Cerrado Infinito: por que um artista está recuperando o cerrado
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Cerrado Infinito. Foto: Divulgação
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Cerrado Infinito: artista recupera o cerrado paulistano

Kaluan Bernardo em 18 de fevereiro de 2017

A cidade e o estado de São Paulo já foram campo de muita biodiversidade. Graças à urbanização, mal nos resta a memória desses tempos. Um dos biomas que mais sofreu com as transformações foi o cerrado, que outrora ocupou 14% do estado e hoje não chega a 1% (248,8 mil km²). Do que resta, apenas 18% está protegido por 32 unidades de conservação.

A mudança não se estende só à biodiversidade, mas também agrava a situação hídrica da região, ameaçando o Aquífero Guarani, uma das maiores reservas de água subterrâneas do mundo.

Nem sempre foi assim. E há pessoas empenhadas em recuperar a memória ambiental da cidade, mesmo que seja só para provocar e tentar reviver vínculos afetivos com a natureza que existiu e pode, em alguma medida, voltar a coexistir com os habitantes da cidade.

É justamente esse tipo de provocação que o artista Daniel Caballero e uma série de voluntários procuram quando, todos os sábados às 10h da manhã se unem para replantar a vegetação do cerrado em diferentes pontos da cidade de São Paulo. O projeto nunca há de terminar e, por isso, se chama Cerrado Infinito.

“A cidade de São Paulo tem esse slogan de nunca parar, de avançar e ir para a frente. Essa velocidade leva aonde? Começamos a refletir sobre isso quando vemos como ela está hoje, como os espaços públicos nos afetam no cotidiano”, comenta Daniel. “E se pensarmos no país, que vive esse processo como um todo… o Brasil vai ser uma grande São Paulo com todos os problemas que temos aqui? Nos desenvolvemos a ponto de perder a referência do lugar, do espaço”, questiona o artista.

O Cerrado Infinito ocupa São Paulo

O site do projeto descreve o passado, lembrando que “quando o padre José de Anchieta subiu a serra do Mar à partir de São Vicente, encontrou uma paisagem diversa da densa floresta tropical”. No clima ameno, de vegetação mediterrânea onde se desenvolveram as primeiras vilas, como São Paulo dos Campos de Piratininga, São Bernardo do Campo e Santo André da Borda de Piratininga, “um mar de colinas, alternava bosques de mata atlântica, araucárias e várzeas alagadas, com extensos campos cerrados”, como descreve o site do projeto.

Daniel Callabero em frente à plantação

Mas o homem mudou a terra. “Se a madeira da floresta serviu para as primeiras construções, o cerrado depois de queimado e arado deu lugar para o gado, a cana de açúcar e o café́, até desaparecer completamente com o desenvolvimento urbano. O cerrado se tornou o terreno baldio original, um espaço em suspensão que não participa da cidade, entendido apenas como potência de vir a ser algo”, lembra o organizador do Cerrado Infinito.

“A visão futurista e o presente em desenvolvimento constante, relegaram o que sobrou dos Campos Cerrados de Piratininga a uma amnésia do passado. Hoje a grande maioria dos cidadãos aponta a Mata Atlântica como a paisagem nativa daqui e nem mesmo os livros escolares falam com clareza do assunto”, conclui. E é por isso que a missão do projeto é recuperar essa memória.

O Cerrado Infinito como intervenção

Daniel não se considera propriamente um ativista ou ecologista, mas um artista fazendo uma instalação, uma ocupação em São Paulo. “Meu processo se tornou um tipo de vivência do qual exploro a cidade como um artista naturalista do século 18”, conta.

“Meu trabalho começou dessa ideia de andar pela cidade, mas não pelas rotas das ruas, saindo da programação urbanística”, diz. Nessas andanças passou a desenhar as plantas do cerrado e catalogá-las. Na sequência começou a fazer exposições. Desse trabalho nasceu o livro do Cerrado Infinito, com mais de 50 desenhos e fichas das plantas que Daniel encontrou por aí. E já há um segundo livro com mais 50 plantas de cerrado na metrópole.

“A princípio minha ideia era provocar, causar reflexões. Porque a ideia era fazer um guia de espécies vegetais que, na verdade, seria inútil porque as pessoas não teriam onde ver essas plantas. Era o debate que o livro poderia lançar”, conta. Mas aos poucos resolveu também colocar a mão na terra e plantar as espécies. “Mas esse trabalho ainda acontece no território simbólico de resgatar a consciência de que essa paisagem existiu”, diz.

Foto: Divulgação

O trabalho é focado principalmente em dois núcleos – um na Zone Leste (no Jardim das Camélias) e outro na Zona Oeste (no bairro da Pompéia) de São Paulo. No primeiro caso o projeto acontece em uma escola pública, com a colaboração dos alunos; no segundo em um terreno no qual a Prefeitura apoia a intervenção.

Os voluntários hoje vêm e vão. No começo, Daniel procurava alguns para lhe ajudar, hoje ele é procurado. As pessoas o veem plantando e se unem ao movimento. Mas tudo acontece sem pressa. Não cria eventos ou convocatória do tipo “vamos salvar o cerrado paulistano” . “O projeto exige um tempo de contemplação, de vivência, por isso é infinito”, diz ele.

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E por que o cerrado, quando São Paulo também é terra de Mata Atlântica e outras vegetações desaparecendo? Porque o cerrado é um dos mais negligenciados. “Historicamente ele é considerado uma terra improdutiva, confundido com capoeira ou floresta desmatada. É constantemente considerado algo que tem que ser melhorado – há quem diga até o absurdo de que é feio”, comenta.

Daniel sabe que por mais queira e se empenhe, o cerrado não voltará e que o máximo que pode fazer é proteger um pouco do que sobrou e tentar criar vínculos afetivos entre a natureza e os cidadãos. “Mas sempre será uma aproximação do que um dia existiu. É mais um exercício para preservar a visualidade histórica e refletirmos sobre o que está acontecendo no resto do país”.

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