Como o design urbano perpetua a desigualdade racial
New York City Skyline, Manhattan, Aerial View at Night
Idade de Nova Iorque. Foto: Istock/Getty Images
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Como o design urbano perpetua a desigualdade racial

Camila Luz em 7 de agosto de 2016

Cidades são moldadas por inúmeros fatores e pessoas. Os principais responsáveis pela organização desses espaços são planejadores e formuladores de políticas públicas. Através das décadas, muitos adotaram práticas racistas que transformaram municípios em locais segregados, onde a desigualdade racial impera.

A jornalista Diana Buds escreveu um artigo para o site Fast Company explicando quais práticas perpetuam a desigualdade racial em cidades. Combater essas ações e repensar o espaço público é fundamental para elevar a qualidade de vida de toda a população, construindo uma sociedade mais igualitária.

Nos Estados Unidos, no passado, leis definiam em quais bairros brancos e negros deveriam viver, cada um no seu espaço. No Brasil, não houve esse processo, mas grande parte da população que integra classes mais baixas é formada por negros. Essas pessoas ainda habitam os bairros com menos infra-estrutura e maiores taxas de violência. Para mudar essa realidade, é preciso repensar como cidades foram planejadas ao longo dos anos e quais soluções podem tornar tudo diferente.

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A desigualdade racial nas cidades através dos séculos

Nos Estados Unidos, leis como a Housing Act (Lei da Habitação), em 1949, subsidiaram a criação de novos bairros para os menos favorecidos, com o objetivo de “desfavelizar cidades”.

De acordo com a urbanista Jane Jabocs, no livro “Death and Life of Great American Cities”, esse método falhou, pois apenas moveu comunidades de um lugar para outro. “Na melhor das hipóteses, ele simplesmente muda favelas daqui para lá, acrescentando sua própria dose de dificuldade extra e perturbação. Na pior, destrói bairros onde existem comunidades com potencial de melhora, e que exigem encorajamento ao invés de destruição”, diz a autora.

Remanejar populações carentes, fornecendo novas habitações, não é suficiente, caso o movimento não seja acompanhado de todo um planejamento no novo bairro. Isso envolve fornecer sistemas eficientes de água e luz, assim como serviços públicos de qualidade, como bons hospitais e escolas.

terminal de onibus com ônibus parado e pessoas esperando

Foto: Istock/Getty Images

O transporte público é outro problema em questão. O acesso à ele afeta todos os habitantes, mas tem maior impacto na população carente. Na Baía de São Francisco, nos Estados Unidos, especialistas argumentam que a escassez em certos bairros é uma forma intencional de manter comunidades de menor poder aquisitivo segregadas.

Ainda nos Estados Unidos, outras práticas contribuíram para a desigualdade racial, como a tática de intimidação executada por corretores. Eles induziam proprietários brancos a venderem para pessoas com a mesma cor de pele. Processos como esse levaram a um aumento de tensões raciais que perpetua o preconceito até hoje.

Soluções para cidades

Segundo Diana Buds, os exemplos listados acima provam como o racismo influenciou o design de cidades modernas, e como o problema é complexo e está enraizado na sociedade. Para a jornalista, o primeiro passo é reconhecer que a desigualdade racial existe. Para entender quais outras soluções podem construir cidades mais igualitárias, o Fast Company perguntou a opinião de arquitetos, urbanistas e planejadores.

“Redesenhar os designers”

Para o professor de arquitetura da Universidade de Columbia, Justin Moore, é preciso reformular a profissão do designer urbanístico para que os profissionais tenham noção de diversidade e uma compreensão profunda das comunidades que estão construindo.

Ele explica que essa profissão é muito voltada para o desenvolvimento de técnicas e habilidades que são muitas vezes desnecessárias para transformar espaços e lugares. Usam o que sabem com boas intenções, mas alcançam resultados que podem não estar alinhados com o que é necessário em certo contexto social.

É preciso ter mais pessoas dentro do planejamento público que façam parte das comunidades que merecem atenção. “Ainda há poucas pessoas negras ou de baixa renda trabalhando como designers ou estudando para isso. E certamente há poucos na liderança e em cargos que decidem práticas relativas ao urbanismo”, argumenta.

Para ele, designers têm um papel muito importante em influenciar mudanças em ambientes urbanos. Excluir o talento e perspectiva de pessoas que de fato integram comunidades é perder a oportunidade de melhorá-las.

“Construir oportunidades para transitar livremente por espaços públicos”

 Isis Fergunson é diretora associada de estratégias para comunidades e cidades na Place Lab, uma iniciativa da Universidade de Chicago. Ela vê que o caminho para cidades se tornarem mais igualitárias é torná-las mais convidativas para membros de todas as comunidades.

 “Cidades podem funcionar como espaços magníficos de excelência, e também podem ser governadas por forças que o transformam em locais de repressão regidos por políticas públicas ruins”, opina. “Em cidades dos Estados Unidos, não podemos fingir que todos os corpos têm liberdade para se deslocar, ocupar e aproveitar espaços públicos. Pessoas negras e morenas transitando por espaços públicos são vistas como suspeitas, criminosas e ilegítimas”, afirma.

Isis acredita que projetos de domínio público precisam receber a colaboração efetiva de mais tipos de pessoas, como artistas, idosos, imigrantes, negros e mulheres. Elas têm tentado liderar esforços para desenvolver comunidades de formas não convencionais, pois não foram convidadas de forma oficial. Esse convite precisa ser feito para que o padrão de vivência nos espaços públicos, como praças, parques e escolas, seja aprimorado.

“Planejar cidades em torno de um movimento público forte”

 O urbanista Jan Gehl’s acredita que construir uma vida pública forte pode trazer igualdade para as cidades. “O patrimônio público funciona quando você tem a noção de confiança e a noção de coletivo — nós temos que aprender a coexistir”, diz. “Nossas cidades são claramente segregadas. Nós queremos mais misturas raciais e econômicas no espaço público. Queremos que bairros sejam mais saudáveis e queremos aumentar as atividades que temos disponíveis”, explica.

Para Jan, a vida pública poderia ser uma ferramenta para trazer maior igualdade, acesso a oportunidades, sustentabilidade e saúde. “A vida pública próspera tem a ver com uma forma muito ativa e diversificada de participação, que vai desde engajamento— como atividades cívicas organizadas e conscientes— a rotinas diárias, que envolvem, por exemplo, saber que é possível atravessar uma rua de forma segura”, conclui.

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