PANCs, plantas alimentícias não convencionais para variar a alimentação
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Horta de PANCs do restaurante Tuju. Foto: Reprodução/Site
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Conheça as PANCs: plantas alimentícias não convencionais

Camila Luz em 5 de outubro de 2016

Quão diversificada é a sua alimentação? Por mais colorido que seu prato fique na hora do almoço, você provavelmente consome menos do que as milhares de plantas brasileiras nativas com potencial alimentício que são não são comercializadas. As PANCs, sigla de “Plantas Alimentícias Não Convencionais”, nascem de forma espontânea em calçadas, florestas, terrenos abandonados e quintais.

O pesquisador Valdely Kinupp explica que as PANCs são plantas que não fazem parte do dia a dia da população. “Não estão em gôndolas de supermercado, bancas de feira, restaurantes, pizzaria ou merendas escolares. PANC é o que a maioria das pessoas considera mato”, diz.

Valdely é autor do livro “Plantas Alimentícias Não Convencionas (PANC) no Brasil”, em parceria com Harri Lorenzi. A obra é resultado de mais de 10 anos de pesquisa e traz 351 espécies. O país, no entanto, tem muito mais.

“O Brasil é um país mega diverso, tem mais ou menos 50 mil plantas. A média trazida pela literatura é que 10% das plantas de cada bioma são comestíveis”, conta Valdely. “Mas na minha tese de doutorado, encontrei 21%. Seriam 10 mil plantas nativas com potencial alimentício, entre condimentos, ervas, verduras, legumes e castanhas”. Alguns exemplos são taioba, cubiú, ortiga, maria sem vergonha, butiá, ora-pro-nóbis, beldroega e capuchinha.

Como começar a consumir PANCs

vasos de plantas

Foto: Istock/Getty Images

Ivan Ralston, Chef do TUJU, restaurante em São Paulo que trabalha com PANCs no cardápio, diz que é possível encontrá-las nos lugares mais inusitados: “No meu entendimento, o termo [PANC] engloba todas as espécies que ainda não são comercialmente cultivadas. Por não serem cultivadas, quando a encontramos é de forma espontânea: um pé que brota em rachaduras na calçada ou que surge em meio a um jardim de flores na cidade”.

O chef cultiva todas as PANCs oferecidas no cardápio do TUJU em uma horta cultivada na laje do restaurante. “As sementes e mudas vêm de todas as viagens que fazemos. É um projeto de constante investigação”, explica Ivan. “Também conseguimos mudas com alguns fornecedores parceiros, como a Marisa Ono, a Neide Rigo e obviamente a empresa Ervas Finas, que é nossa principal parceira na horta”, conta ele.

Quem quiser consumir PANCs em casa não terá dificuldade para encontrá-las. Estão em quintais, parques e terrenos abandonados, por exemplo. Mas não coma nenhuma planta sem saber de qual se trata. “Qualquer pessoa pode e deve procurar PANCs na natureza. Mas em um primeiro momento, não saia comendo qualquer coisa pois existem plantas tóxicas”, explica Valdely. “Vá treinando seu olho, lendo, pesquisando, conversando com pessoas que conhecem mais do que você”, aconselha.

Para aprender a consumir PANCs, também é preciso dar mais atenção à natureza que nos rodeia. “Olhe com outros olhos e outra boca a planta que o cerca. Desde aquela planta que está no seu vasinho, no seu quintal… vá olhando, fotografe, mande para botânicos, para grupos na internet, leve uma amostra para um biólogo. Procure saber seu nome e para que pode servir. Deixe de ser um analfabeto botânico”, defende.

Vantagens do consumo de PANCs

Buscar plantas na natureza traz duas grandes vantagens: consumir alimentos orgânicos e diversificar a alimentação. “As PANCs, por definição, são orgânicas, desde que sejam colhidas no seu quintal. Se você não usar venenos ou agrotóxicos, elas não estarão contaminadas. São plantas silvestres, espontâneas, rústicas. Se tiver agrotóxico, é por contaminação residual de outras áreas”, explica Valdely. “Mas seguramente são muito mais limpas para consumo do que plantas cultivadas”, afirma.

prato de Sardinha no Tucupi com erva-doce do TUJU

Sardinha no Tucupi com erva-doce. Foto: Reprodução/TUJU

Para o biólogo, diversificar a alimentação é outro ponto importante, para o qual é dada pouca atenção hoje. “Em média, o brasileiro vai à feira 52 vezes por ano e compra sempre as mesmas coisas: pimentão, repolho, tomate. O pimentão é um dos alimentos mais contaminados por agrotóxicos, faço campanha para as pessoas pararem de consumir”, afirma.

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O ser humano já usou de 7 mil a 10 mil plantas para consumo durante a história. Hoje, o comércio mundial é dominado por cerca de 150 espécies. Em sua maioria, são de origem euro-asiática. “Tínhamos uma diversificação alimentar e, hoje, temos uma especialização alimentar, consumindo sempre as mesmas coisas em todas as refeições. E alimentação diversa é sinônimo de saúde”, diz.

prato com ravioli produzido no Tuju

Ravioli. Foto: Reprodução/TUJU

Além de trazer alimentação mais diversificada, a popularização do consumo de PANCs poderia significar segurança alimentar para populações mais carentes e autonomia para quem não deseja depender de alimentos vendidos comercialmente. Valdely também bate na tecla da soberania nacional, já que o Brasil tem flora muito diversa e pouco explorada.

Culinária rica e diversa

Ivan também acredita que a culinária brasileira é bastante rica, mas mais combinações de sabores podem ser exploradas. “Hoje, o que nos motiva é trabalhar com esses ingredientes novos e construir novos sabores através deles. Mas, claro, sempre com muito respeito às nossas tradições”, diz.

No TUJU, é possível provar pratos com ora-pro-nóbis, beldroega, peixinho-da-horta, mangarito e taioba, além de um buquê com diversas PANCs.

O TUJU fica na rua Fradique Coutinho, 1.248, em Pinheiros.

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