A vida simples ainda é possível -- e pode ser a única saída
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A vida simples ainda é possível — e pode ser a única saída

Camila Luz em 13 de dezembro de 2016

Acumular poucos bens, precisar de menos dinheiro, não ser escravo do relógio… levar uma vida simples parece utópico e romantizado na realidade consumista do século 21. Mas esse conceito já foi discutido em diferentes momentos da história e ainda chama atenção até dos menos idealistas.

“Quanto menos desejos você tem, mais perto está dos deuses”, disse o filósofo grego Sócrates. Outros pensadores também consideram a vida simples a única possível, como o poeta e naturalista do século 19 Henry Thoreau e o autor estadunidense Wendell Berry, ainda vivo. Hoje, certos movimentos e práticas se empenham para trazê-la de volta dentro do contexto atual.

Pense nesta rotina: você acorda quando o despertador toca, toma café apressado e sai de casa para trabalhar. Passa o dia fora de casa e volta no final da tarde, cansado. Se pratica esportes, o faz durante um horário estrategicamente encaixado na sua agenda. Durante a noite, vê televisão e vai dormir para, no dia seguinte, começar tudo de novo.

Sua rotina pode não ser exatamente assim, mas boa parte do seu tempo é provavelmente destinado a atividades que têm um objetivo principal: ganhar dinheiro para pagar contas e acumular bens. O tempo é o bem mais precioso e também o que mais está em falta hoje. Em artigo para o site Aeon, Emrys Westacott, professor de filosofia na Alfred University (Estados Unidos), discute se a vida simples ainda é possível hoje — e se é a melhor opção para todos nós.

Recapitulando

Durante grande parte da história da humanidade, a simplicidade frugal não era uma escolha, mas uma necessidade. Também já foi considerada uma virtude moral. Mas com o capitalismo industrial e a construção da sociedade de consumo a partir do século 19, nasceu um sistema comprometido com o crescimento implacável.

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Inserida nesse sistema, a população foi encorajada a consumir cada vez mais. No entanto, há uma discrepância entre o que filósofos e pensadores ainda aconselham – que é a vida simples — e valores de consumo. Hoje, quadros de estresse, doenças cardíacas e outros distúrbios costumam ser associados ao ritmo de vida intenso e a recomendação de profissionais é desacelerar. Mas como é possível diminuir o ritmo?

Westacott explica que nos tempos pré-modernos, a discrepância entre o que os filósofos aconselhavam e como as pessoas viviam não era tão grande. A riqueza proporcionava segurança, mas mesmo para os ricos a proteção era frágil contra infortúnios como guerra, doenças, injustiças e fome. Quanto à grande maioria – escravos, servos, camponeses e trabalhadores – não havia praticamente nenhuma perspectiva de acumular riqueza, mesmo modesta.

Além disso, antes da mecanização da agricultura, da democracia representativa, dos direitos civis, dos antibióticos e da aspirina, viver uma vida longa, sem tantos sofrimentos, era mais do que suficiente. Hoje, pelo menos em sociedades prósperas, os cidadãos querem e esperam muito mais. Simplesmente viver é um golpe considerado chato e entediante.

Millennials querem uma vida simples?

No entanto, há um crescente interesse em redescobrir os benefícios da vida simples, principalmente entre os millennials. Parte disso pode refletir uma espécie de nostalgia em relação ao mundo pré-industrial ou pré-consumista, e também simpatia pelo argumento de que viver de forma simples faz de você uma pessoa melhor.

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A vida simples construiria traços de personalidade desejáveis, como frugalidade, resiliência e independência. Também promoveria felicidade, paz de espírito e boa saúde, além de manter o indivíduo próximo da natureza.

Millennials também parece estar preocupados com a questão da sustentabilidade. Hoje, jovens são os que mais se preocupam com as consequências das mudanças climáticas. Lidar com os impactos negativos causados pelo homem é urgente para que a humanidade tenha futuro neste planeta. E, para isso, nada melhor do que adotar práticas sustentáveis, como consumir menos recursos e reciclar.

Novos movimentos a favor da vida simples surgiram nos últimos anos, como o lowsumerism (consumir pouco) e o slow movement (fazer melhor e devagar). Práticas como a meditação e a yoga estão sendo valorizadas, para reequilibrar corpo e mente.

A busca pela vida simples é legítima, mas há um quê de hipocrisia: a maioria de nós continua a comprar bilhetes de loteria, trabalhar longas horas, acumular dívidas e lutar 24 horas por dia para ganhar mais e mais dinheiro.

A vida simples ainda está distante

Para Westacott, a primeira resposta óbvia para o abismo entre valores e estilo de vida realmente é a hipocrisia. “Aplaudimos a filosofia frugal, ignorando seus preceitos em nossas vidas diárias. Elogiamos o estilo de vida simples e, digamos, o papa Francisco, vendo-o como um sinal de integridade moral, enquanto também esperamos e aplaudimos o crescimento econômico – em grande parte por uma demanda por casas maiores, carros mais luxuosos e outros bens”, argumenta.

O conflito entre crença e prática não é o único problema. O pensamento sobre simplicidade e luxo ainda é inconsistente. A extravagância é condenada, mas pense em grandes monumentos do passado valorizados pela maioria, como a Cidade Proibida, em Pequim, e o Palácio de Versalhes. Milhões os visitam todos os anos e os consideram admiráveis.  “Na verdade, muito do que chamamos de ‘cultura’ é alimentado por formas de extravagância”, completa o filósofo.

Paradoxalmente, a vida simples parece mais persuasiva quando a maioria das pessoas tem pouca escolha a não ser viver dessa forma. Os argumentos tradicionais para viver com simplicidade são racionais, mas têm menos apelo quando esse estilo é uma escolha, uma maneira de viver entre muitos.

Mas para o filósofo, isso poderá mudar em breve sob a influência de dois fatores: economia e ambientalismo. A recessão econômica atingiu muitos países nos últimos anos, inclusive o Brasil. Milhões de pessoas se viram em circunstâncias onde a frugalidade novamente se torna uma necessidade, e o valor de suas virtudes associadas é redescoberto.

Há, ainda, a questão das desigualdades sociais, presentes em sociedades extremamente consumistas, como a estadunidense. Por fim, a principal questão é a ambiental. Depois de dois séculos de industrialização, crescimento populacional, poluição, erosão do solo, desmatamento, mudanças climáticas e extinção de espécies, chegou a hora de prestar atenção no argumento final de Westacott:

“A filosofia da simplicidade frugal expressa valores e defende um estilo de vida que poderia ser a nossa melhor esperança para reverter essas tendências negativas [ambientais] e preservar os ecossistemas frágeis de nosso planeta”.

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