Transerviços: uma plataforma que não discrimina transexuais e travestis
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Foto: Istock/Getty Images
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Transerviços quer a não discriminação de pessoas transexuais e travestis

Emily Canto Nunes em 16 de agosto de 2016

Já faz alguns meses que se tornou praticamente impossível passar um dia sequer no Brasil sem escutar a palavra crise. Mas enquanto para grande parte dos brasileiros ela é passageira, existe uma população que mata um leão por dia independente do País estar em crise ou não. Estamos falando de pessoas transexuais e travestis.

Infelizmente, o Brasil é campeão mundial de assassinatos de pessoas transexuais e travestis. E se não bastasse isso, a discriminação faz com que a maioria delas não consiga completar seus estudos e esteja fora do mercado de trabalho formal. Foi pensando no que pode ser feito por seus pares que Daniela Andrade, ativista e hoje programadora da ToughtWorks, desenvolveu o Transerviços, uma plataforma de troca de serviços onde pessoas físicas podem “contratar uma das talentosas pessoas trans e travestis que anunciam no site ou ainda indicar algum serviço que é verdadeiramente respeitoso com as pessoas trans e travestis”.

texto explicando quais são os direitos que deveríamos ter

Foto: Reprodução/Site

“A ideia também é que transexuais e travestis possam encontrar um serviço que não os discriminem, porque no Brasil parece que trans ou travesti só pode ter AIDS ou DST. Se a pessoa está com dor de barriga já mandam para o centro que tratam essas doenças. Em serviços muito básicos essas pessoas são discriminadas. Quem é que liga para um dentista e pergunta se ele atende cisgênero? A pessoa trans ou travesti pergunta. Nossa ideia é reunir serviços que não discriminem essa população, dentistas e até psicólogos”, conta Daniela.

O Transerviços é o segundo projeto encabeçado por Daniela. O primeiro foi o TransEmpregos. Há quase cinco anos no ar, o TransEmpregos é uma ideia que nasceu de um grupo de pessoas trans preocupadas com a empregabilidade de transexuais e travestis no Brasil. Segundo o próprio site, o Brasil um país em que essa população ainda se encontra grande parte das vezes desempregada, precisando negar a própria identidade de gênero para encontrar uma vaga ou mesmo sendo obrigada a trabalhar em empregos informais nos quais, via de regra, não são valorizadas.

texto explicando o que podemos fazer para mudar

Foto: Reprodução/Site

Ambos os sites são independentes (embora o Transerviços tenha contado com o apoio da ToughtWorks) e não visam lucro. Segundo Daniela não faz o menor sentido cobrar de uma população em que 90% das pessoas precisam se prostituir para seguir vivendo.

Iniciativas totalmente pessoais, o Transerviços e o TransEmpregos não são ligados a nenhuma empresa em específico e a nenhum partido político, mas possuem alguns parceiros. Muito embora Daniela enxergue as plataformas como um grão de areia, ela e seus pares buscam sim apoio de quem esteja interessado em uma inclusão e em uma diversidade de verdade e que queria ajudar a financiar esses projetos.

“É muito mais difícil sensibilizar um organismo enorme como uma empresa, porque não adianta ir lá e falar com o RH porque muitas vezes a pessoa trans ou travesti vai ser contratada, mas não vai trabalhar no RH, vai para outro setor. É muito mais difícil sensibilizar departamentos inteiros do que uma pessoa, por isso fizemos o Transerviços. É um trabalho de formiguinha. Eu tenho certeza que vou morrer e vou continuar vendo a população trans e travesti sendo tratada como indigente no Brasil”, pondera.

Pessoas transexuais e travestis no mercado de trabalho

Quando o assunto é mercado de trabalho para pessoas transexuais e travestis, Daniela é taxativa e diz que as empresas não estão nem um pouco preocupadas e preparadas para recebê-las em seus ambientes de trabalho.

Quando você se debruça sobre o que essas empresas estão chamando de inclusão e de diversidade você percebe que na verdade elas estão incluíndo os homens gays, brancos, burgueses e cisgênero que tiveram diversas oportunidades na vida. Lá não está a lésbica negra da periferia, a travesti, a mulher transexual ou o homem trans.

De acordo com ela, quando se fala de inclusão e diversidade com o público LGBT é desse público que se está falando. Segundo Daniela, nem empresas nacionais nem multinacionais estão preocupadas com pessoas trans e travestis ainda, de nenhum porte ou setor. “As empresas normalmente não querem ter seu nome associado a essa população porque ela é muito discriminada, ninguém aprende na escola o que são transexuais e travestis, mas a mídia, esse quarto poder, se encarrega de ensinar tudo errado”, afirma ela, que excluí dessa lista a ToughtWorks, que cedeu seus desenvolvedores para ajudá-la no projeto do Transerviços.

No mundo ideal, diz Daniela, o Transerviços não deveria nem existir. “O fato dessa plataforma existir já mostra que há um problema muito grande. Por algum motivo esse site é necessário. A conscientização parte de pessoa para a pessoa, porque os poderes constituídos não se importam com essa população. Você fazendo a sua parte, eu fazendo a minha parte, cada um fazendo a sua parte, quem sabe assim, daqui a algumas gerações, isso tenha mudado”.

No mercado de trabalho, a conscientização também é de pessoa para a pessoa. “Tem que conscientizar a recepcionista da empresa e a faxineira para que elas saibam responder à pergunta de que banheiro usar. Você vai tratar a mulher travesti ou transexual da mesma forma que as outras mulheres na empresa. Na hora que ela pedir para usar o banheiro, ela vai usar o banheiro feminino, porque o banheiro tem cabine privada. Eu nunca vi o genital de ninguém no banheiro e ninguém viu o meu. Esse é um problema enorme para as empresas. E se ela pedir para ser chamada de Maria, chame de Maria porque não vai cair sua língua. Também é preciso avisar na recepção que o documento da pessoa vai ser diferente da forma como ela se identifica porque é extremamente difícil mudar os documentos no Brasil. E, na dúvida, pergunte para a pessoa que banheiro ela quer usar”, comenta Daniela.

Ainda no começo, o Transerviços vem sendo bem recebido por todos, mas ela pondera que existe uma enorme quantidade de gays e lésbicas transfóbicos também.

Todos moramos nessa mesma sociedade preconceituosa onde somos adestrados a sermos transfóbicos. A única coisa que separa de fato uma pessoa trans ou travesti de uma pessoa cisgênero são as oportunidades. Os trans não tem oportunidade, com raríssimas exceções.

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