O que falta em Curitiba para se tornar exemplo de mobilidade urbana
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Curitiba Foto: Istock/Getty Images
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Integração e menos carros: o que falta para a mobilidade urbana de Curitiba

Camila Luz em 1 de novembro de 2016

O transporte público de Curitiba, capital do Paraná, é considerado um dos melhores do país. Na década de 70, a cidade implantou corredores de ônibus nas vias estruturais da cidade que permitiram o rápido deslocamento. O modelo “Bus Rapid Transit” (BRT, ou Transporte Rápido por Ônibus em português) foi exportado para locais do mundo todo. No entanto, a mobilidade urbana na capital paranaense sofre com problemas atuais que a afastam de ser referência.

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Foto: Istock/Getty Images

“Infelizmente, o sistema de transporte coletivo de Curitiba, ‘exportado’ como modelo para diversas cidades do mundo tem apresentado fragilidades crescentes na capital”, afirma Renata Satiko Akiyama, professora de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Positivo de Curitiba.

Em 2015, após quase duas décadas de integração metropolitana do transporte público, a cidade decretou o fim da tarifa única. Segundo a professora, estudo recente feito pela Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano mostra que houve queda de 8% no total de passageiros transportados na capital. Curitiba também é uma das capitais brasileiras com o maior índice de motorização. “Esse cenário aponta para o declínio do transporte coletivo na cidade”, diz Renata.

O que falta para Curitiba ser referência em mobilidade urbana

Além do fim da tarifa única e da queda do número de passageiros usando o transporte público, outros fatores afastam Curitiba de ser uma referência atual para a mobilidade urbana. Renata cita tarifas elevadas, ônibus lotados, frota sucateada, congestionamentos, rede cicloviária incompleta e mal sinalizada, calçadas sem pavimentação e falta de segurança no trânsito.

Esse cenário não está muito distante da realidade de outras cidades brasileiras. Assim como grande parte dos municípios, Curitiba ainda tem muito a desenvolver e, para Renata, até regrediu no quesito mobilidade urbana.

A capital paranaense já tem status de metrópole e, por isso, precisa desenvolver mecanismos de transporte rápidos e eficientes. “Quando tratamos da mobilidade urbana para uma metrópole, três diretrizes são fundamentais”, explica a professora. “Relação intermunicipal, alternativas sustentáveis e integração de modais”, completa.

Integrar modais significa articular diferentes formas de deslocamento, como circulação de pedestres e ciclistas, transporte coletivo, sistema viário, aeroviário e transporte de carga. O ideal é que qualquer cidadão possa usufruir de diferentes opções de qualidade que funcionam de forma integrada.

Ele poderia ir de bicicleta até o ponto de ônibus e transportá-la até o trabalho dentro do veículo – ou estacioná-la com segurança no próprio ponto. Outra opção seria caminhar por uma rua segura, arborizada e pavimentada até uma estação de trem. O bom sistema de mobilidade urbana deve disponibilizar diversas opções para que o cidadão escolha o melhor trajeto.

A importância do pedestre

Mobilidade urbana e sustentabilidade estão interligadas tanto no quesito ambiental, quanto no quesito social. Renata acredita que um dos desafios para Curitiba é investir na criação de mecanismos que minimizem os impactos ambientais, aplicando tecnologias sustentáveis. Incentivar os cidadãos a deixar o carro em casa também é uma forma de reduzir problemas como a emissão de gases poluentes.

Foto: Istock/Getty Images

Foto: Istock/Getty Images

No quesito social, Curitiba precisa garantir a acessibilidade para todos e contemplar o fácil acesso aos locais de trabalho, serviços e lazer. A mobilidade urbana não deve funcionar apenas para reduzir distâncias e tempo de deslocamento entre casa e serviço, mas também para permitir que cidadãos possam usufruir da cidade da melhor forma possível.

Nesse sentido, Renata destaca um ponto positivo do desenvolvimento da cidade, que tem mudado de atitude com relação à importância do pedestre. “Historicamente, o planejamento de Curitiba favoreceu o transporte sobre rodas”, conta. “Entretanto, essa visão vem mudando, principalmente após a definição da Política Nacional de Mobilidade Urbana”, completa.

A Lei Federal estabeleceu como uma de suas diretrizes a prioridade dos transportes não motorizados sobre os motorizados. O uso do carro individual também deve ser preterido pelo transporte público. “De fato, a última revisão do plano diretor de Curitiba assume a diretriz federal e dedica seções específicas para a circulação não motorizada”, afirma Renata.

A cidade deverá investir em planos que melhorem calçadas para circulação de pedestres e ciclovias para que mais pessoas prefiram a bicicleta ao carro.

Os méritos da mobilidade urbana de Curitiba

Os problemas enfrentados por Curitiba hoje não tiram o mérito dos esforços feitos pela cidade no passado para ampliar seu sistema de transporte coletivo. Ele realmente foi considerado inovador na época e orientou o crescimento e desenvolvimento da cidade.

O Plano Preliminar de Urbanismo, proposto em 1964 pelas empresas Serete Engenharia S.A. e Jorge Wilheim Arquitetos Associados, foi um passo ousado em direção a mobilidade urbana na época. Seu objetivo era trazer um planejamento integrado para expandir Curitiba a partir de três funções básicas: uso do solo, transporte coletivo e sistema viário.

“Em essência, o PPU propôs o crescimento da cidade ao longo de duas vias estruturais (norte e sul), que tangenciam o centro de Curitiba”, explica Renata. “As longo das vias estruturais foram implantados os Setores Estruturais, que permitiam maior verticalização e incentivavam a articulação do uso habitacional coletivo e comercial”, completa.

Em 1974, o famoso modelo de transporte coletivo foi implantado nos eixos norte e sul. Ele se caracteriza pela integração em terminais e pela utilização de ônibus especialmente projetados para 100 passageiros.

Hoje, no entanto, a condição de metrópole e a preocupação com impactos ambientais exigem novos investimentos e nova visão. Para a professora, a integração de modais e transporte não motorizado é essencial, assim como o incentivo ao uso de um transporte público de qualidade e mais barato.

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