Saiba o que um bom zoológico pode fazer por seus animais
zoológico
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Saiba o que um bom zoológico pode fazer por seus animais

Camila Luz em 10 de setembro de 2016

Nem todo zoológico é um centro comercial que mantém animais em cativeiro para que o dono lucre com visitas. Segundo o biólogo Igor Morais, bons zoos são importantes para preservar espécies e recuperar a saúde de bichos que sofreram maus tratos por humanos.

“Principalmente no Brasil, pessoas têm um visão muito equivocada sobre o que é um zoológico e quais são sua funções”, afirma o biólogo. “Acredito que muitas dessas opiniões vêm de péssimas experiências em zoológicos ruins. A pessoa vê o animal em uma situação precária, privado de bem-estar e qualidade de vida, e desenvolve uma aversão”, explica.

Segundo Igor, muitos zoológicos brasileiros trabalham com a visão ultrapassada de que animais devem ser expostos em vitrines para matar a curiosidade popular. ““Isso é fruto da limitação de recursos, mas também, em alguns casos, de gestores públicos que acreditam que o objetivo é o lucro, é colocar os animais como uma atração exótica, de forma às vezes cruel. Tentam vender o animal como se fosse um objeto. Infelizmente, isso acaba prejudicando o trabalho dos zoológicos modernos”, completa.

Funções de um bom zoológico

O biólogo explica que zoos modernos e desenvolvidos são aqueles que reproduzem o habitat de cada animal e permitem que ele se comporte como devia, de acordo com as característica de sua espécie. Igor tentou aplicar esse conceito no zoológico “Parque Dois Irmãos”, em Recife. Em 2007, a direção queria modernizar as estruturas e mudar todo o conceito e a concepção.

chimpanzé em zoológico

Foto: Istock/Getty Images

“O zoo de Recife ainda tem uma concepção bem antiga e arcaica, com estruturas bem precárias e inadequadas”, conta. Sua função era construir um novo recinto para um chimpanzé, o animal mais velho do zoológico. Ele estava há quase 50 anos em uma verdadeira jaula, toda cimentada e com barras de ferro. “Em três meses, fiz um projeto de novo recinto, com vegetação e área aberta. Todo mundo ficou surpreso porque o animal estava acima do peso, e lá emagreceu, deixou de ser tão recluso, ficou mais ativo”, conta.

Apesar da melhora notável na qualidade de vida e saúde do chimpanzé, o projeto não foi para a frente por questões políticas. Igor acabou deixando o zoológico, passou um tempo trabalhando com primatas na Mata Atlântica e também com baleias e golfinhos, sua área de pesquisa acadêmica. Em 2013, por causa de seu projeto no zoo de Recife, recebeu um convite para ser membro da Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil. “Depois que entrei na SZB, o zoo puxou meu pé de novo”, brinca. Teve a chance de conhecer os melhores zoológicos do mundo, com o de San Diego, na Califórnia, e o de Cincinatti, em Ohio.

Nos zoos dos Estados unidos, eles contam ao público a trajetória do animal, onde nasceu, onde acasalou. Depois explicam que são espécies ameaçadas por certos problemas e dizem como as pessoas podem ajudar.

Para Igor, uma das funções de um bom zoológico é criar uma relação de empatia entre homem e bicho, para que ele não tome atitudes que possam prejudicar a vida animal na Terra. Além disso, devem construir planos e projetos que ajudem a conservar a fauna.

Zoológicos de San Diego, Houston e Cincinatti, por exemplo, recolhem baterias usadas e reciclam o minério para gerar novas. Tomam essa atitude porque gorilas na África sofrem risco de extinção pelo desmatamento causado para procurar minério. “Realizar esse tipo de campanha tira a pressão de desmatar a África”, opina Igor.

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No Brasil, poucos zoológicos fazem esse tipo de campanha para conscientizar o público. No entanto, há exceções, como o Parque das Aves em Foz do Iguaçu. 50% dos animais que chegam ao local vêm do tráfico, mutilados, com a asa machucada e outros ferimentos.

O parque recupera a saúde dessas aves e as coloca em recintos adequados. Há, também, o trabalho de conscientização com o público, que entende pelo que o animal passou e aprende com sua história.

Um tigre é um tigre, um homem é um homem

Igor Morais publicou um post no Facebook pedindo que pessoas parassem de chamar bons zoos de prisões. “Esse é um argumento comum, mas é usado pelo costume de querer projetar a mente humana na mente de um tigre, por exemplo”, defende. Ele explica que esse animal pensa e tem consciência, mas não da mesma forma que o homem. “Ele não pode ter os mesmos conceitos do ser humano, pois são espécies diferentes e cada um tem sua própria história evolutiva”, explica.

tigre em zoologico

Foto: Istock/Getty Images

Segundo o biólogo, muitos animais na natureza não vagam livremente. Grandes felinos, por exemplo, têm comportamento territorial. Estabelecem seus territórios, que têm água, comida e condições ambientes ideais, e por isso os defendem e vivem sempre ali.

Igor também dá como exemplo aves de rapina, como gaviões e águias. Elas passam boa parte do dia empoleiradas, pois voar custa muita energia. Só se deslocam quando precisam procurar por alimento. Outras, no entanto, como a ave marinha albatroz, têm a necessidade de voar grandes distâncias. É difícil mantê-las em cativeiro e isso pode ser um problema, caso estejam em risco de extinção e seu habitat natural tenha sido degradado.

Em bons zoológicos, profissionais estudam a biologia do animal para dar tudo o que eles precisam. Elefantes precisam ter água para beber e se refrescar, espaço para caminhar e também um lamaçal, para tomarem banho de lama por causa da pele. Igor conta que o zoológico de San Diego construiu um recinto para uma manada com 13 mil m². Um estudo descobriu que nesse cativeiro eles caminham a mesma distância que os mesmos animais na África.

O biólogo conta que o zoológico de Belo Horizonte, considerado um dos melhores do mundo, também se preocupa em atender todas as necessidades biológicas de seus animais. “Gorilas ficam em um recinto com árvores e vegetação. Além disso, o público os vê no mesmo nível. Eles não ficam super expostos, há apenas uma área para visitação. Tudo é fruto de respeitar a biologia dos animais”, defende.

Grades para manter o homem do lado de fora

Para Igor, é preciso criar consciência sobre as condições da natureza hoje. Ambientes degradados pelo homem e sem recursos naturais expulsam animais e os colocam em risco de extinção.

Muitas unidades de conservação recebem grades para impedir duas coisas: que animais se percam e acabem em cidades, ou que o homem invada o habitat natural dos bichos.

Foto: Istock/Getty Images

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Nos dois casos, é o animal quem sai perdendo.  “As cidades se expandem, entram no habitat natural, e os animais não tem pra onde ir”, afirma. Em outros locais, como na África, há muitos bichos que migram e querem usar rotas antigas. “Mas aí tem uma cidade no meio dessa rota. Quando um animal invade o espaço do homem, é ele [o animal] quem sai prejudicado”, defende.

O ponto negativo, para Igor, é que em reservas os animais ficam totalmente dependentes da ação humana. Lá, ficam isolados, o fluxo genético deixa de existir e todos viram parentes. Isso gera uma série de doenças. Bons ambientes de conservação devem fazer transferência de animais, corredores ligando duas reservas ou até mesmo transferência de embriões. “O curioso é que a maioria dessas técnicas que usamos em unidades de conservação foram desenvolvidas em zoológicos”, diz. No caso, um bom zoo.

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