Segunda Chance reduz a criminalidade dando emprego para ex-detentos
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Segunda Chance reduz a criminalidade encontrando emprego para ex-detentos

Camila Luz em 5 de agosto de 2016

Quando deixam a prisão, ex-detentos enfrentam preconceito da sociedade e burocracias que dificultam o processo de conseguir um emprego. Sem renda, acabam voltando para a criminalidade. Para evitar que isso aconteça, o projeto Segunda Chance orienta essas pessoas para que encontrem  uma colocação no mercado de trabalho.

O Segunda Chance existe no Rio de Janeiro e é um projeto do Grupo Cultural AfroReggae. Funciona como uma agência de emprego para ex-detentos e suas famílias. “Hoje, atendemos qualquer pessoa que nos procurar. Com o tempo e a experiência, percebemos que as famílias também precisam de ajuda”, conta o coordenador João Paulo Garcia.

O que o ex-detento enfrenta fora da cadeia

João explica que documentos de detentos costumam sumir quando estão presos. Há, ainda, presidiários que nunca os tiraram. Quando saem, o processo para tirar esses papeis é demorado. “O egresso [ex-detento] sai do sistema prisional sem documentação ou qualificação. Encontra sua família toda desestruturada e é ele que precisa dar o suporte”, explica.

Sem documentos, nenhuma empresa os contrata. “Ele não tem tempo para se preparar e se qualificar. Enquanto isso, o filho dele está chorando de fome e a porta para a criminalidade está ali, escancarada. Ele vai voltar”, afirma João. Por isso, o Segunda Chance também auxilia familiares de presidiários, para que possam sustentar a casa enquanto o ex-detento se reestrutura e procura por uma nova oportunidade.

Quando ele sai do sistema prisional e encontra uma família sólida, tem mais tempo e não precisa se desesperar e voltar para a criminalidade.

O Segunda Chance trabalha com várias empresas e a maioria das vagas disponíveis são operacionais, como telemarketing e construção civil. Há poucas que exigem nível superior. O projeto orienta o egresso e encaminha seu currículo para diversas seleções. Caso não consiga o emprego, é direcionado para outra oportunidade, até que consiga se estabelecer.

pessoas sentadas fazendo prova

O CIEE e a Agência Segunda Chance em processo seletivo para o Programa Jovem Aprendiz 2016. Foto: Reprodução/AfroReggae

João Paulo conta que hoje está mais difícil empregar ex-detentos por causa da crise econômica. “Eles estão disputando vagas com pessoas cada vez mais qualificadas. Mas continuamos com a nossa luta”, conta.

O coordenador diz que as principais dificuldades enfrentadas são o preconceito da sociedade e a burocracia do Estado, que não facilita a vida do ex-detento que quer se reestruturar e encontrar um emprego. O Segunda Chance tem sua dose de sucesso por carregar a credibilidade do AfroReggae, grupo que trabalha com jovens de camadas populares para a transformação social há mais de vinte anos.

Acreditar na segunda chance

O Segunda Chance nasceu em 2008 com o nome Empregabilidade. Na época, José Júnior, fundador do AfroReggae, ajudava pessoas a saírem da criminalidade oferecendo empregos no grupo cultural. “Elas trabalhavam em projetos que o AfreReggae fazia dentro da comunidade. Mas não tinha espaço para todo mundo. Então o Júnior decidiu criar uma agência para fazer parcerias com empresas que pudessem oferecer vagas”, explica João.

O próprio João Paulo saiu da criminalidade quando Júnior o estendeu a mão e o convidou a trabalhar dentro do Segunda Chance, no final de 2009. “Eu era um ex-traficante e estava saturado, não queria mais isso para a minha vida. Me sentia em uma prisão sem muro. Antes do AfroReggae chegar, eu não via luz no final do túnel”, conta. “Deixei o sistema prisional, estava limpo, e o Júnior disse que se eu quisesse mudar de vida, ele me dava um emprego”.

Para João Paulo, a sociedade é muito preconceituosa e não acredita no ex-detento, a não ser que exista uma instituição por trás que passe credibilidade. “Se não fosse o AfroReggae eu não tinha parado com o crime. Acho que já estaria preso ou morto”, revela.

Além de funcionar como uma agência de empregos, o Segunda Chance atua de outras formas dentro da sociedade. Faz mediação de conflitos, apoia quem quer deixar o crime para trás ou se entregar. Dentro do próprio projeto, muitos dos cargos são ocupados por antigos criminosos. “Dentro da nossa agência, trabalha um ex-miliciano, um ex-terceiro comando… pessoas que já foram de todas as facções do Rio de Janeiro. O ex-detento que nos procura consegue desabafar de uma forma que não conseguiria com a assistente social. A gente fala a mesma língua”, defende.

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Os ex-traficantes que trabalham no Segunda Chance também servem de inspiração para os egressos, que acabam percebendo que há sim formas de sair do crime. “Cada egresso que a gente tira da criminalidade e coloca no mercado é um delito a menos que pode acontecer com a minha mãe, com a sua, com meu filho, com seu filho”, pondera.

Para João Paulo, a sociedade precisa adquirir a consciência de que a redução da criminalidade passa pela reintegração do ex-detento. “Se a sociedade pensasse assim, a gente não ia resolver todo o problema da criminalidade, mas ia evitar o risco”, diz.

A cada ex-detento empregado são duas vidas salvas: a da vítima e a dele próprio.

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