Crowdfunding recorrente é alternativa para jornalismo independente
crowdfunding
Foto: Istock/Getty Images
Nova Economia > Modelos Disruptivos

Crowdfunding recorrente é alternativa para jornalismo independente

Kaluan Bernardo em 16 de dezembro de 2016

Crowdfunding recorrente tem sido a resposta de muitos veículos pequenos e independentes para driblar as crises no jornalismo — que muitos dizem ser apenas uma crise de modelo de negócios.

O crowdfunding recorrente, também conhecido como financiamento recorrente ou coletivo, é o ato de reunir uma série de entusiastas para, todos os meses, financiarem o trabalho de alguém — que pode ser um grupo de jornalistas, artistas, youtubers etc.

É diferente do modelo de assinaturas de jornais, também conhecido como paywall. Ele é visto mais como uma “doação” feita por pessoas que acreditam no trabalho daquele indivíduo ou grupo a ponto de, todos os meses, ajudarem a cobrir os custos da operação. O crowdfunding recorrente pode ser mantido por plataformas internacionais, como o Patreon; ou nacionais, como Benfeitoria e o Apoia.se.

Crowdfunding recorrente vale a pena?

No Brasil, alguns sites pequenos têm conseguido manter estabilidade com o modelo. É o caso do Overloadr, de games; do Manual do Usuário, de tecnologia; e do Bola Presa, de basquete.

Conversamos com Henrique Sampaio, Rodrigo Ghedin e Denis Botana, fundadores e cofundadores dos sites respectivamente citados para saber quais suas percepções sobre o modelo.

Em linhas gerais, eles acreditam que o crowdfunding recorrente funciona e é uma boa alternativa — afinal, nos últimos anos, o modelo tem sido a principal fonte de receita dos projetos. Há, no entanto, algumas particularidades que devem ser observadas para aproveitar as vantagens do modelo.

O público tende a ser mais fiel

Quando Rodrigo Ghedin resolveu criar o Manual do Usuário, em 2013, decidiu fazê-lo sozinho. Ele já era jornalista de tecnologia há anos e estava trabalhando no Gizmodo, um dos maiores blogs de tecnologia.

Mas sentia falta de um site que cobrisse o tema com mais calma, sem se prender ao noticiário diário. Foi quando uma amiga ofereceu investimento para que Rodrigo criasse seu próprio site e cobrisse essa lacuna. Não era suficiente para manter a página por muito tempo, mas era um sinal de que existia gente interessada em pagar pelo seu conteúdo.

LEIA MAIS
iFundWomen: a plataforma de crowdfunding só para empreendedoras
LEIA MAIS
The DAO: empresa autônoma cria o maior crowdfunding da história

Incentivado, abriu o site com duas propostas: ter uma linha editorial mais aprofundada e não trabalhar com anúncios genéricos, escolhidos pelo Google ou algo do tipo. Rodrigo até aceitaria fazer publicidade em certos formatos, mas tinha uma aposta maior: o crowdfunding recorrente.

Três meses depois de lançar o site, criou métodos para os leitores colaborarem. Funcionou. Hoje as doações mensais dos leitores são mais de metade de sua renda. “Das minhas alternativa de financiamento, [o crowdfunding recorrente] é o mais interessante porque cria vínculos com o leitor e te deixa sem amarras”, comenta Rodrigo.

Mas “mais de 50%” é proporcionalmente pouco perto do Bola Presa, que conta apenas com o modelo. O Overloadr já trabalhou com anunciantes em outros momentos, mas hoje também tem mais de 90% de sua receita vinda de crowdfunding recorrente.

É necessário que o jornalista também se aproxime do seu público

O Overloadr nasceu em 2014, mas só lançou o financiamento recorrente em 2015, seis meses após o nascimento do projeto. “Queríamos grandes investidores, mas vimos que essa era uma ideia distante”, conta Henrique. Após bater na porta de algumas pessoas, perceberam que o que tinham em mente era algo pequeno para elas.

Ao desistir dos grandes investidores, passaram a trabalhar a marca. Não que eles já não fossem conhecidos. Henrique Sampaio, Heitor de Paola e Caio Teixeira, os cofundadores do Overloadr, trabalharam por anos na editoria de Games do portal iG, onde ficaram conhecidos pelo seu podcast — o “Games on the Rocks”.

“Já nos sentíamos mais confortáveis, tínhamos um certo reconhecimento e uma comunidade específica e fiel que nos acompanhava. Se não houvéssemos migrado esse público que conquistamos no iG, seria bem mais difícil na época”, comenta Henrique.

Mas ele acredita que também vieram novos indivíduos com o lançamento do novo site. “Com o Overloadr conquistamos novas pessoas que se interessaram em outros formatos, como o Bilheteria [um podcast de cultura em geral, que não fala sobre games], que atrai um público que não consumiria o Overloadr de outra forma”, diz.

Heitor, Henrique e Caio Foto: Divulgação

Heitor, Henrique e Caio Foto: Divulgação

E é com a fidelidade desse público, conquistado durante anos, que eles contam todos os dias. Interagem com todos os leitores, ouvintes e espectadores em redes sociais, comentários no site etc. “Temos uma postura de que estamos todos no mesmo nível, somos acessíveis”, resume Henrique.

Denis pensa de forma muito semelhante. Diferente de seus colegas, ele iniciou o Bola Presa há bastante tempo, em 2007. Desde então, o blog é todo produzido por ele e seu sócio, Danilo Silvestre.

Na época, o site era apenas um blog que funcionava como ferramenta para se ocupar. “Estávamos descontentes com a faculdade, pensando em desistir, então resolvemos criar o blog pra escrever sobre algo que a gente gostava”, conta Denis.

Quando começaram, ouviram que internet era lugar apenas de texto curto e rápido, mas decidiram não dar ouvidos e fazer textos longos e reflexivos. “Como não estávamos interessados em um grande público, mas sim em fazer algo que gostássemos, resolvemos ir para esse lado”, conta. No entanto, descobriram que havia bastante gente interessada nesse tipo de conteúdo.

Mês após mês, desde 2007, a audiência do site cresce. Nunca aconteceram grandes explosões, mas um crescimento consistente. “Se você comparar com outros sites, perdemos em número de seguidores porque somos menores. Mas nosso público é fiel porque esse tipo de texto sobre basquete você só encontra lá”, diz.

Foi assim que, após oito anos percebendo que tinham uma audiência pequena para vender publicidade, mas fiel o suficiente para contar com ela, resolveram apostar no crowdfunding recorrente em 2015.

Também funcionou. No primeiro mês conquistaram 500 assinantes, número que esperavam alcançar em um ano. Parte do sucesso, acreditam, acontece graças à identificação do público. “Do mesmo jeito que há quem assine pelo conteúdo novo, há quem pague porque vai com a nossa cara”, diz Denis, que comenta:

Assinam só porque querem ajudar o projeto a continuar.

Ele diz que a identificação com os leitores é tamanha que parte do público os procura até para comentar sobre a vida pessoal. E há uma parte do podcast que reservam apenas para responder tal tipo de comentário dos ouvintes. “Muitos viram o Bola Presa não ganhar dinheiro por oito anos. Essas pessoas sabem o que a gente faz, o que a gente gosta“, comenta.

Os assinantes são compreensivos, mas precisam receber recompensas especiais

Nenhum dos entrevistados consegue se dedicar apenas a seus projetos editoriais. Denis é jornalista e trabalha em um jornal; Rodrigo está fazendo uma segunda graduação em Comunicação e se forma em 2016; Henrique trabalha como freelancer para revistas de videogame.

Por não conseguirem viver apenas dos projetos, em alguns momentos sua entrega é comprometida. Mas, segundo os três, o público tende a ser compreensivo. “No início tivemos esse receio de não conseguirmos entregar tudo o que gostaríamos. Ficamos com medo do pessoal cobrar pela falta de tempo”, conta Denis. Mas isso não aconteceu. “Quando atrasamos, nos cobram mais no tom de incentivo ou de ansiedade”, diz.

“Como já exponho minhas dificuldades, os leitores compreendem”, comenta Rodrigo. E Henrique vai pela mesma linha, mas diz que ele mesmo se cobra bastante em relação aos prazos. “Quando você trabalha com financiamento coletivo e promete conteúdo e prazos, precisa fazer com que essa entrega aconteça — alem de produzir o que é habitual”, comenta.

É necessário tomar cuidado com a armadilha de prometer algo muito trabalhoso e que não dará conta de entregar. “Não queremos deixar muito conteúdo só para assinantes justamente para os pagamentos não terem esse tipo de amarra. Assim, podemos produzir e entregar da melhor maneira, quando for a hora. Do contrário, podemos acabar frustrando nosso público e nos mesmos”, comenta.

Henrique cita alguns mini documentários que prometeu para assinantes e estão mais de um mês atrasado. Prometeu algo que não sabia a dificuldade de entregar e atrasou. “É um aprendizado, temos que lidar com os recursos que temos”, diz.

A solução para ele é liberar o conteúdo do site. O que assinantes ganham como recompensa é mais voltado ao acesso antecipado a certas produções, participação em um grupo no Facebook e agrados como fotos e vídeos especiais dos editores do Overloadr.

Rodrigo Ghedin também acredita na filosofia de liberar o conteúdo e agradar os assinantes com recompensas pontuais, como sorteios de produtos tecnológicos entre os colaboradores. “Apostaria mais em conteúdo fechado se conseguisse dar furos exclusivos”, diz.

Já para Denis, fechar o conteúdo faz sentido estratégico. “No mundo dos sonhos, preferiria que fosse só na base da doação, com pessoas que só querem apoiar “, diz. “Mas nossa experiência mostra que rende mais reservar o conteúdo para assinantes”, comenta.

Toda semana o Bola Presa publica dois textos e um podcast cujo acesso é concedido apenas para quem colabora com o projeto; “Quando é tudo aberto, a pessoa tem o impulso de ficar deixando para depois. Ela acha tudo muito legal, mas deixa sempre para pagar mês que vem. Quando sente que está perdendo alguma coisa, ela paga”, diz.

Tanto o Bola Presa quanto o Overloadr contam com a plataforma Apoia.se, que permite tal tipo de financiamento — em troca, o site fica com 13% da receita. Rodrigo Ghedin aceita doações diretas para o Manual do Usuário.

Com alguns anos de crowdfunding recorrente, eles dizem que a jornada tem valido a pena até aqui. Pretendem continuar apostando no modelo até que, em algum momento, consigam investir mais nos projetos. Para os três, 2017 promete ser um ano de crescimentos.

“Consideramos o modelo um sucesso, mas obviamente sempre tem espaço para crescimento e melhorias. Somos um site pequeno, mas queremos crescer e pagar pessoas fixas ou freelas para contribuir com o Overloadr e trazer novos pontos de vista. Queremos, por exemplo contratar garotas e trazer representatividade — afinal, somos três caras escrevendo. Só não sabemos quando conseguiremos alcançar isso. Essa campanha nos dá suporte para nos aproximar de nossas metas”, conclui Henrique.

Gostou deste post? Que tal compartilhar:
  • Matheus Sousa

    o crowfunding é uma otima alternativa para nichos bem especificos

ESCOLHA DO EDITOR
Últimos
Trend Tags
Array ( [0] => 205 [1] => 76 [2] => 12 [3] => 237 [4] => 97 [5] => 249 [6] => 222 [7] => 62 [8] => 157 [9] => 276 [10] => 259 [11] => 86 [12] => 267 [13] => 94 [14] => 68 [15] => 16 [16] => 167 [17] => 115 [18] => 186 [19] => 17 [20] => 102 [21] => 173 [22] => 238 [23] => 175 [24] => 92 )
Vídeos
Copyright © 2016 Free the Essence