Sob a mira da faca: hidrelétricas ameaçam biodiversidade do país
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Sob a mira da faca: hidrelétricas ameaçam biodiversidade do país

Pedro Katchborian em 28 de abril de 2017

No dia 20 de abril de 2016, há cerca de um ano, a Usina de Belo Monte iniciava a sua operação comercial com sua primeira turbina. Rodeada de polêmica, a hidrelétrica ainda está em fase de construção e deve ser a terceira maior do mundo quando concluída, com previsão para 2019.

O aniversário de um ano de Belo Monte se mistura a grandes preocupações envolvendo outras usinas no país. Baratas e utilizando recursos abundantes por aqui,  as hidroelétricas são fonte de cerca de 90% da energia produzida no país.

No entanto, o ônus parece ser maior do que o bônus: a construção desenfreada de hidrelétricas ameaça parte do ecossistema da Amazônia, nossa maior riqueza ambiental. Fernando Mayer Peliceli, professor da Universidade Federal do Tocantins e coordenador do mestrado em biodiversidade, ecologia e conservação, é duro ao definir a situação:

Não é dar um tiro no pé. É na cabeça.

Os impactos de uma hidrelétrica no meio ambiente

Para compreender o impacto de uma hidrelétrica no meio ambiente, precisamos antes entender o seu funcionamento. Para gerar energia, é necessário que a água do rio escolhido seja represada por barragens, gerando grandes reservatórios. O desnível entre o reservatório e o rio gera um fluxo de água que passa por um duto com uma turbina. A força desse fluxo gera energia cinética, que então é levada para um gerador e transformada em energia elétrica. É simples de entender, mas complexo de realizar.

O Brasil é referência em hidrelétricas: principal fonte de energia do país, por aqui temos Usinas como a de Itaipu, no Rio Paraná, com capacidade de 14.000 MW, de Belo Monte, no Rio Xingú, com capacidade de 11.233 MW quando estiver pronta. Além disso, outras grandes hidrelétricas do país são a de Tucuruí, no Rio Tocantins, e de Jirau, no Rio Madeira. Ainda há outras dezenas de usinas menores e outras que estão em fase de construção.

hidreletrica

Foto: Wikimedia Commos

A expansão hidrelétrica tem acontecido desde o final do século 20 e continua até hoje. Fernando explica os motivos para optar por esse tipo de energia: “ela é mais barata e tem uma premissa que não é verdadeira. Que seria uma energia que não se esgotaria”, conta. “Esse rótulo de energia verde causa uma série de impactos para o ecossistema aquático”, completa.

Ângelo Antonio Agostinho, biólogo e professor titular aposentado da Universidade de Maringá, separa o impacto ambiental das hidrelétricas em quatros grupos de impacto. São eles:

Mudança na vazão do rio: a alteração do regime de cheias, que impacta a fauna da bacia. O fluxo é alterado e totalmente regulado pela demanda de energia, sem levar em consideração os animais.

Mudanças na qualidade da água: “é inevitável”, diz. Os habitats aquáticos são definidos por características da água como a velocidade. Ou seja, as hidrelétricas resultam em alterações físicas na qualidade da água.

Alteração dos habitats: na área represada os habitats são eliminados. “Não vão existir corredeiras, não vão existir bancos de areia. Você vai mudar os habitats e dar origem a outros muito diferentes”, conta. Logo, as espécies vão ter os habitats muito modificados. Além disso, os sedimentos são retidos no reservatório, tornando a água que sai do reservatório pobre em nutrientes.

Interrupção de rotas migratórias de animais: o reservatório e a barragem impedem o deslocamento dos animais. “As espécies não evoluíram para esse tipo de ambiente”, comenta.

Fernando reforça e diz que todo o ambiente é impactado. “O ambiente fluvial não existe mais. Transforma todo um ecossistema, o que vai muito além do rio”, destaca. Ele explica que, normalmente, a sociedade reconhece impactos mais óbvios como a mortandade dos peixes e a estrutura que bloqueia o rio, mas falha em compreender em como isso afeta todo o ecossistema.

Itaipu Foto: Istock/Getty Images

Impacto mais direto das hidrelétricas, a mudança na ictiofauna (de peixes) já foi medida em represas mais antigas, como em Itaipu. As amostragens realizadas em 1978, no ambiente fluvial original no Rio Paraná, apontaram 113 espécies. O estudo feito pouco mais de 4 anos do início da operação identificou apenas 83 espécies no reservatório, como mostra um artigo de Miguel Petrere Jr, professor da pós-graduação na Unisanta.

Além da diminuição dos peixes, a represa também modificou o percentual de espécies de peixes. Enquanto animais como o mapará e a corvina conseguiram se adaptar às novas condições, espécies como os cascudos desapareceram.

Fenômeno parecido aconteceu em Tucuruí, no baixo rio Tocantins: levantamentos mostram que existiam 200 espécies no ambiente fluvial original. Após o enchimento do reservatório, houve queda de 50% do número de espécies em apenas 3 anos, com estimativa de 103 tipos diferentes de peixe. Fernando detalha como esses processos de perda de espécies acontecem. “Quando você quebra o fluxo de força dos rios, os sistemas fluviais respondem a essas variações. Logo, as espécies perdem motivação biológica de reprodução, perdem locais de alimentação e etc”, afirma.

É consenso que a hidrelétrica causa impactos ambientais diretos, mas não há planos para frear a construção de dezenas de usinas no Brasil. Fernando explica que não há mais espaço para construir no país. “É um recurso imenso. Nós estamos passando por um momento muito importante na história do homem e temos que parar isso”, diz.

Belo Monte e os riscos na Amazônia

Os estudos para a construção da Usina de Belo Monte começaram em 1975. Depois de mais de uma década de discussão, o debate chegou em um ponto crítico em 1989: durante o 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, a índia Tuíra, do povo Kaiapó, ergueu a sua faca e encostou a lâmina em José Antônio Muniz, então presidente da Eletronorte, empresa responsável pela construção.

Foto: Reprodução

Depois de remodelado, o projeto foi aprovado após um plano de emergência para aumentar a oferta de energia do país, em 2001. Em 2011, o Ibama concedeu a licença para a instalação da usina e em abril de 2016 a primeira turbina da hidrelétrica de Belo Monte entrou em operação.

Philip Fernside, referência e estudioso sobre Belo Monte e os impactos da represa, discute as consequências na represa em artigo deste ano chamado “Brasil’s Belo Monte Dam: Lessons of an Amazonian resource struggle“. “Quando todas as turbinas forem instaladas em 2019, um trecho de 100 km de rio abaixo da barragem principal vai perder 80% do seu volume de água, destruindo os meios de subsistência da população de ribeirinhos que depende da pesca nesta área, bem como os povos indígenas em duas ‘terras indígenas’ deste trecho de ‘vazão reduzido’ e um Rio Bacajá, um afluente do Xingu. Planos para barragens adicionais que inundariam vastas áreas de terra indígena são oficialmente negados atualmente”, diz.

Philip critica a construção e diz que os danos ambientais de Belo Monte vão além da barragem. Ele explica que o Rio Xingu tem uma das maiores variações anuais na vazão de água de todos os afluentes do Rio Amazonas, com vazões na época da enchente até 60 vezes aquelas da época da vazante. Logo, o rio acaba influenciando toda a região. Para o pesquisador, as proteções nas leis do Brasil, a Constituição e os acordos internacionais foram “ignorados repetidamente na medida que o projeto de Belo Monte avançou“, diz.

Antevendo os possíveis danos irreversíveis das hidrelétricas, o Greenpeace fez um relatório em abril de 2016, nomeado “Hidrelétricas na Amazônia: um mau negócio para o Brasil e para o mundo”.

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No relatório, a ONG detalha os planos para a construção de hidrelétricas na região Amazônica: são 43 usinas planejadas na bacia do rio Tapajós, por exemplo. Os motivos para evitar a construção desses complexos são vários: além do já citado impacto na ictiofauna e no ecossistema da região, a Greenpeace também cita uma “séria ameaça para o nível global”. “A floresta amazônica é uma das maiores reservas terrestres de carbono no planeta. Ao ser desmatada, a floresta fica mais suscetível à degradação e às queimadas, emitindo gases de efeito estufa”, diz o relatório.

O artigo resume o problema das hidrelétricas na região como uma “escolha equivocada em relação ao patrimônio ambiental da região e às populações indígenas que, por séculos, foram suas guardiãs. Os novos projetos hidrelétricos no Brasil estão fadados a trair a população para continuar enriquecendo poucos”, diz.

Possíveis soluções

Tendo como consenso que as usinas causam impactos ambientais diretos, algumas medidas tentam amenizar os problemas, grande parte sem sucesso. Fernando explica algumas dessas iniciativas: tanto o peixamento (colocar a espécie de peixe que sumiu novamente no local) quanto mecanismos de transposição como as escadas já se mostraram ineficazes. “Se o peixe não está mais lá é por algum motivo”, explica.

Ele compreende que não deve se fazer uma “cega defesa pela biodiversidade”, mas devemos estar preocupados com o progresso do país. Fernando admite, no entanto, que poderes econômicos e políticos acabam mudando o rumo das usinas. “Existe uma engrenagem muito grande porque elas são estimuladas por demandas políticas e eleitoreiras”, afirma.

Já Ângelo explica que o ideal seria utilizar sub bacias que seriam menos impactantes para o meio ambiente. “Da mesma maneira que durante um inventário é analisado o potencial hidrelétrico do que pode ser mais produtivo, deve ser analisada quais são as áreas mais críticas ambientalmente falando”, diz.

No entanto, todos concordam de que se deve buscar outras fontes de energia. “Devemos diversificar a matriz. Não é um tiro no pé, é um tiro na cabeça focar apenas nas hidrelétricas. Os reservatórios tem um tempo de vida, não são renováveis para sempre. É difícil de estimar, mas se fala em 100 anos. Depois de algumas décadas, eles perdem a capacidade produtiva”, afirma Fernando. Logo, a sugestão de Fernando é observar outras fontes: eólica, solar e até nuclear. “Uma usina nuclear tem muito menos impacto do que uma hidrelétrica. A hidrelétrica fica impactando a todo momento, enquanto a nuclear é somente em caso de acidente. Se os resíduos forem despejados da maneira correta, ela não tem impacto”, completa.

Por último, Miguel Petrere Jr. lembra que somente com a pressão popular é que se pode ter algum resultado. “A sociedade tem que se impor. A sociedade força os caras. Se ficarmos quietos vão nos entupir de represa”, finaliza.

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