Alimentação saudável: como saber a origem do que você consome
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Alimentação saudável: como saber a origem do que você consome

Camila Luz em 12 de abril de 2017

Diante do escândalo da carne ocorrido no início de 2017, muitos brasileiros passaram a questionar a origem do que consomem. Como manter uma alimentação saudável se nem mesmo sabemos a procedência da comida que chega até nosso prato?

Vários fatores contribuem para que a qualidade da nossa alimentação seja prejudicada. O tempo escasso para cozinhar nos leva a comer fora mais do que gostaríamos. Em casa, pode ser mais fácil esquentar uma lasanha de microondas do que tirar uma hora do seu dia para arregaçar as mangas e preparar a refeição. Alimentos industrializados que contribuem para doenças como colesterol e diabetes são parte integrante do nosso dia a dia.

Além disso, quem vive na cidade raramente cultiva seus próprios alimentos e sequer conhece o fornecedor que os produz. Frutas, verduras, legumes, grãos e carnes são adquiridos em locais como açougues, mercados e, às vezes, feiras. Crianças mal sabem de onde vem o arroz com feijão que consomem no almoço. Eles vêm da terra? Ou será que nascem em árvores?

Roberto Debski, médico e diretor da clínica Ser Integral de Santos, afirma que há muitas formas de manter uma alimentação saudável e conhecer a origem do que consumimos. Mas isso demanda tempo e, principalmente, atenção.

Primeiros passos para adotar uma alimentação saudável

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“O ideal é começar a substituir cada vez mais os alimentos industrializados, enlatados e empacotados por alimentos comprados na feira, que sejam naturais”, explica Roberto. “Procure por legumes, verduras e frutas de boa procedência. Em vez de tomar um suco de caixinha, que tem muito açúcar, coma a fruta ou faça um suco dela. Quanto mais alimentos naturais e menos industrializados, melhor”, completa.

O médico reconhece que existe a questão da praticidade e não é possível escapar sempre dos industrializados. Mas consumir alimentos com alto teor de açúcares e gorduras deve ser a exceção, e não a regra.

Frituras, doces industrializados e alimentos prontos comprados no mercado, como nuggets, bolacha recheada, bolo de saquinho e pizza congelada devem ser consumidos com menos frequência. Na hora de preparar uma refeição, substitua os temperos em pó por naturais. Pique a cebola e o alho, compre ramos de manjericão na feira e evite o que vem embalado. Além disso, prefira alimentos integrais e orgânicos.

O alimento integral é aquele que não foi refinado, portanto mantém sua estrutura e integridade dos nutrientes. Refeições ricas em grãos e cereais que não passaram pelo processo de refinamento preservam vitaminas, minerais e fibras. Que consome integrais consome menos processados.

Já os orgânicos são todos os produtos provenientes de um sistema agrícola que evita o uso de fertilizantes artificiais, pesticidas, hormônios e outras substâncias químicas. Quem opta por consumi-los ingere alimentos menos prejudiciais à saúde, mais nutritivos e mais saborosos, com sabor e aroma intensos,

Quais substâncias evitar nos alimentos industrializados

Deixar de consumir produtos industrializados é difícil, mas é possível optar por produtos que prejudicam menos a saúde. Evite os que têm excesso de carboidratos e substâncias artificiais, como aromatizantes e corantes, que podem dar alergia.

No Brasil, a composição dos produtos industrializados não é tão detalhada no rótulo quanto nos EUA. “Nos Estados Unidos, tudo está indicado no rótulo, como xarope de milho e adoçantes artificiais, os principais responsáveis pela epidemia de obesidade”, explica Roberto.

Ainda que os rótulos sejam menos detalhados aqui, é possível identificar os mais prejudiciais. Compare produtos de marcas diferentes para descobrir qual tem menos açúcar, carboidratos e substâncias artificiais. Caso a quantidade seja alta, independente da marca, não consuma.

Além de evitar produtos altamente industrializados, Roberto aconselha novamente a comprar alimentos livres de agrotóxicos. Orgânicos podem custar mais caro no mercado, mas o custo-benefício compensa. Ele defende:

Você vai gastar mais no alimento, mas provavelmente vai poupar dinheiro com medicamentos no futuro. Você terá mais qualidade de vida e viverá de forma mais plena e feliz.

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Leia os rótulos

Na hora de comprar qualquer alimento de origem vegetal e animal, como vinho, mel, leite, carnes e peixes, verifique se foi certificado com o selo do Ministério da Agricultura. No caso de produtos industrializados, procure pela aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Segundo a Anvisa, 70% dos consumidores consultam o rótulo dos alimentos, mas mais da metade não sabe o que eles significam. A agência preparou um manual para que mais pessoas aprendam a ler rótulos e saibam o que é importante.

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Em primeiro lugar, nunca deixe de consultar a data de validade. O segundo passo é ler a lista de ingredientes para identificar a presença de açúcar, sacarose, glicose e outras substâncias. O ingrediente que aparece no topo da lista está presente em maior quantidade, enquanto o que aparece por último está em menor abundância.

Alimentos de ingredientes únicos, como leite, farinha de mandioca e café, não precisam revelar a lista de substâncias que os compõem. Nesse caso, veja quem é o fabricante e pesquise sua reputação. Todos os produtos devem apresentar sua origem no rótulo e checar essa informação é fundamental para ter uma alimentação saudável.

Na hora de consumir, verifique as informações nutricionais e a porção indicada. Alimentos industrializados apresentam no rótulo a quantidade de proteínas, carboidratos, gorduras e outras substâncias presentes em cada porção do produto. O indicado é consumir apenas uma por dia, mas isso pode variar de acordo com suas condições de saúde.

Para Roberto, aprender a ler os rótulos é essencial para evitar enganos. Muitos alimentos são vendidos como integrais ou orgânicos, mas na verdade contêm apenas alguns ingredientes saudáveis. “O pão integral, por exemplo, pode conter muito açúcar, farinha branca e pouquíssima faria integral. Se você é hipertenso, diabético ou quer emagrecer, esse alimento pode não ser o mais indicado”, afirma.

“Temos que aprender a ler os rótulos. Temos que saber a quantidade de sódio, gordura e carboidratos e conhecer melhor aquilo que ingerimos. A pessoa deve se educar e fazer boas escolhas”, completa.

Educar as crianças para uma alimentação saudável

Hábitos adquiridos durante a infância podem nos acompanhar pelo resto da vida. Comer alimentos industrializados quando criança é um costume que perdura e causa complicações de saúde, como obesidade, diabetes e colesterol.

No documentário “Muito Além do Peso”, a cineasta Estela Renner acompanha crianças brasileiras obesas e revela que se alimentar mal é uma prática comum entre os pequenos. Cerca de 56% dos bebês com menos de um ano de idade no Brasil já consomem refrigerante. Quando crescem um pouco, começam a ingerir bolachas, salgadinhos e outros produtos artificiais com altos níveis de açúcar e gorduras.

Para evitar que essa realidade se perpetue entre as crianças, o Colégio Vértice, em São Paulo, incluiu projetos sobre alimentação saudável no currículo escolar. A diretora de educação infantil Maria Helena Costa conta que os alunos aprendem sobre a origem dos alimentos e têm acesso a uma pirâmide alimentar ideal.

“A culinária está presente [no currículo do colégio] há bastante tempo, mas de uns cinco anos para cá a gente vem investindo mais porque as crianças estavam cada vez mais resistentes a provar novos alimentos”, afirma. “Elas só querem comer o que é conhecido, como bisnaguinha com requeijão e pouca variedade de frutas”, completa.

O Colégio Vértice trabalha os preceitos da alimentação saudável com as crianças. Elas aprendem a manipular alimentos, entendem de onde vêm, se são frutas ou verduras, onde podem encontrá-los, que cheiro e gosto têm e assim por diante. Dependendo da faixa etária, aprendem a higienizar e cortar a comida para fazer receitas que incluam alimentos saudáveis, como patê de cenoura, sanduíche do Popeye (verduras com ricota) e o preferido da criançada: sorvete de banana com cacau.

Comida é vida, cultura e sociedade

Maria Helena conta que a maioria das crianças pensa que tudo nasce em árvore, com exceção da carne.  Então elas aprendem a plantar, colher e comer as próprias verduras e legumes que cultivaram.

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As atividades estão incluídas no currículo escolar de alunos de três a sete anos. Com crianças menores, da série Alpha 1 (três e quatro anos), o colégio trabalha outro projeto de alimentação saudável sob a perspectiva cultural e social. “Os alimentos têm uma história. Perguntamos para as crianças qual a comida favorita delas e, a partir dessas referências, começamos a explorar de onde vem a receita”, afirma Maria Helena.

Além de falar sobre a origem dos alimentos, o colégio se preocupa em ensinar que seres humanos também se alimentam por prazer e isso é uma questão cultural. As crianças aprendem a comer em grupo, arrumar a mesa e a partilhar a refeição, para que a comida adquira valor social e afetivo. Os alunos também aprendem que certos pratos são heranças culturais, como a feijoada e o acarajé.

A pirâmide alimentar

Os estudantes do colégio Vértice aprendem a montar uma pirâmide alimentar que pode ser adotada por qualquer pessoa que deseja ter uma alimentação saudável.

Na base da pirâmide estão os alimentos que vêm direto da natureza, como frutas, legumes, verduras e grãos. No meio, os que foram alterados apenas uma vez, como laticínios e a carne. No topo, estão as comidas industrializadas, que foram altamente manipuladas pelo homem.

A escola incentiva os alunos a trazer para o lanche mais alimentos que pertencem à base da pirâmide. Eles podem consumir bolachas recheadas, salsichas e achocolatados, por exemplo, mas como uma exceção. Maria Helena conta que as próprias crianças conversam entre si e chamam a atenção do amiguinho quando sua lancheira vive recheada das chamadas “porcarias”.

Os estudantes que ficam em período integral e almoçam na escola também têm acesso a um cardápio diversificado e saudável. Para a sobremesa, por exemplo, a nutricionista responsável cria doces feitos de fruta, para desmistificar a ideia de que “fruta não é sobremesa”.

A coordenadora acredita que hoje é mais difícil incentivar a alimentação saudável porque crianças são bombardeadas por delícias industrializadas por todos os lados: prateleiras dos mercados, propagandas de TV, filmes e até mesmo em casa. Para o adulto que fica o dia inteiro fora, é mais fácil alimentar o filho com nuggets e miojo. Quando faz birra, é fácil resolver: basta comprar o chocolate que vêm com o brinquedinho do personagem do seu desenho favorito.

“Pais descobrem que 80% das compras para casa são feitas com base nas crianças. É chocolate do Frozen, biscoito do Snoopy… a qualidade do alimento não é tão interessante quanto o personagem ou o brinquedinho”, diz. “Isso afetou seriamente toda uma geração. Vivemos um boom muito grande de crianças com ganho de peso, pouco saudáveis e com quadros de colesterol alto”, completa.

Para a educadora, a alimentação é uma das bases da vida. Quem não se alimenta bem tem dificuldades no processo de aprendizagem, dorme mal e vive de uma forma menos saudável. Por isso, é preciso educar os pequenos e cultivar bons hábitos nos adultos.

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