Parênteses de Gutenberg: estaríamos todos voltando à Idade Média?
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Parênteses de Gutenberg: estaríamos voltando à Idade Média?

Kaluan Bernardo em 23 de março de 2017

E se todas as inovações nas tecnologias e nas comunicações não estiverem nos levando para o futuro, mas para o passado? Não estamos falando de uma máquina do tempo, mas de um futuro que se parece mais com a Idade Média do que com o presente.

Essa é uma premissa que Thomas Pettitt e Lars Ole Sauerberg, professores da University of Southern Denmark, discute bastante. Para eles, o período de comunicação no qual os jornais e os livros eram as principais fontes de informação foi apenas um pequeno intervalo na história humana. E agora, após um tempo, estaríamos voltando à tendência de viver em uma sociedade oral, valorizando boatos, conversas e informações efêmeras. Pós-verdade, é você?

Você não precisa ser um especialista para ver que há um ponto na teoria que Pettitt e Sauerberg batizam de “Parênteses de Gutenberg” ou “Segunda Oralidade”. Basta passar um tempo com o Facebook aberto.

A prensa de Gutenberg e a pós-verdade

Muitos teóricos da comunicação consideram que entramos em uma nova fase após Johannes Gutenberg ter inventado sua prensa móvel, no século 15. A tecnologia, precursora do computador, da máquina de escrever, do telégrafo, e de tantas outras, foi responsável por acelerar a publicação de livros, que antes eram escritos à mão.

Gutenberg é, portanto, considerado o pai da imprensa. Foi a partir da sua prensa que a comunicação escrita ganhou força, permitindo que livros, jornais e revistas viessem um dia a existir como conhecemos hoje.

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Esse tempo, no entanto, seria apenas uma pequena exceção na história humana. Por isso, Pettitt e Sauerberg o chamam de parênteses. Segundo o pesquisador, quando fecharmos esses parênteses, voltaremos à cultura oral, como era antes da invenção de Gutenberg.

A teoria, que já é discutida desde 2010, vai ao encontro de outros conceitos que passaram a ser discutidos com mais intensidade recentemente, como “fake news” e “pós-verdade”.

Em 2016, o dicionário de Oxford elegeu “pós-verdade” como palavra do ano. O termo foi definido como um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e às crenças pessoais”. É um conceito que tem sido muito discutido ao passo em que boatos e notícias completamente falsos se espalham em redes sociais, influenciando política, economia e sociedade como um todo.

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A ideia de “pós-verdade” dialoga diretamente com a do “parênteses de Gutenberg” uma vez que ambas denunciam a credibilidade que a imprensa perde e questionam o que surge no lugar.

“O que está acontecendo agora é que há uma quebra nas categorias. Sim. Mensagens informais estão começando a se parecer com livros. E livros estão sendo feitos mais rapidamente”, comenta Pettitt à publicação Nieman Lab. “Eu acredito que a imprensa, o jornalismo, e os jornais, terão que encontrar seu caminho. Eles terão que encontrar uma forma de se distinguir disso – agora é um mundo de comunicação sobreposta. As pessoas não assumem mais que um jornal está certo (…) Estar impresso não é mais uma garantia da verdade”, comenta.

Nesse contexto, defendem Pettitt e Sauerberg, estamos em uma “restauração”da comunicação da Idade Média. E se antes as autoridades e referências estavam em Deus, na natureza, ou em qualquer outra instituição, hoje elas não estão em nada. “O problema é que, nos tempos de hoje, depois dos parênteses, você precisará encontrar um novo senso de autoridade”, comenta Sauerberg em entrevista à Columbia Journalism Review.

E como eram as vidas das pessoas em tempos de comunicação oral, como na Idade Média? Pouco sabemos, já que nem toda a história foi contada. Mas, de acordo com Pettit, a palavra-chave é conexão. Segundo ele, as pessoas não viam tanto o conceito de ‘dentro’ e ‘fora’ e eram menos apegadas à ideia de nações. Viviam mais como Hobbits, que sabem quem são seus parentes mais distantes e qual era sua relação com cada um. “Eles se identificavam como um nó em uma rede e viam caminhos, conexões para outras pessoas em sua família estendida”, comenta.

Em tempos de conexões digitais, queda da credibilidade da imprensa e crescimento de confiança em boatos e histórias orais, as ideias dos autores não parecem tão distantes.

Estaríamos voltando à Idade Média?

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