EmpregueAfro quer mais vagas de emprego ocupadas por negros
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EmpregueAfro quer mais vagas de emprego ocupadas por negros

Camila Luz em 3 de novembro de 2016

Negros são mais de 50% da população brasileira, mas não estão representados em propagandas, filmes, novelas e, no geral, não ocupam bons cargos no mundo profissional. Para mudar essa realidade, a consultoria de recursos humanos EmpregueAfro auxilia empresas que querem disponibilizar mais vagas de emprego para pessoas negras, assim como candidatos em busca de trabalho.

A EmpregueAfro foi fundada pela consultora de recursos humanos Patrícia Santos, que experimentou na pele o que significa ser negra em uma sociedade cujos privilégios são todos dos brancos. Quando jovem, Patrícia sonhava em ser médica, mas seus pais logo a alertaram: negros nessa profissão são raros. Já adulta, trabalhou no RH de uma grande emissora de televisão e percebeu como há falta de afrodescendentes em todas as empresas e em cargos qualificados. “A maioria das empresas, principalmente as 500 maiores, que são as que mais contratam, são compostas por homens héteros brancos”, diz.

Em 2004, criou a EmpregueAfro como projeto social. “Um negro foi falando para o outro, mais pessoas começaram a me procurar e virou a consultoria que é hoje”, conta. Em um primeiro momento, Patrícia tocava o negócio em paralelo com sua carreira no mundo corporativo. A partir de 2013, passou a se dedicar 100% à EmpregueAfro. Hoje, divide as responsabilidades com seu marido, o administrador de empresas Luiz de Jesus.

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Vagas de emprego, sozinhas, não são suficientes

A EmpregueAfro começou com ações pontuais, orientando negros que encontravam dificuldades para se colocarem no mercado de trabalho. Aprimorou seus produtos e se transformou em uma consultoria focada também na criação de vagas de emprego para negros. “Fazemos um diagnóstico sobre diversidade na empresa, pois precisamos entender qual é o momento que ela está vivendo e qual será a melhor forma de fazer a inclusão”, diz.

Patrícia explica que o processo de inclusão não é tão simples e não se resume em somente abrir mais vagas de emprego e contratar mais negros. “Só recrutar e mandar para a empresa não traz o sucesso da inclusão por vários fatores. O gestor não entende por que ele tem que incluir negros, muitas vezes os compara com brancos, que costumam ser mais preparados para oportunidades”, afirma.

O branco prefere contratar a pessoa que tem uma história de vida parecida com a dele. Geralmente é outro branco, que tem vivência no exterior e outras experiências.

Para que o branco entenda que a origem do negro é diferente da sua, Patrícia aprimorou seu trabalho. Faz treinamentos e palestras sobre diversidade e histórico do negro no mercado. Não são apenas os gestores e recrutadores que devem passar por esse processo: todos os funcionários participam dele. Além disso, a EmpregueAfro transforma a cultura da empresa para que se torne mais inclusiva.

Finalizado esse processo, começa a seleção. Os novos profissionais contratados são acompanhados pela consultoria por pelo menos três meses, para que consigam manter o emprego.

Os clientes da EmpregueAfro são as maiores empresas do Brasil, como a Microsoft. Quando começam seu processo inclusivo, não estão voltadas apenas para pessoas negras, mas também para deficientes físicos, membros da comunidade LGBTQ e mulheres. Hoje, com mais imigrantes sírios chegando no Brasil, o recorte está se expandindo com foco na diversidade religiosa.

Negros preparados

Parte do trabalho da EmpregueAfro é devolver ao negro a confiança de que tem capacidade e merece estar no mercado. Por isso, oferece um produto chamado “Terapia de carreira”. Aplica testes vocacionais e psicológicos, simula entrevistas, dinâmicas de grupo e auxilia o cliente a reformular seu objetivo. “Isso é muito legal pois mostra o quanto aquela pessoa tem potencial e como ele pode ser desenvolvido. Para os negros, o racismo causa manchas em sua autoestima“, afirma. Essa perda de confiança faz com que negros não consigam dar o seu melhor em entrevistas de emprego.

A sociedade é racista e machista. Se você chega na entrevista e tem mais três concorrentes brancos que moraram no exterior e têm uma bagagem grande, você vai se sentir inferior.

Patrícia dá como exemplo uma conversa que teve com uma diretora de recrutamento da Google na América Latina. “Ela disse que havia se lembrado de mim durante uma entrevista com um programador negro. Ele já chegou falando que sabia que não era o melhor, que não tinha todas as habilidades, que a família nem queria que ele fosse, mas foi mesmo assim”, conta. “Ela disse que, se achasse que ele não tinha as habilidades, nem teria o convidado. Mas a maioria dos gestores já o descartaria diante dessa atitude”, opina.

Foto: Istock/Getty Images

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A consultora reforça que, além do problema da autoestima, o negro não busca por oportunidades em grandes empresas por que não se vê representado nelas. “Somos 54% da população e consumimos R$ 1 trilhão. Mas empresas não fazem propagandas com negros, não utilizam modelos negros, não estamos em seus canais de comunicação ou em seus sites”, afirma. “Não posso falar que é racismo. Digo que é um reflexo da sociedade, que parece viver em uma bolha e só contrata seus iguais”, completa.

O lado positivo da história é que negros estão ficando mais preparados para o mercado de trabalho. Patrícia explica que há cerca de 12 anos era mais difícil encontrar talentos. Mas políticas públicas de inclusão deram um bom impulso nessa parte da população. “Nos últimos três anos, 150 mil jovens negros entraram na faculdades. Antes da política de cotas, eram apenas 2% dos estudantes universitários”, explica. “Agora, precisamos correr atrás do inglês avançado. Claro que também precisamos prepará-los para o processo seletivo, mas em termos de qualificação, o que nos falta é realmente o inglês”, finaliza.

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