Assassino invisível: microplástico é ameaça à biodiversidade marinha
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Quase invisível: microplástico é ameaça à biodiversidade marinha

Pedro Katchborian em 23 de março de 2017

Sabe aquela imponente baleia que sobe e dá aquele majestoso salto que você já deve ter visto inúmeras vezes na Discovery Channel ou no filme clássico “Free Willy”? Pois bem, ela pode estar se alimentando do microplástico — resíduos plásticos com 5mm ou menos –, que você descarta sem prestar atenção. Recentemente, a poluição por microplástico chegou a níveis preocupantes.

João Malevolta, co-fundador do Ecosurf, iniciativa que visa brecar a poluição marinha, precisou de várias idas à praia de Itanhaém (SP) e muita pesquisa para comprovar que a situação é “assustadora”, segundo ele. João é sua equipe criaram o Projeto Microplástico, iniciativa que pretende mostrar o impacto dos pequenos resíduos de plástico em nossos oceanos, mais especificamente no litoral paulista.

Foto: Reprodução/Facebook

João explica que, todos os anos, são jogadas de 8 a 12 milhões de toneladas de plástico no oceano. E a poluição por microplástico é uma “crescente ameaça aos ambientes costeiros e marinhos“, escreve.

A Ecosurf surgiu em 2000 e depois de mais de uma década fazendo campanhas e mutirões de limpeza em praias e oceanos, os idealizadores resolveram fazer uma pesquisa para comprovar o tamanho da poluição. Foi aí que surgiu o Projeto Microplástico.

“Depois de participar de uma expedição que reuniu pesquisadores do mundo todo pelo Oceano Índico e que mostrou que a poluição chega até em ilhas isoladas, comecei a conhecer mais o problema com o microplástico”, diz João.

Foi feita então uma pesquisa na Praia dos Pescadores, em Itanhaém. A ideia foi pegar uma praia pequena, para que a análise da incidência de microplásticos, que é afetada pelo clima e pela geografia, fosse mais fácil. “Fizemos uma investigação, a olho nu, e pegamos resíduos da superfície da areia. Coletamos, classificamos e quantificamos no laboratório”, explica.

O estudo durou cerca de 180 dias e foi todo feito no laboratório da Escola Técnica Estadual de Itanhaém (ETEC). Os plásticos costumam ser definidos em dois tipos: os macroplásticos (fragmentos maiores que 5mm) e os microplásticos (fragmentos menores do que 5 mm).

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Nesse contexto, são considerados microplásticos os resíduos que estão em cosméticos, produtos de limpeza industrial e domésticos, produtos de higiene (como creme dental e esfoliante) e matérias-primas industriais utilizadas para a produção do plástico, também conhecida como pellets. Esses pellets são pequenas bolinhas que são derretidas pela indústria para a produção de produtos maiores. Por último, o microplástico também pode ser pequenos fragmentos de pedaços maiores que foram quebrados, como garrafas pet ou baldes.

Isso significa que os microplásticos têm dois tipos de fontes: as primárias e secundárias. Nas primárias, o microplástico já faz parte da composição, como em cosméticos, esfoliantes e pasta de dentes. Já nas fontes secundárias o microplástico é gerado a partir da fragmentação ou decomposição do plástico maior.

A pesquisa na Praia dos Pescadores analisou 25% da faixa de areia (cerca de 5.395m² de 22.341m²) para estudar a quantidade de resíduos da praia. O resultado foi assustador: foram encontrados 4.770 unidades de fragmentos plásticos nas areias. Desses fragmentos, 55% deles eram pellets, 31% eram fragmentos de 2,5mm a 5mm e 14% eram fragmentos menores do que 2,5mm.

Logo, a Praia dos Pescadores apresentou uma quantidade muito alta de poluição por microplástico. Os dados amostrais de parte da praia mostram que cerca de 88% da área total estudada da praia contém resíduos sólidos de plástico de baixa densidade.

“O microplástico é praticamente invisível: você não imagina a quantidade que tem”, diz o pesquisador. Como a coleta foi feita em período de chuva e há vegetação na praia, João acredita que esses fatores auxiliaram na retenção do microplástico.

Quais são os impactos do microplástico para o meio ambiente?

Muitos. Alessandro Athiê, biólogo, oceanógrafo e professor do Centro Universitário Senac, afirma que, principalmente nos pellets, há um alto nível de toxicidade. “É como se fosse um sachê liberando toxina na água”, explica.

Por causa das ondas e do atrito com a areia, os pellets podem ficar brilhantes, fazendo o animal curioso ingerir o resíduo, que entra no sistema digestivo e causa diversos problemas. Além de peixes, Athiê aponta que mamíferos como golfinhos e alguns tipos de botos podem acabar se alimentando dos pellets. Nem os corais estão isentos:  os plásticos podem entrar na estrutura do coral e liberar toxinas.

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Já o microplástico produzido em cosméticos ou esfoliantes pode ser ingerido por animais menores como microcrustáceos, que são a base da cadeia alimentar, como o krill — pequeno camarão que é o principal alimento da baleia.

João explica que ainda não há estudos em relação aos males que esse resíduo pode fazer no próprio corpo humano, assim como não há a comprovação, por exemplo, de que ele é imprescindível para a indústria. “Mas a sensação é de espanto quando mostro que as pessoas ingerem plástico quando estão escovando os dentes”, diz.

Além do impacto do meio ambiente, também há o impacto visual. “Ninguém quer ir em uma praia cheia de resíduo”, explica Athiê, alertando também para uma possível desconfiança de turistas que avistem esses materiais na areia.

Como o microplástico acaba nos oceanos?

Os pellets, material muito comum na indústria de plástico, é utilizado em contêineres, já que muitas indústrias usam o resíduo como forro para outros produtos. No processo de carregar ou descarregar o produto do contêiner, acontece o derramamento dos pellets diretamente na água ou em portos. Além disso, há o processo de perda de microplástico na logística dentro das próprias empresas de produção de plástico. Como boa parte das indústrias de plástico ficam próximas da água, também pode ocorrer o derramamento.

Em relação aos outros resíduos, muitos acabam nos oceanos pela rede fluvial e  pelo esgoto, vindo dos nossos cosméticos, esfoliantes e outros produtos. Também há o nosso lixo do macroplástico (como a garrafa pet) que se torna microplástico pelo processo de decomposição. No caso de Itanhaém, foi identificado que os pellets na Praia dos Pescadores provavelmente vieram da indústria petroquímica que produz plástico na cidade de Cubatão.

E como solucionar o problema?

Athiê explica que o microplástico poderia eventualmente ser substituído por alguns tipos de bioplástico que são degradáveis com maior eficiência, utilizando biopolímero (derivado da resina vegetal). “Como esse material é biodegradável, não há toxicidade inerente a ele”, diz, lembrando que precisam ser feitos testes para saber se ele é plenamente utilizável.

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Em relação aos pellets, Athiê alerta que é um processo mais difícil de mudar, mas que é necessário pensar em meios de produção que seriam menos problemáticos, além de melhorar a logística dessas indústrias. “Precisam ser feitos cuidados mínimos para evitar que o material se derrame no próprio processo de produção”, explica.

João propõe medidas mais radicais para modificar esse cenário. “Precisamos de leis mais firmes. Eu defendo que seja proibido plástico em produtos de higiene e cosméticos“, diz. O pesquisador também afirma que a indústria deveria banir o plástico de suas fórmulas, movimento que existe de forma mais marcante na América do Norte e na Europa.

Em relação ao consumidor, tanto Alessandro quanto João propõe uma rotulagem para que a pessoa saiba o que está consumindo. “Falta engajamento do consumidor”, diz Athiê. Ele completa:

Vimos o movimento do alimento orgânico, de ser mais fitness…Do mesmo jeito que o consumidor se preocupa com a sua saúde, ele deve se preocupar com a saúde do meio ambiente.

O professor diz que os produtos poderiam vir com marcações específicas se têm ou não derivados do petróleo em sua fórmula.

Para Malevolta, outra atitude que impacta o consumidor deve ser o banimento de produtos como copos de isopor e sacolas. “A solução passa pelo consumidor. Acredito mais em uma mudança comportamental do que em uma nova tecnologia que substitua esse plástico. A saída tecnológica é uma muleta”, diz.

Por fim, João acredita que vivemos uma “oportunidade ímpar“. “Temos quase 8 mil quilômetros de litoral, com várias capitais populosas nesses locais”, diz. Ele acredita que o Brasil começou a olhar mais para isso, mas a sociedade precisa cobrar mais dos legisladores para que aconteçam mudanças significativas.

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