Cidade ativa: a ONG que usa o active design para promover a saúde
painel
Painel Interativo no Jardim Ângela: Oficina Escadão dos Sonhos Foto: Reprodução/Facebook
Sustentabilidade > Na Rua

Cidade ativa: a ONG que usa o urbanismo para promover a saúde

Kaluan Bernardo em 1 de junho de 2016

Uma vida mais saudável não acontece apenas dentro das academias. Ela acontece também quando a calçada do seu bairro é mais convidativa para uma caminhada, a avenida atrás de sua casa tem uma boa infraestrutura para bikes ou a escadaria da rua ao lado está em boas condições e você não precisa evitá-la. É nisso que acredita a Cidade Ativa, uma ONG que trabalha com active design — conceito que usa o urbanismo para combater o sedentarismo.

A história deles começa quando a brasileira Gabriela Callejas foi fazer mestrado em desenho urbano na Columbia University (2011). Lá ela passou a atuar na prefeitura de Nova York onde conheceu o active design. Seu trabalho era ajudar na elaboração de um manual para melhorar as condições das calçadas e, com isso, incentivar caminhadas.

O conceito de active design surgiu após o governo norte-americano perceber que tinha grandes gastos para tratar de doenças cujo gatilho era o sedentarismo e a obesidade.

Inspirada pelo que aprendeu, quis trazer o conceito para o Brasil. Chegando aqui, se uniu a mais médicos e urbanistas brasileiros e norte-americanos para criar a Cidade Ativa e adaptar o active design ao país.

Se essa escada fosse minha

Logo quando a Cidade Ativa surgiu, eles se inscreveram em um concurso internacional, o Urban Urge Awards, que tinha um desafio: transformar o espaço urbano com menos de US$ 4 mil. Encontraram a resposta nas escadarias. “Quando começamos a pensar em atividade física logo nos lembramos das escadarias, que são um espaço deixado de lado nas cidades. É meio que um espaço de ninguém. E, em São Paulo, que conta com uma topografia cheia de desníveis, elas são muito importantes”, diz Gabriela.

Ao reconhecer a necessidade, criaram o “Olhe o Degrau”, um mapa colaborativo das escadarias de São Paulo. No site, qualquer um pode colaborar para alimentar a página. Após identificarem onde estão, resolveram mostrar como transformá-las.

Leia também: Active design: como pensar as cidades para serem mais saudáveis

Começaram por uma na Rua Alves Guimarães, no bairro de Pinheiros. Organizaram uma oficina, fizeram piquenique, brincadeiras e colocaram um varal para pessoas pendurarem suas ideias e um mural para desenharem como seria a escadaria dos sonhos. “Foi nossa estratégia para chamar as pessoas a interagir com aquele lugar. Vizinhos que nunca se falaram e pessoas que nunca passaram pela escadaria acabaram se reunindo em torno de um projeto comum”, conta Gabriela.

A próxima escadaria que reformarão será no Jardim Ângela, um bairro na periferia de São Paulo. Mas, mais do que dar uma nova vida para o lugar, o Cidade Ativa ensina como as pessoas podem transformá-lo. “Fazemos em forma de workshops porque é uma forma de capacitar as pessoas e dialogar com a comunidade”, afirma.

Active design é sobre ouvir as pessoas também

Da experiência que tiveram com o “Olhe o Degrau”, Gabriela e seus amigos perceberam que poderiam criar novas ferramentas para ouvir a comunidade. Foi assim que desenvolveram sua metodologia de painéis interativos.

Quem passa pelo painel pode interagir com adesivos ou desenhando, por exemplo. “É uma forma de fazer uma entrevista sem aquele desconforto de parar na frente da pessoa para fazer perguntas”, explica Gabriela. “Além de coletar dados, colocamos o indivíduo em posição de reflexão. Quando você responde e vê as respostas de outras pessoas, percebe como sua visão da cidade se dá em relação a elas”, diz.

Gabriela vê a coleta de dados como algo essencial para entender a cidade pelos olhos do active design. Quando o prefeito de São Paulo optou por fechar a Avenida Paulista para carros aos domingos e liberar a via para as pessoas, o Ministério Público moveu ação argumentando que a medida causava mais trânsito, ruído e poluição nas vias paralelas. A Cidade Ativa foi até lá para medir os dados nessas ruas tanto nos dias de semana quanto nos domingos. Concluíram que a contestação do MP não procedia. A Paulista fechada não aumentava os ruídos e poluição nas ruas próximas. “Gostamos de ir lá e testar a eficácia de projetos para a cidade”, defende.

Calçadas: uma forma de colocar o urbanismo a favor da saúde

Na prefeitura de Nova York, Gabriela percebeu que calçadas podem ser um dos melhores gatilhos para incentivar as pessoas a combaterem o sedentarismo. No entanto, cada cidade e país tem suas dificuldades específicas quando o assunto é mobilidade urbana a pé.

Uma das formas de identificar os problemas na calçada da região é fazendo o que a Cidade Ativa chama de “Safari Urbano”. Basicamente, diversos voluntários saem andando pela rua enquanto vão observando as dificuldades de locomoção.

pessoas medindo a calçada

Safari Urbano na Berrini Foto: Rwprodução/Site

Segundo Gabriela, um dos problemas mais comuns das calçadas brasileiras são a falta de acessibilidade — não só para deficientes físicos, como para idosos e pessoas com carrinhos de bebê. Também há o excesso de fiação, que traz poluição visual e o excesso de muros, que confinam o pedestre.

Quando você tem pouca visão na rua, isso te traz desconforto e insegurança. É necessário ampliar a troca de olhares com lugares mais abertos e convidativos.

Felizmente há muitas organizações tentando resolver tais problemas e promovendo a mobilidade a pé no Brasil. A Cidade Ativa está tentando mapeá-las em um projeto chamado “Como Anda”. Em parceria com a rede Corrida Amiga e com apoio do Instituto Clima e Sociedade, eles querem articular as redes para entender melhor como é feito o deslocamento de pedestres e sua relação com a ocupação dos espaços públicos.

Gostou deste post? Que tal compartilhar:
Últimos
Trend Tags
Array ( [0] => 76 [1] => 222 [2] => 237 [3] => 115 [4] => 17 [5] => 238 [6] => 92 [7] => 125 [8] => 173 [9] => 16 [10] => 276 [11] => 157 [12] => 25 [13] => 66 [14] => 67 [15] => 62 [16] => 153 [17] => 127 [18] => 12 [19] => 19 [20] => 187 [21] => 69 [22] => 154 [23] => 172 )
Vídeos
Copyright © 2016 Free the Essence