Rede Dandara, o mapa das psicólogas negras brasileiras
Rede Dandara
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Rede Dandara, o mapa das psicólogas negras brasileiras

Aretha Yarak em 28 de setembro de 2017

Dandara dos Palmares foi uma guerreira negra que atuou ativamente contra o sistema escravocrata do século 17. Mãe, dona de casa, lavradora, estrategista de guerra, mulher e esposa. Ao lado do marido, exerceu um forte papel de liderança contra a escravidão e na defesa do quilombo em que viviam. “Mas o seu nome foi apagado da História e hoje só conhecemos a vida do marido, o Zumbi de Palmares”, comenta a psicóloga Laura Augusta. Ao lado da colega Tainã Vieira de Palmares, ela criou em agosto de 2016 a Rede Dandara.

O projeto está mapeando as psicólogas negras de todo o país e tem como propósito promover saúde mental no combate à misoginia, especialmente na luta antirracista. “E Dandara é essa força, esse símbolo, por isso a homenagem. Sua história silenciada carrega a mensagem de que precisamos falar mais sobre nossas narrativas e estar sempre atentas”, comenta Laura.

Rede Dandara como superação do racismo na educação

À época alunas do curso de psicologia, Laura e Tainã lidavam com o preconceito quase que diariamente. A atitude era percebida nos olhares mais demorados, normalmente causados pela maneira como se vestiam, até nas desconfianças de suas capacidades enquanto mulher.

A descrença no feminino é ainda mais forte se a mulher é negra.

Em agosto de 2016, elas decidiram criar um espaço de fortalecimento contra o racismo institucional. A ideia era ter um local seguro para acolher e ouvir as demandas de cada uma das mulheres negras da instituição que quisessem participar. “Embora fôssemos alunas de psicologia, não havia um cunho terapêutico ou um norteamento teórico. Criamos a Rede Dandara para nos fortalecer nessa luta”, comenta Laura.

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Os encontros aconteciam a cada quinze dias dentro da própria faculdade. Neles, elas falavam sobre as dificuldades e fragilidades emocionais que surgiam no processo de se conectar com sua negritude — como durante a transição capilar (da obrigação do liso para a aceitação do afro) e do seu reconhecimento estético. Mas a Rede Dandara também era um local para fomentar o estudo e discussões de textos sobre racismo de gênero.

“Na psicologia, há um movimento de escrita sobre relações raciais e de gênero produzida por homens, geralmente brancos. É um olhar da nossa realidade que não condiz realmente com quem somos”, comenta Tainã.

Rede Dandara de psicólogas negras

No início de 2017, depois de concluírem a graduação em psicologia, Laura e Tainã continuaram à frente da Rede Dandara. Fora dos muros da faculdade, o primeiro projeto de fôlego da dupla foi iniciar o mapeamento das psicólogas negras do Brasil. A iniciativa tem o objetivo de fortalecer a representatividade dentro da categoria.

Ao conhecer as mulheres negras, e suas próprias vozes, elas pretendem construir e articular ações que fortaleçam os laços para o enfrentamento do ponto de vista da saúde mental deste público.

Rede Dandara

Foto: Reprodução

“A Rede Dandaras surge de uma inquietação pela forma que as mulheres negras são atravessadas brutalmente pela estrutura racista e machista que as oprime nos serviços de saúde. Como quando não são mencionadas nas Políticas de Atenção Integral da População Negra e da Mulher e na assistência do serviço da Lei Maria da Penha. Elas são revitimizadas pelo não funcionamento, fazendo com que o índice de feminicídios aumente para nós”, disse Laura ao portal Soterpreta.

Atualmente, mais de 500 mulheres estão no cadastro do mapeamento das psicólogas negras. Apesar de ter começado em Salvador, na Bahia, o mapa hoje tem abrangência nacional e é continuamente divulgado via redes sociais.

“O levantamento não tem previsão de ser encerrado. Não queremos isso, ele continua em aberto e recebendo dados de todas as profissionais que quiserem participar. Quanto mais gente conseguirmos incluir, mais mulheres serão beneficiadas”, afirma Tainã.

Atuações da Rede Dandara

Além do mapeamento, a Rede está à frente de diversas oficinas e encontros que visam aumentar a promoção da saúde da mulher negra, por meio do pertencimento à identidade, construção de gênero e territorialidade. Como o projeto Dialogando, que promove encontros mensais no formato de rodas de conversas em torno de um tema específico, mas de interesse à população negra. Direcionado à comunidade acadêmica, o Bate Boca traz palestras sobre temas variados, que são tratados com as especificidades de gênero, raça e classe.

Para tentar aumentar as discussões e a consciência de raça na sociedade, a Dandara realiza ainda algumas oficinas de turbante. “Nesses momentos, a gente começa a falar sobre perspectivas de raça e prevenção e promoção de saúde para um público que, normalmente, não está muito atento a isso”, comenta Tainã.

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