades concentram riquezas, mas também tem altos níveis de desemprego e pobreza; contam com complexos sistemas de transporte, mas que não atendem a demanda de todos; precisam atrair talentos, mas temem abrir para terroristas; estão cheias de pessoas, mas que se sentem cada vez mais isoladas e desconectadas.

Esses desafios são comuns a quaisquer megacidades, seja lá onde estiverem. Pode ser São Paulo, Cidade do México, Abu Dhabi, Xangai, Londres, Tóquio ou Nova York. “Quando falamos sobre países, normalmente o que nos separa é a linguagem e a cultura. Mas quando falamos de cidades, normalmente enfrentamos desafios similares”, comenta Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE, ao site da britânica BBC.

O nascimento das cidades como países

O pesquisador Parag Khanna, autor do livro “Connectography: Mapping the Future of the Global Civilization” (que não foi traduzido para o português), trabalha com tese semelhante. Ele diz:

“‘Geografia é destino’, um dos famosos bordões sobre o mundo, está se tornando obsoleto. Discussões seculares sobre como o clima e a cultura condenam sociedades a falharem, ou como pequenos países estão para sempre condenados aos caprichos dos maiores, estão ficando para trás. Graças ao transporte global, comunicações, e infraestrutura – estradas, ferrovias, aeroportos, tubulações, rede elétrica, cabos de internet e mais – o futuro de uma nova máxima: ‘Conexão é destino’”

Essas cidades não só estão se conectando. Estão se tornando cada vez maiores. A região metropolitana da Cidade do México, Delhi, Xangai e Tóquio têm populações com mais de 20 milhões de pessoas – mais do que vários países da Europa. E também concentram poder econômico. Segundo a OCDE, em países como França e Japão, mais de 70% do PIB gerado entre 2000 e 2010 veio de suas grandes cidades. E é por isso que questiona-se se elas devem ser administradas dentro da lógica de uma nação-estado.

O relatório da OCDE destaca como essas megalópoles se tornam mais parecidas culturalmente. Os shoppings, as roupas, o consumo de arte deve ficar cada vez mais igual. O hipster barbado de Londres pode se sentir mais em casa andando em São Paulo do que em uma cidade do interior de seu país.

Como melhorar a vida nas megacidades?

Para Schleicher, as cidades deveriam se aproveitar dessa conectividade para aprenderem mais umas com as outras. “Por que as escolas municipais em Londres são muito melhores do que as escolas municipais em Nova York? Deveríamos estar fazendo esse tipo de pergunta”, comenta, sugerindo que deve haver uma diplomacia direta entre cidades de diferentes lugares do mundo.

Khanna concorda, mas ressalta que o mais importante é gerir essas cidades como nações, estabelecendo conexões entre as maiores e mais ricas e as menores e mais pobres. Em entrevista ao site CityLab ele defende que cada região do mundo tenha pelo menos uma cidade global, com alta qualidade de vida.

Na visão de Khanna, as cidades menores, deveriam conectar-se às maiores e tornarem-se parte de suas regiões metropolitanas. A ideia é que elas ajudem a manter as megalópoles, se tornem lugares de manufatura mais barata e, em troca, se beneficiem de suas riquezas. Essa conexão pode acontecer com trens de altas velocidade que transportam os moradores e políticas de integração. “Mais conexão leva a mais distribuição de riqueza, isso é certo. Não temos que ver como uma oposição”, comenta. “Todos precisam ser um time”.

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