Inovação tecnológica é bom, mas não se esqueça da manutenção
Inovação tecnológica
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Inovação tecnológica é bom. Mas não se esqueça da manutenção

Kaluan Bernardo em 12 de maio de 2016

Nos prometeram carros voadores, mas nos entregaram aplicativos para fazer selfies. Parte disso tem a ver com a sede da sociedade capitalista por inovação tecnológica a qualquer custo, enquanto se esquece da importância da manutenção. Pelo menos essa é a visão dos estudiosos estadunidenses Andrew Russell e Lee Vinsel.

Russell é diretor do programa de estudos em ciência e tecnologia no Instituto Stevens de Tecnologia, em Nova Jersey. Vinsel é professor do mesmo departamento na mesma universidade. Eles escreveram um artigo para o site Aeon mostrando que, ao passo em que a busca por inovação inspira o mercado da tecnologia, ela também levanta a crítica de pensadores que consideram o conceito superestimado:

“O que acontece depois da inovação, eles [os críticos] dizem, é mais importante. Manutenção e reparo, a construção de infraestruturas, o trabalho mundano que sustenta o funcionamento e eficiência dessas infraestruturas, simplesmente tem mais impacto na vida das pessoas do que a maioria das inovações tecnológicas”.

Uma pequena história da inovação tecnológica

A perseguição por inovação está diretamente relacionada ao fim da Guerra Fria e a vitória do capitalismo no século 20. Entre os anos 1870 e 1940, os EUA cresceram de forma nunca antes vista na história. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o mercado estadunidense atrelava, cada vez mais, novas tecnologias para consumo à ideia de crescimento social.

No entanto, como relatam Russell e Vinsel, nas décadas de 1970 e 1980, os EUA começaram a enfrentar problemas econômicos. A resposta veio com políticas de inovação, voltadas principalmente ao Vale do Silício, que competia diretamente com o Japão.

A ideia, que se perpetua até hoje, era criar regiões “mágicas” para a inovação acontecer. Procurava-se desenvolver vários grupos como o Vale do Silício, cujo estilo de vida atraía as pessoas mais criativas do país.

“Na virada do milênio, no mundo da tecnologia e dos negócios, inovação se transformou em um fetiche erótico”, escrevem os autores. A perseguição pela disrupção transcendeu a política e conseguiu unir liberais e conservadores em torno do mantra do empreendedorismo.

Ao longo dos anos seguintes, diversas publicações da imprensa especializada passaram a criticar o esvaziamento do termo inovação. O The Wall Street Journal, por exemplo, publicou um duro artigo dizendo que a palavra, que já estava na capa de mais de 250 livros, estava perdendo seu sentido.

Vamos com calma na inovação. Vida longa à manutenção

Mais do que perder o sentido, a inovação nem sempre traz melhoras estruturais. Os pesquisadores citam como exemplo o próprio Vale do Silício que, apesar toda sua inventividade, se tornou uma região extremamente desigual.

Empresas como o Google e a Apple fizeram a região se valorizar, o preço das casas subir e os pobres ficarem sem teto. Também se desenvolveram diversos problemas de trânsito, deixando a mobilidade urbana de San Francisco caótica. Nem mesmo a inovação tecnológica de serviços como o Uber conseguiram resolver tais problemas.

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Há quase que uma fórmula: “um termo ganha popularidade porque ressoa com o zeitgeist, atinge o status de clichê e então sofre superexposição e cooptação”, defendem Russell e Vinsel. Nesse caso, como traçar melhor a relação entre sociedade e tecnologia? Por três meios:

• Reconhecer que inovação é só uma parte do que é tecnologia;

• Esquecendo-se da inovação tecnológica, podemos começar a prestar atenção na importância da infraestrutura;

• Focando na infraestrutura e em criações antigas, em vez das originais, vamos nos lembra do trabalho que há para manter tudo.

É preciso ter em mente que a infraestrutura, embora seja um termo menos sexy do que a inovação, é tão ou mais importante do que a necessidade de criar algo original o tempo todo.

Apesar de todos os avanços e mudanças da sociedade, o trabalho ainda é o centro do capitalismo. Os inventores são apenas uma pequena parte da massa de trabalhadores. Para cada Mark Zuckerberg, há uma centena de indianos bloqueando imagens pornográficas no Facebook. Para cada Steve Jobs, há uma série de chineses montando os iPhones.

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No momento em que a maioria passar a pensar na questão do trabalho da manutenção, outros temas poderão tomar o centro do debate. Russell e Vinsel citam um bom exemplo: a importância do feminismo. Ao longo dos anos, as mulheres também sofreram com essa sede por inovação. Eles citam o livro More Work for Mother, de Ruth Schwartz Cowan.

Na obra, a autora mostra que inovações tecnológicas, como o aspirador de pó e as máquinas de lavar, em vez de livrarem as mulheres dos trabalhos domésticos, só fez elas ficarem ainda mais tempo em casa. Não seria melhor pensar em como acabar com as diferenças entre os salários das mulheres em vez de criar novos eletrodomésticos desenhados por homens para as suas mulheres?

“Sociedades inteiras passaram a falar de inovação tecnológica como se fosse um valor naturalmente desejável, como amor, paz, fraternidade, coragem, beleza, dignidade e responsabilidade”, dizem. Mas, é necessário questionar: quem a inovação beneficia? Os autores finalizam:

Mudar o foco para manutenção nos dá a oportunidade de perguntar o que realmente queremos de nossas tecnologias (…) precisamos mudar dos meios, que incluem como as tecnologias podem sustentar nossas ações do dia a dia, para os fins, incluindo aí os vários tipos de benefícios sociais e melhorias que as tecnologias podem oferecer. Nosso mundo cada vez mais temeroso e desigual iria agradecer.

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