As árvores se comunicam entre si; entenda como funciona
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As árvores se comunicam entre si; entenda

Kaluan Bernardo em 18 de novembro de 2016

As árvores talvez não sejam tão silenciosas e nem tão isoladas como muitos pensam. Na verdade, diversos estudiosos acreditam que elas têm um complexo e rico sistema de comunicação — que não só as ajuda a viver melhor, como também as protege de possíveis predadores.

Uma pesquisa publicada em 2013 analisou 48 estudos prévios e rigorosos sobre o tema. Richard Kaban, um dos responsáveis pela revisão notou que 40 levavam à mesma conclusão: as plantas sabem quando um predador está se aproximando e lançam compostos voláteis e químicos no ar para avisarem outras. Esses compostos tendem a afastar os insetos.

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Os primeiros estudos sobre o tema foram feitos na década de 1980. A equipe do zoólogo da University of Washington, David Rhoades, percebeu que, quando um grupo de insetos atacava um tipo de árvores, eles eram danificados e passavam a crescer lentamente. No entanto, insetos que atacam árvores em um grupo novo, porém próximo, sentiam o mesmo efeito. É como se elas estivessem sido avisadas sobre os potenciais predadores e já houvessem preparado sua defesa. No mesmo ano, em 1983, pesquisadores da Dartmouth University chegaram às mesmas conclusões em um estudo semelhante e afirmaram que plantas se comunicavam.

No ano seguinte, no entanto, o reconhecido ecologista John Lawton criticou os estudos. Sem fundos para aprimorar a pesquisa e conseguir retrucar Lawton, os pesquisadores não se defenderam e o assunto caiu no esquecimento.

O tema voltou em 1990 quando outro pesquisador, Ted Farmer, da University of Lausanne, descobriu que as plantas se comunicavam enviando componentes químicos pelo ar. Anos antes ele já havia notado que plantas conseguem transmitir informações umas às outras por pulsos elétricos. “É realmente espetacular o que plantas podem fazer”, disse à revista Quanta. “Quanto mais eu trabalho com elas, mais fico impressionado”.

A equipe de Ted Farmer testou a hipótese colocando microeletrodos em uma flor chamada Arabidopsis thaliana e deixou alguns insetos para atacá-las. Assim que os predadores chegaram perto, ondas elétricas foram irradiadas e as plantas passaram a emitir ácido jasmônico. Os cientistas notaram que, na membrana das células das plantas, haviam genes capazes de transmitir os sinais elétricos e que eles são análogos aos que animais têm para transmitir sensações ao seu corpo. “Eles obviamente vieram de um ancestral comum e estão profundamente conectados. Há vários paralelos interessantes. Com certeza há mais paralelos do que diferenças”, diz Farmer à Quanta.

Comunicação das plantas pode ser muito mais avançada do que imaginamos

O ex-guarda florestal alemão, Peter Wohlleben, acredita que a comunicação das plantas pode ir muito além. Ele diz que árvores fazem amizade, sentem solidão, gritam de dor e conseguem se comunicar por baixo do chão por uma rede de fungos. Algumas agem como famílias ou vizinhas, enquanto outras atacam espécies rivais. Vivem uma vida complexa.

Ele defende essas teses em um best-seller chamado “The Hidden Life of Trees” (“A vida oculta das árvores”, em tradução livre), sem edição brasileira. Ele cita alguns estudos, mas a maioria das teses que ele aponta vêm de sua observação trabalhando em florestas na Alemanha. “É bastante difícil descobrir se as árvores estão se comunicando quando elas se sentem bem”, diz ao jornal The Guardian.

“O que mais me surpreendeu é como as árvores são sociais. Eu tropecei em um toco velho um dia e vi que ele ainda estava vivendo por 400 ou 500 anos, sem qualquer folha verde. Toda criatura viva precisa de nutrição. A única explicação é que ele era apoiado pelas árvores vizinhas, por meio das raízes, com uma solução de açúcar. Como guarda florestal, eu aprendi que árvores podem ser competidoras que lutam uma contra a outra, por luz, por espaço, mas também vi justamente o contrário. Árvores estão muito interessadas em manter qualquer membro de sua comunidade vivo”, diz.

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Comunicando-se ao enviar sinais elétricos pelas raízes ou pela rede de fungos, as árvores podem reconhecer umas as outras e identificar quais são do seu grupo e quais não são, defende. “Pensamos nas plantas como algo robótico, seguindo um código genético. Plantas e árvores sempre têm uma escolha sobre o que fazer. Árvores podem decidir, ter memórias e até mesmo caráter diferente”, diz.

Ele defende que talvez não conseguimos perceber tudo isso porque as árvores agem e vivem em uma dimensão de tempo muito diferente da nossa. Ao Guardian, Peter Wohlleben conta que suas teorias o fizeram ver as árvores de uma nova forma e hoje ele se preocupa muito mais com desmatamento. No entanto, não quer ser visto como um hippie. “Eu não abraço árvores e nem falo com elas”, comenta.

As ideias de Wohlleben podem parecer um pouco avançadas para os mais céticos. No entanto, a ciência que temos hoje nos dá pistas nesse sentido. Ian Baldwin, um dos pesquisadores da Dartmouth University, que foi um dos primeiros a descobrir a comunicação das árvores, diz à Quanta que é tudo questão de perspectiva. Em vez de tentarmos pensar as plantas se comunicando como humanos, devemos nos colocar no lugar delas e tentar imaginar como funciona o mundo das plantas.

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