Serviços de manutenção doméstica para mulheres: conheça o M'Ana
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Foto: Istock/Getty Images
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M’Ana: Mulher conserta para mulher — o serviço de manutenção doméstica feminino

Camila Luz em 10 de novembro de 2016

Habilidades manuais não são para todo mundo. Para algumas pessoas, mesmo trocar a resistência parece uma tarefa de Hércules. Por isso, quando o chuveiro queima, é preciso encontrar alguém para consertá-lo que faça um bom trabalho e ainda não cobre uma fortuna. Se você for mulher, há chances de ter que lidar também com outro problema: receber um homem em sua casa e esperar que ele não te assedie verbalmente (ou pior) enquanto realiza os serviços de manutenção doméstica.

Felizmente, há empresas formadas por mulheres que prestam serviços de manutenção para que clientes mulheres possam se sentir seguras em suas casas. É o caso da “M’Ana – Mulher Conserta para Mulher”, das sócias Ana Luisa Monteiro Correard e Katherine Pavlovski.

A M’Ana oferece serviços de manutenção residencial elétrica, hidráulica, montagem de móveis, pintura e fixação de quadros, prateleiras e o que for preciso. Katherine, que é arquiteta e fez curso de eletricista, também faz a troca da fiação inteira e oferece serviços de arquitetura, como projetos e pequenas manutenções. Já Ana instala o sistema Drywall (parede seca). As duas estão se capacitando na parte hidráulica.

Serviços de manutenção por mulheres e para mulheres

A ideia de prestar serviços de manutenção doméstica para mulheres surgiu quando Ana foi assediada verbalmente por um entregador de gás. Incomodada, começou a falar com amigos sobre o ocorrido, que a estimularam a oferecer seu trabalho. Ana é formada em cinema e já tinha habilidades em hidráulica, elétrica e conserto de móveis.

Decidiu postar um flyer no Facebook oferecendo seus serviços. O post foi compartilhado mais de mil vezes em apenas 24 horas e acabou caindo no feed de sua futura sócia.

Katherine já estava cansada de trabalhar dentro do escritório de arquitetura. Sua paixão é ir à campo, mas nesse caso é preciso lidar com o machismo dos operários. “Trabalhei em construções durante três anos, mas foi muito difícil, pois é um ambiente extremamente masculino, então a mulher precisa ficar se provando e se afirmando o tempo todo”, explica. “Foi um desgaste, preferi colocar minha saúde em primeiro lugar. Tinha muita enxaqueca e vivia estressada”, conta ela.

A arquiteta já pensava em ter seu próprio negócio quando mandou mensagem para Ana no Facebook após ver o flyer, oferecendo sociedade. A união só virou quando as duas se encontraram em um fórum da Rede Mulher Empreendedora. “A Rede nos dá esse incentivo de empreender, pois as mulheres que empreendem no Brasil são realmente pouquíssimas”, afirma.

Negociando com tubarões

meninas participando do programa Shark Tank

Foto: Reprodução/Facebook

A sociedade acabou dando certo e, hoje, as empreendedoras mal dão conta de atender os inúmeros pedidos que recebem em São Paulo. Para expandir o negócio e oferecer mais serviços, as sócias participaram do programa “Shark Tank – Negociando com Tubarões”, do canal Sony.

No reality show, empreendedores apresentam suas ideias e jurados escolhem se desejam ajudá-los ou não. O M’Ana chamou atenção de três grandes nomes do empreendedorismo brasileiro: a investidora-anjo Camila Farani, o fundador do China in Box Robinson Shiba e a dona da Phytoervas Cristiana Arcangeli.

“Recebemos R$ 100 mil por 10% da empresa. Com esse dinheiro, e com a mentoria deles, vamos franquear nossos serviços”, conta Katherine. As sócias já estão treinando quatro outras mulheres que serão como suas franquias em São Paulo. O próximo passo será expandir para o resto do Brasil.

Feminismo e força

Para selecionar as quatro franqueadas, Ana e Katherine fizeram entrevistas para entender se essas mulheres realmente teriam condições de realizar os serviços. “Já tivemos duas funcionárias, mas não deu certo pois elas tinham o perfil errado”, conta a arquiteta. “O empoderamento feminino está muito na moda. Muita menina fica deslumbrada e quer ajudar. Mas quando entra na empresa e vê que o trabalho é extremamente braçal, não aguenta o tranco”, completa.

“Tem dias em que você só monta um móvel ou coloca uma prateleira super leve. Mas tem outros nos quais é preciso quebrar parede, carregar móveis”, explica Katherine.

As sócias procuravam mulheres realmente interessadas em prestar serviços de manutenção doméstica, mas que também estivessem verdadeiramente engajadas no feminismo. Por isso, perguntaram qual a opinião das candidatas sobre o movimento e se se consideram feministas.

“Escolhemos meninas que fazem de tudo. Algumas já foram mecânicas, eletricistas e já fizeram mil coisas, desde trabalhar como babá até cortar cabelo”, conta. “Procurávamos mulheres no perfil batalhadora“, diz Katherine.

Empodere-se

As sócias também estão dando cursos para capacitar mulheres que desejam aprender a fazer consertos em casa, como elétrica e hidráulica básica. “Estamos ensinados donas de casa que querem aprender o básico ou não querem ser enganadas quando recebem um prestador de serviço”, explica. “Está sendo muito gratificante. Elas manda fotos mostrando que aprenderam a usar a furadeira, a trocar tomada… é muito bacana”, conta Katherine.

Foto: Reprodução/Facebook

Foto: Reprodução/Facebook

Muitos prestadores de serviço, quando fazem consertos em casas de mulheres, acabam cobrando mais do que deviam ou fazendo meia boca pois consideram que elas não entendem do assunto. Além disso, Katherine conta que muitas de suas clientes já passaram por algum tipo de trauma por abuso.

“Já atendemos cliente que havia sido estuprada, foi um caso bem difícil. Ela não conseguia sair de casa e estava enfrentando muitos problemas emocionais. Ela nos deixou entrar pois somos mulheres”, relembra. “Teve outro caso de uma menina que havia acabado de mudar para São Paulo para fazer faculdade. Ela precisava montar um armário e chamou um prestador de serviços. Quando foi pagar, o homem passou a mão na bunda dela e disse que estavam quites”, conta.

Para Katherine, mulheres que passam por esse tipo de situação devem sempre denunciar o prestador. Caso ele faça parte de uma empresa, deve-se prestar queixa em seu local de serviço. “Não adianta deixar quieto, você tem que fazer algo, senão as coisas nunca vão mudar”, opina.

“Sou de Curitiba e fui criada por uma família extremamente conservadora. Antes, os caras faziam comentários maldosos e eu ficava quieta. Hoje, penso que isso me incomoda e tenho de falar o que penso. Temos que fazer essa reeducação, pois o assunto é sério. A gente ficava quieta pois pensa que é normal — mas não é”, finaliza.

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