Prepare-se: as fintechs vão mudar todo o sistema financeiro
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Prepare-se: as fintechs vão mudar todo o sistema financeiro

Kaluan Bernardo em 12 de março de 2017

Blockchain, internet das coisas, machine learning, criptomoedas, APIs, startups e fintechs. Acostume-se a esses termos: eles estarão cada vez mais relacionados ao seu dinheiro e às inovações que transformarão sua relação financeira com o mundo.

Transferir dinheiro para qualquer lugar sem precisar ir a uma agência; contar com robôs para encontrar os melhores investimentos; pegar dinheiro emprestado sem muita burocracia; organizar a vida financeira de sua empresa sem precisar recorrer a um contador. Essas mudanças já existem e se ampliam cada vez mais graças às fintechs – empresas de tecnologia que atuam no setor financeiro e buscam levar inovações para o mercado, desafiando bancos e instituições tradicionais monetárias.

Você provavelmente já ouviu falar em algumas, como Nubank, GuiaBolso, Contabilizei e outras. Mas essas são apenas algumas das mais de 219 empresas de fintech que existem no Brasil.

O número é da Finnovista, organização que mapeia e monitora a indústria de fintech na América Latina. Segundo a instituição, o Brasil tem o maior ecossistema do continente, ficando à frente do México (158 startups), Colômbia (77), Argentina (60) e Chile (56).

Apesar da inovação, as empresas, muitas vezes com pequenos investimentos, lutam por um dos espaços mais disputados no Brasil: o setor bancário.

Para se ter uma ideia, em 2016,  as quatro maiores instituições financeiras com ações listadas na Bovespa, Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco e Santander, somaram um lucro líquido de R$ 50,29 bilhões. O número é impressionante, mas corresponde a uma queda de 18,8% em relação ao ano anterior (R$ 61,95 bilhões). Parte da queda se deve, obviamente, à crise econômica e à queda do PIB, que retraiu 4,34% em 2016. É difícil dizer se o surgimento de mais fintechs têm relação com essa queda, no entanto, sabe-se que é nesse cenário que elas estão se proliferando.

Mas há espaços para todas fintechs?

Em um cenário dominado por grandes bancos e mais de 200 empresas competindo com tecnologia no setor financeiro, muitos podem se perguntar se há espaço para todos.

Marcelo Ciampolini, CEO da Lendico, startup de empréstimo pela internet, é otimista. “De fato há um aumento grande de empresas que passaram a atuar no mercado de fintechs”, reconhece. “Entretanto, na Lendico, entendemos que esse crescimento do mercado é positivo”, diz.

Ele comenta: “o mercado das fintechs ainda é grande e há espaço para todos. Estamos preenchendo um gap onde os grandes bancos nunca quiseram atuar, mas que interessa aos médios bancos e a outros investidores. É claro que as empresas que entram nesse ramo mais cedo têm uma vantagem competitiva muito maior”.

A Lendico está no mercado desde 2015 e diz já ter atendido mais de 9 mil clientes para os quais emprestou quase R$ 60 milhões. A empresa, que já recebeu R$ 25 milhões de investimento do banco BMG, pretende cobrir todos os aportes só nesse ano de 2017.

Quem pensa parecido é Alexandre Álvares, Diretor de Marketing do Banco Neon, uma startup que se propõe a ser um banco completamente digital, oferecendo os serviços básicos apenas pela internet, com foco em seu aplicativo.

Para Alexandre, o Brasil se destaca com fintechs especialmente porque “há carência de soluções que tenham pegada de startup, preocupadas com a melhor experiência para o usuário, que estejam buscando simplicidade no movimento e aproveitando o design para deixar tudo mais fluído”, comenta.

Mas essas inovações são restritas há poucos clientes. Relatório da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) aponta que, em 2014, apenas 60% da população estava bancarizada. No mesmo ano o IBGE revelava que apenas 54,4% das pessoas com mais de 10 anos tinham acesso à internet.

Apesar dos limites, as startups dizem que não focam nesse cliente por enquanto. “Isso representa, sim, um grande público a ser explorado e conquistado, mas que virá como um extra em nosso crescimento. Não dependemos desses 100% de inclusão. Isso porque o perfil de cliente que é aprovado já é bancarizado e tem acesso à internet. Dificilmente nossa base de clientes será muito ampliada somente com essa inclusão bancária e digital, pois há muitos outros fatores a serem considerados no momento da aprovação de um perfil”, comenta Marcelo.

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Alexandre também vê seu público como o já digitalizado. “Acredito que ainda surgirão fintechs que não vejam o digital como barreira. Mas nós não pensamos em uma solução nessa linha, nosso público é o digital”, comenta.

O levantamento da Finnovista diz que o setor que mais agrega startups de fintech no Brasil é o de pagamentos e remessas, com 31% das empresas. Na sequência vem a gestão financeira empresarial, com 15%; em terceiro as startups de crédito, com 12% do mercado; e em quatro as de gerenciamento financeiro.

A relação das fintechs com governos e grandes bancos

Entre as dificuldades citadas por empreendedores em geral, é comum ouvir eles falando sobre a relação com o governo e as regras burocráticas do nosso país. Com as fintechs não é diferente.

“Sem dúvidas a legislação brasileira que regula o setor financeiro ainda não está preparada para atender às demandas das fintechs. Ela foi pensada para contemplar somente o modelo dos bancos tradicionais. Entretanto, percebemos um grande interesse do Banco Central, que é quem regula o nosso setor, em fazer ajustes e mudanças que permitam o crescimento das fintechs. Estamos em contato muito próximo com o BC e o diálogo vem sendo muito promissor”, pondera Marcelo, da Lendico.

Mas afora o Banco Central e da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), as startups não veem o poder público engajado em melhorar o cenário. Alexandre, do Banco Neon, enxerga o cenário como um desafio: “acho que que uma das maiores dificuldades acaba sendo também um benefício. Trazer inovação para algo que era consolidado, com players sólidos, é difícil. É um sistema muito antigo, com muitas regras. Mas por termos que nos adaptar a isso, criamos inovações que se enquadram no sistema”, comenta.

Ele cita um recurso do Neon como exemplo: enquanto as formas de fazer transferência pelo banco eram complicadas, e o Banco Neon conseguiu criar um método de transferência utilizando apenas a Siri, a assistente pessoal da Apple.

Os bancos também costumam ser vistos mais como potenciais parceiros do que necessariamente concorrentes. O Bradesco, por exemplo, criou um programa chamado inovaBra, só para se aproximar de startups. Em fevereiro de 2017, o banco lançou a terceira edição do inovaBra startups, um fundo com R$ 100 milhões para investir justamente em empresas que poderiam concorrer com o banco. Cada startup pode receber de R$ 1 milhão a R$ 5 milhões do Bradesco.

Fernando Freitas, superintendente executivo do departamento de inovação do Bradesco opina: “entendemos que as fintechs e os bancos se complementam. De um lado temos esses novos entrantes com agilidade para testar novas formas de atendimento e modelos de negócio. De outro, os incumbentes com marcas estabelecidas, confiáveis, grande base de clientes e ambiente de testes seguro, com massa crítica. Logo, acreditamos que o trabalho em conjunto é uma relação ‘ganha-ganha'”.

Segundo Fernando, o banco está interessado em startups em três principais setores: o de algoritmos e máquinas inteligentes; o de plataformas digitais (como bancos online, empréstimos digitais e produtos de recuperação de crédito); e infraestrutura (com soluções como blockchain, segurança digital, API, computação em nuvem e Big Data).

Alexandre, do Banco Neon, diz que “os grandes bancos já viram que não tem como não aceitar a mudança, ela é presente”. E que por isso “todos estão tentando inovar de alguma forma”, mas que o problema é que, por mais que tentem, os grandes e antigos players não têm um DNA digital e, por isso, não conseguem resolver certos problemas com a mesma velocidade que uma startup.

Para Fernando, do Bradesco, as startups enfrentam menos dificuldades regulatórias. “Elas não estão inseridas em um sistema sob regulação que pode limitar a capacidade de aplicação das tecnologias e reduzir a velocidade de lançamento das inovações”, comenta. Mas isso não impede que os bancos inovem, só permite que as fintechs atinjam nichos que eles não conseguem.

“Também precisamos testar mais vezes as soluções a fim de minimizar os riscos que possam impactar nossos clientes e nossa marca, enquanto as startups possuem mais flexibilidade para assumir mais riscos”, comenta Fernando.

É por isso que nas duas primeiras fases do programa InovaBra, o banco avaliou mais de 1,6 mil empresas. Desse total, 20 foram selecionadas e tiveram suas soluções integradas ao Bradesco.

Fernando vê o programa como um método “que permite às startups testarem suas soluções com clientes reais”. Neste sentido, as startups tornam-se um braço tecnológico na materialização de inovações para o banco. Segundo ele, essas parcerias são reguladas por termos jurídicos que preservam os direitos e deveres de ambas as partes.

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  • Marco Magalhães

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