Como empreendedores brasileiros podem aprender com a África
África
Cape Town, África. Foto: Istock/Getty Images
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Por que os empreendedores brasileiros poderiam aprender mais com a África

Kaluan Bernardo em 13 de março de 2017

É comum em eventos e publicações sobre empreendedorismo falarmos de startups que se tornaram grandes empresas, como a Microsoft; de importantes regiões para empreender, como o Vale do Silício; e de notáveis executivos, como Steve Jobs. No entanto, esses três exemplos vêm dos Estados Unidos e se desenvolveram em uma realidade bastante diferente da nossa, no Brasil.

Ainda que não pareça, há diversos outros empreendedores surgindo e promovendo a inovação em outros lugares como, por exemplo, na África. Muitas vezes, por não terem a mesma escala e dinheiro do que Estados Unidos ou Europa, essas regiões acabam não sendo conhecidas pelos demais, mas a verdade é que possuem exemplos inspiradores, especialmente para países igualmente emergentes.

Logo, é importante questionar: será que esses empreendedores e empresas africanos não compartilham de desafios e oportunidades semelhantes ao Brasil? Quanto eles não teriam a ensinar aos brasileiros interessados em inovação?

Rede de trocas com a África

Esse é o tipo de provocação que Georgia Haddad e Gabi Agustini, empreendedoras brasileiras e participantes de redes de troca e aprendizado entre pessoas inovadoras do Hemisfério Sul, fazem. Ambas são parte de uma rede chamada Global Innovation Gathering (GIG), que realiza eventos na Alemanha para reunir pessoas do mundo todo ligadas à inovação interessadas em trocar conhecimentos e experiências.

O evento é organizado por Geraldine de Bastion, que inclusive tem uma apresentação interessante no TEDx sobre inovação na África. Ela defende que o país tem um dos futuros mais promissores quando se fala em inovação digital. Ela fala como as startups de lá estão resolvendo problemas que não são notados em outros continentes.

E é justamente essa postura de se propor a resolver problemas que tanto pode ensinar ao Brasil. Gabi dá o exemplo da Biscate, uma startup moçambicana, parceria do Olabi, pelo qual busca entender contextos de outros continentes, como o da América Latina. A empresa conecta prestadores de serviços, como pedreiro e pintor, a seus clientes por celular (incluindo os anteriores ao smartphones). “Como os caras conseguem conectar as pessoas utilizando tecnologias simples e acessíveis pode nos ensinar como fazer o mesmo no Brasil, um país que tem apenas 50% da população conectada, mas que segue pensando e prototipando serviços com foco em quem já tem smartphone”, diz.

Gabi é responsável pelo Olabi, no Rio de Janeiro, uma organização que tem como  foco estimular a diversidade na produção de tecnologias e está trabalhando há anos. Ela está trabalhando há anos com empreendedores da África para trocar referências e conhecimentos. Ela acredita que esse intercâmbio com países do continente africanos pode gerar referências para “nos inspirar a olharmos para problemas locais, que atingem nossa população; para as oportunidades que isso traz e como conseguimos aproveitar as novas tecnologias e a democratização da inovação para criar coisas que, de fato, resolvam os problemas das pessoas e gerem melhoria na qualidade de vida”.

Gabi defende ainda que tal perspectiva fala sobre identidade. “É isso o que me inspira na cena africana de empreendedorismo e é o que pauta nossos trabalhos de cooperação: tentar estimular o uso de tecnologias que resolvam problemas concretos. E o problema não precisa ser a rua, a fome, o emprego. Pode ser mais simbólico, como expressão artística, mas tem que ter a ver com nossa identidade, nossa cultura local”, defende.

No entanto, segundo Gabi, essa troca de conhecimentos entre países do Hemisfério Sul, como Brasil e alguns do continente africano, ainda é tímida. Georgia também pensa assim: “falta a percepção de que a troca entre países do Hemisfério Sul é importante”, comenta. “É preciso um olhar das instituições daqui [do Brasil] para aumentar o intercâmbio, mas é necessário dinheiro”, diz.

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Georgia já trabalhou como diretora de Economia Criativa no Ministério da Cultura (entre 2013 e 2016). Atualmente, está à frente do Instituto ProComum, uma organização internacional que está sendo criada com sede em Santos (SP) para ser uma plataforma para o desenvolvimento de ações, metodologias e conhecimento em torno da temática dos bens comuns, da cultura livre e da inovação cidadã.

Ela participa do GIG desde 2012 e pela rede ela conheceu diversos empreendedores africanos. “Há desde a galera mais voltada à tecnologia, que troca dicas de como fazer uma máquina, até um pessoal com a pegada mais social, trocando metodologias, projetos, dicas de como engajar comunidades etc”, descreve.

A articuladora também defende que a maior troca entre Brasil e países africanos e de negócios que podem resolver problemas do dia a dia. “Em termos de tecnologia social, como temos muitos problemas em comum, acho que há muitas formas de nos ajudar. Há coisa que ficamos tentando importar da Europa e dos EUA – porque é como aprendemos a sermos mediados – e que não nos cabe, não faz sentido para nós até por questão cultural. A discussão sobre tecnologia não está desvinculada da discussão sobre cultura. Uma coisa é uma solução que uma garota negra inventou na África e outra é a que um branco europeu criou”, comenta Georgia.

Como se dá a inovação em alguns países da África

O continente africano é extenso, multifacetado e complexo. É necessário tomar cuidado para não generalizar quando se fala em “empreendedorismo no continente africano”. No entanto, também é possível encontrar alguns pontos em comum e analisar o quanto eles são importantes para influenciar os empreendedores brasileiros.

Na África, há alguns países que se destacam no empreendedorismo. Um deles é Ruanda, que há 22 anos passou por um dos maiores e mais cruéis genocídios da história contemporânea, deixando mais de 800 mil mortos.

Hoje, ela é chamada de “Startup Nation”, principalmente devido aos esforços do governo, que abriu as políticas econômicas do país e incentiva a infraestrutura para alimentar a produção. É o que defende Jon Stever, responsável pelo The Office, um prédio em Kigali, que abriga um coworking, hubs de inovação e de expressão artística de Ruanda. “O governo está trabalhando duro para apoiar empreendedorismo pela educação pública e para reduzir as barreiras de iniciar um negócio”, comenta Jon.

Coworking The Office em Ruanda, África

Coworking The Office Foto: Reprodução/Facebook

Em 2016, o país foi considerado o 56º melhor lugar do mundo para abrir um negócio no ranking do Banco Mundial, na frente de países como Chile, Luxemburgo, China, Qatar, Arábia Saudita, Uruguai e outros. “O governo ainda está trabalhando para arrecadar investimento externo e fazendo de tudo para permitir que a economia baseada em serviços decole”, comenta Jon.

O The Office é descrito como um “hub de hubs”. Lá está o coworking Impact Hub, um telhado para artistas, e diversos outros espaços para promover colaboração. “Estamos tentando ir além do empreendedorismo e trazer todo tipo de artista para trabalhar junto. Nossa ênfase é sempre na colaboração, nunca tentamos fazer nada sozinhos, trabalhamos com qualquer instituição que pudermos”, afirma o empreendedor.

Coworking The Office em Ruanda, África

Coworking The Office Foto: Reprodução

Não por acaso ele também defende a importância da integração entre países do Hemisfério Sul. “Acredito que o mais importante é que existe uma necessidade de aumento de liderança moral no Hemisfério Sul no sentido de diminuir as barreiras para o movimento de pessoas, ideias e bens para facilitar uma integração regional. Há muito o que nossos países podem aprender uns com os outros”, comenta. Jon ainda defende:

Há um grande escopo de tecnologia e modelos de negócios que podem ser trocados entre pesquisadores e engenheiros, para serem compartilhados, assim como falhas e sucessos de políticas públicas entre governos.

Segundo Stever, “essas oportunidades não estão sendo completamente aproveitadas e não serão até que nossos países no Sul facilitem que pessoas e ideias se movam livremente”.

Outro país, além de Ruanda, que se destaca na cena de inovação do continente africano é o Quênia. Conhecida como “Savana de Silício”, a nação muitas vezes é destacada por seu ambiente empreendedor. Reportagem do jornal Financial Times afirma que o país, diferente de alguns vizinhos, não depende tanto de commodities e, portanto, investe mais no capital intelectual – o que incentiva o empreendedorismo e a inovação. Não por acaso o PIB do país cresceu 5,6% em 2016 e deve chegar a 6,1% em 2017.

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Nairóbi, Quênia. Foto: Istock/Getty Images

É de lá que vem algumas das startups mais conhecidas do continente, como as já citadas M-Pesa (um sistema de pagamentos por SMS), Ushahidi (que identifica crises ao redor do mundo em um mapa aberto) e o BRCK (um hardware portátil que leva internet com conteúdo educativo a qualquer lugar).

Mais um país africano que se destaca pela inovação é a África do Sul. Abrigando um dos mais importantes aeroportos do continente, a nação tem a maior economia do continente africano, com um PIB de US$ 301 bilhões. A África do Sul é o berço de Elon Musk, um dos maiores nomes no empreendedorismo atual. Mas também é onde nasceram algumas startups importantes, como WhereIsMyTransport (que organiza dados sobre transporte público), VIGO (plataforma para criação de sites) e SweepSouth (que conecta faxineiras a residências).

Recentemente, o país passou por desaceleração na economia, mas foi justamente as startups que se tornaram a bala de prata do país, atraindo mais de US$ 54,6 milhões em investimentos estrangeiros. Fundos de capital como Silvertree e Knife Capital têm apostado cada vez mais nas empresas locais, como revela reportagem do site Quartz.

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Foto: Istock/Getty Images

Outro país que desponta como promessa na África é a Etiópia. Entre 2004 e 2014 o PIB local cresceu, em média, 8% ao ano. Para efeito de comparação, no mesmo período, o crescimento médio brasileiro foi de 4%.

A aposta da Etiópia está na produção de baixa tecnologia, como acontece na China e no Vietnã. É o que aponta um estudo sobre políticas de transformação industrial na África, feito pela ONU. A publicação ainda destaca a produtividade do país em manufatura, construção e agricultura.

A ONU aponta ainda como um dos principais pilares para a mudança na Etiópia a educação. Se em 1990 o número de jovens matriculados em escolas estava abaixo dos 20%, em 2012 o número chegou a 92%. E se há 20 anos não haviam universidades, hoje são mais de 20.

O estudo também vê o país com um bom equilíbrio entre intervenção estatal e liberalismo econômico. Meles Zenawi, primeiro ministro do país entre 1995 e 2012, é tido como um governante que ofereceu um ambiente para inovação.

A energia limpa na África

Grande parte das potenciais inovações na África está no campo energético. Diferentes países, por enfrentarem dificuldades energéticas, estão criando inovações que apontam para o futuro das fontes renováveis.

Em vários países do continente é comum acontecerem apagões devidos a limitações elétricas. A resposta, muitos acreditam, virão das energias renováveis e de startups inovadoras.

Em 2012, a média de consumo elétrico no continente foi de 600 kWh – menos de 20% da média global, que é de 3.064 kWh A África subsaariana é uma das que mais sofre com o problema. Se nada for feito, até 2030, mais de dois terços da população poderá ficar sem acesso à energia. E é também justamente por isso que a Agência Internacional de Energia reconhece que o continente deve ser o epicentro da luta contra a escassez energética.

Estudo publicado pela Intelligence Unit, braço de pesquisas da revista Economist, defende que, mais do que demanda, o continente africano tem capacidade para ser líder em energia limpa. “A África é cheia de recursos — do poder geotérmico no Quênia e na Etiópia às hidrelétricas na Zâmbia e na República Democrática do Congo. Energia solar e eólica são especialmente promissoras graças à queda dos custos e abundância de recursos”, ressalta a publicação.

energia renovável

Foto: Istock/Getty Images

E é por isso que a União Africana, organização internacional que promove a integração entre os países do continente, criou a Iniciativa Africana da Energia Renovável para fazer com quem até 2030 o continente seja capaz de entregar 300 GW de energia solar, geotérmica e, principalmente solar. O custo do projeto é estimado em US$ 500 bilhões.

Além dos esforços governamentais é possível observar algumas startups agindo no continente. Uma delas é a Powerhive, uma startup estadunidense criada em 2011 que desenvolve pequenas redes de placas fotovoltaicas (conhecidas como microgrids) para oferecer energia solar a regiões rurais sem eletricidade. Entre 2012 e 2014 rodaram um piloto na Quênia oferecendo energia para 1.500 pessoas. Agora, querem chegar a 200 mil casas e, para isso, já conseguiram US$ 31 milhões em investimentos.

Recentemente, outras oito startups, como a Greenlight Planet (presente na Nigéria), d.light (Quênia), Vitalite (Zâmbia), PEG Africa (Gana) e outras, receberam, juntas, US$ 4 milhões para levar energia solar ao continente.

“Há uma série de inovações em torno de acesso a eletricidade, de estender o acesso à internet e à informação. Há diversos modelos de kits de energia solar para alimentar casas com energia elétrica para necessidades básicas: luz, carregar celulares, e até rádios e televisões”, comenta Jon Stever, que diz que também há várias outras startups tentando resolver problemas básicos, como falta de acesso a serviços bancários.

No entanto, ele relativiza a capacidade dessas empresas resolverem os problemas sozinhas. “A África não pode empreender sozinha em seus problemas básicos. Você não pode empreender em torno de serviços públicos ruis e falta de liderança. Há um limite de problemas que os empreendedores podem resolver. Eles podem aumentar a eficiência e oferecer acesso a uma maior gama de bens e serviços. Mas os governos precisam oferecer alguns bens públicos importantes: educação, estradas, infraestrutura e segurança para nomear alguns”, conclui.

Ainda assim, ele acredita que há algumas iniciativas públicas nesse sentido, como a Secretaria Smart Africa, criada pelo presidente de Ruanda, e que reúne especialistas trabalhando juntos para acelerar a transformação digital no país.

A influência dos países do Hemisfério Norte

Promover trocas e cooperação sobre empreendedorismo e inovação entre países do Hemisfério Sul, como os do continente africano e o Brasil, tem mais uma função: apresentar uma perspectiva de mundo que não passa pela intermediação europeia ou estadunidense.

Em 2014 Jon Stevers escreveu um texto dizendo que, muitas vezes, a ideia de “ajuda” de países desenvolvidos em relação à África se torna um problema para esses países. “A ‘ajuda’ e a assistência são antagônicas à confiança e à dignidade, e à mentalidade de autoajuda que promove inovação, negócios e desenvolvimento sustentável”, comenta.

Jon é estadunidense, estudou em Londres e vive em Ruanda desde 2012. Mesmo com sua experiência prévia em países do Hemisfério Norte, ele é um dos vários empreendedores na África que não vê com bons olhos a influência do dinheiro externo sobre o empreendedorismo africano. “Assistência sem propriedade e responsabilidade cria dependência. Muito da retórica de apoio ao setor privado foca em empoderar indivíduos, o que é irônico, porque oferecer ajuda é normalmente ‘desempoderador'”, escreveu.

Ele ressalta ainda que é contra doações, mas não investimentos. Nesse segundo caso, o investidor está tomando riscos e escolhe um negócio de acordo com seu potencial. Ele conclui: “A África é oprimida por qualquer um que trate o lugar, suas pessoas, ou seus líderes como menos ou diferente do que qualquer outro lugar”.

Gabi Agustini diz que o importante é ver a riqueza do continente. “Quando as pessoas olham para um país do eixo Sul que tem menos renda, enxergam pobreza – e não a riqueza. Elas vêm com soluções prontas de acordo com suas referências. E isso é um problema”, comenta. “Você tem alguns organismos de filantropia jogando muito dinheiro em alguns poucos players com capacidade de diálogo internacional e, consequentemente, isso gera dificuldade de competição e criação da indústria local”, diz.

Ela vê o mesmo tipo de problema na América Latina. “E aí há dificuldades de achar um modelo próprio em um mundo que quer que você sempre copie o modelo do outro, mas que nem sempre faz sentido para você”, conclui. Georgia vai na mesma linha e defende que a saída é cada empreendedor sair dessa lógica. “Acho ruim o monopólio de alguns países em intermediar negócios quando querem, podem e com quem quiserem. Podemos fazer diferente. Não são eles o problema, somos nós que não fazemos e ficamos nessa dependência. Não precisa passar tudo por lá”, comenta.

Para ela, “há na África um orgulho de onde se veio, uma noção de que não se é pior do que ninguém. É uma autoestima que sinto falta no Brasil”, diz, ressaltando que esse é um intercâmbio bem-vindo.

Nove startups africanas para ficar de olho

Biscate – Moçambique

Marketplace virtual para conectar trabalhadores de base a clientes.

Ushahidi – Quênia

Mapa e conjunto de ferramentas open source para cidadãos relatarem casos de violência ou de desastres.

BRCK – Quênia

Empresa que desenvolve pequenos hardwares para levar internet e educação a qualquer lugar.

SafeMotos – Ruanda

Uma espécie de Uber de motos que promete ser mais seguro do que o convencional;

Safari Yetu – Tanzânia

Ferramenta para comprar passagens de ônibus e donos de linhas de ônibus gerenciarem suas vendas.

Giraffe – África do Sul

Plataforma de recrutamento que ajuda o empregador a encontrar as melhores oportunidades e entra em contato com os candidatos por SMS.

RecycloBekia – Egito

Empresa de reciclagem de produtos eletrônicos que afirma ter um método mais eficiente.

MeQasa – Gana

Site para procura de residências em Gana.

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  • Mauricio Bisol

    Ai. Voce disse que a Africa é um país…. doeu aqui no peito

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