Cuidando de gerações: como é o trabalho das doulas
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Janie Paula Foto: Gabi Trevisan
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Cuidando de gerações: o afago emocional e físico das doulas

Pedro Katchborian em 27 de novembro de 2016

Desde 2013, Janie Paula tem uma profissão que envolve o momento mais importante da vida de muitas mulheres: ela é uma das muitas doulas no país, ocupação que é responsável por dar suporte físico e emocional a outras mulheres no momento da gestação. “A minha função é ajudá-la a se preparar e apoiá-la para ter o parto mais amparado e potente possível”, diz.

A Organização Mundial da Saúde e vários países já reconheceram o trabalho de doula. Até uma pesquisa feita pela Universidade de South Dakota em 2014 comprovou que mulheres que têm doulas acabam tendo melhores experiências de parto. Janie explica que o trabalho da doula varia muito dependendo da mulher:

Parir é uma viagem totalmente individual. O que eu faço é estar disponível e me perguntar como eu posso ajudar cada pessoa.

Marieta Reis, que também já atuou como doula, concorda com essa diferença em cada trabalho realizado. “Cada mulher vai receber um tipo de apoio diferente, a partir da sua singularidade e da particularidade de cada parto e de cada caso”, explica.

Doulas Marieta Reis

Marieta Reis Foto: Arquivo Pessoal

Apesar dessa variação, o trabalho normalmente consiste em encontros de 1h a 1h30 em que a doula conversa com a mãe sobre opções de leitura, faz massagens, pratica alongamentos entre outras atividades. “Algumas mulheres precisam ser ouvidas, outras precisam de carinho”, comenta Janie. Vale ressaltar que o trabalho da doula não envolve assistência médica. “É um suporte fisiológico, mas não médico”, explica.

Marieta dá mais informações sobre as atividades da doula. “Falamos sobre os aspectos fisiológicos, explicamos termos médicos e os principais procedimentos hospitalares, fornecemos bibliografia sobre os temas abordados, compartilhamos exercícios, dietas e outras medidas que podem ser benéficas para o trabalho de parto, fazemos massagens para aliviar tensões, ajudamos a montar o plano de parto, sugerimos e treinamos posturas para o trabalho de parto e conversamos com os outros acompanhantes, buscando a preparação física e emocional e a composição de um ambiente de autoconfiança e conforto para a mulher”, detalha.

Se o trabalho antes do parto depende muito de cada mãe, durante o parto as atividades costumam mais ser parecidas. “Oferecemos o suporte emocional através da nossa presença contínua, de palavras afetuosas e encorajadoras, que transmitam tranquilidade e autoconfiança”, explica Marieta.

Janie reforça e explica como funciona o processo do trabalho de parto com a doula. Normalmente, a mãe liga e diz que está sentindo algo para a doula. Ela vai acompanhando por mensagens ou pelo telefone, até que percebe o momento em que precisa ir até a casa da mulher. “Em casa, eu cuido dela para que ela fique confortável, para que fique aquecida e aprenda a lidar com as contrações”, conta. Depois, mãe, acompanhante e doula vão para o hospital ou chamam a parteira, dependendo da forma de parto escolhida.

“Ser doula é cuidar”

Por estar presente em um momento tão importante para a mãe, as doulas acabam criando uma conexão especial com quem trabalham. “Qualquer pessoa que cuide de outra pessoa, cria-se um vínculo“, comenta Janie. Já Marieta explica que esse tipo de conexão é essencial para o trabalho da doula. “Conectar-se à subjetividade das parturientes, realizar um trabalho de escuta ativa e sensível é um pre requisito para desenvolver um bom trabalho”, explica.

Janie conta que o trabalho de doula vai muito além de dar conforto para a mãe e pai: é saber e aprender a cuidar das pessoas. “Cuidar de uma mulher é aprender sobre o cuidado do outro“, define Janie. “Os vínculos são muito bonitos, pois existe uma gratidão muito grande. O vínculo é quase que um vaso de barro de cerâmica: super delicado, frágil, que precisa de dedicação e que pode durar a vida inteira. É um momento muito íntimo”, completa.

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Sobre a importância de ter uma doula, Marieta, que também é mãe, comenta sua própria experiência para justificar. “Como alguém que teve uma durante o trabalho de parto: eu lembro do toque da mão quente dela até hoje nas minhas costas quando chegou na minha casa, e o conforto que isso me trouxe”, conta.

Existe uma frase que diz “se a doula fosse um remédio, seria anti-ético não receitar“. Marieta concorda. “Pelo conhecimento do processo e pela experiência, podemos prever uma sede, sugerir uma posição mais confortável, fazer uma massagem num ponto chave para a dor. No caso em que as gestantes optaram por um parto hospitalar, iniciar o trabalho de parto em casa com a presença da doula, auxilia no controle da ansiedade, transmite segurança e evita a ida precipitada ao hospital, evitando assim internação precoce e intervenções desnecessárias”, explica.

A regulamentação e os médicos

Atualmente, para atuar como doula, é necessário fazer um curso. Normalmente ministrados por outras doulas, psicólogas perinatais, educadoras perinatais, consultoras em amamentação, enfermeiras obstétricas e obstetrizes. Existem cursos pela Associação Nacional de Doulas, Grupo de Apoio a Maternidade Ativa (GAMA) e outros lugares.

Para a mulher que quiser contratar uma doula, o mais indicado são as redes sociais. “Ainda que seja um trabalho em que o conhecimento é importante e faz toda diferença, o fundamental é que a mulher escolha a sua doula e nela encontre confiança para dividir um momento tão íntimo e único como o seu parto”, comenta Marieta. A remuneração é combinada entre doula e mãe.

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Janie Paula Foto: Gabi Trevisan

A profissão de doula se confunde diretamente com um momento vivido no Brasil. No país, 55,6% dos partos foram feitos com cesárea, sendo que a recomendação da OMS é até 15% dos casos.

Para Janie, apesar do assunto do parto humanizado estar sendo mais debatido atualmente, ainda está longe de ser o ideal. “Segunda-feira às 6h todas as salas estão reservadas para as cesáreas“, explica. Ela sente uma resistência de parte dos médicos em relação ao parto humanizado e o trabalho das doulas. “Eu entendo a resistência. Eles não foram ensinados dessa forma”, explica.

Para ela, talvez exista um receio dos médicos em relação a companhia das doulas. “A mulher vai para o parto com muito mais informação e a doula acaba sendo uma testemunha de tudo o que o médico faz. Eles se sentem avaliados”, comenta.

Segundo Janie, a mudança de percepção deve acontecer na escola. “A mudança tem que vir de baixo. Precisamos ensinar a geração do segundo grau, mudar o processo educacional para que as crianças entendam o que é parto e o que é violência obstétrica”, diz.

Um exemplo é a própria filha de Janie, Maia. Com apenas três anos e meio, a menina já entende sobre parto. “Sempre que eu vou dar tchau para a minha filha, eu digo que tenho que sair para ajudar um nenê nascer. E ela fala: é menino ou menina? Eu respondo e ela diz: depois vai ser meu amigo. Então dou um beijo nele a ela diz: bom parto“.

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