Países africanos não querem mais roupas doadas de outros países
roupas doadas
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Países africanos não querem mais roupas doadas de outros países

Pedro Katchborian em 30 de setembro de 2016

Doar roupas usadas parece uma boa ação, mas quem recebe pode não estar tão satisfeito assim. É o caso de alguns países da África: as roupas doadas vindas de outros países são vendidas em mercados de segunda mão e até geram empregos, mas o problema é relacionado a produção local. Países do Oeste africano não querem mais roupas doadas e querem banir essas importações. Em 2014, vários países importaram roupas que valiam mais de US$ 300 milhões, vindas dos Estados Unidos e de outros países. Especialistas dizem que esse tipo de ação acaba devastando as indústrias locais de roupa.

caixa com diversas roupas para doação

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Em março de 2016, a East African Community (EAC), que reúne Quênia, Uganda, Tanzânia, Burundi e Ruanda, propôs banir todas as roupas importadas até 2019. O objetivo seria parar de depender de importações de outras nações ricas, alavancar negócios locais e criar novos empregos. Mesmo com esse descontentamento, é improvável que a lei seja aprovada. Há resistência de países como os Estados Unidos e de outros que dependem dessas negociações.

O texto que sugere o banimento diz que a medida tem potencial para empoderar as economias dos países. “A região está pronta para se tornar um bloco industrial através de um maior nível de produção e manufatura”, diz Betty Maina, secretária do EAC ao jornal The East African. Outra ideia é que a medida pode ajudar a resgatar um sentimento de orgulho sobre o país.

O principal problema da competição entre roupas doadas e a produção local é o preço. Um jeans doado pode custar, por exemplo, US$ 1,50 no mercado Gikomba, o maior mercado de segunda mão dos países da África Oeste. O preço das roupas feitas no Quênia, por exemplo, não é tão caro, cerca de US$ 10 a US$ 15, mas como a comparação com o mercado de segunda mão é cruel, os produtores locais ficam prejudicados.

Países africanos têm utilizado os itens importados e usados desde os anos 1980. O custo da produção local aumentou, o que trouxe um declínio na exportação. No começo dos anos 1990, o Quênia tinha cerca de 110 fabricantes de vestuário em grande escala. Em 2006, esse número caindo pela metade: 55. Dez anos se passaram e o país continua com uma indústria limitada de roupas: o Quênia, por exemplo, só tem 15 indústrias têxteis. Em Uganda, esse número passa para 30.

Os problemas do banimento das roupas doadas

Deborah Malac, embaixadora dos Estados Unidos na Uganda, falou sobre o banimento. Segundo ela, a medida poderia trazer impactos negativos para Uganda, como o corte de parte dos benefícios do tratado “Crescimento e Oportunidade Africana”, feito pelos Estados Unidos e que traz vantagens para os países africanos.

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Para o Huffington Post, faz sentido os Estados Unidos serem contra o banimento: o valor global dessas transações do mercado de segunda mão tem valor de US$ 3,7 bilhão. Só Uganda importou 1,261 toneladas de roupas usadas dos Estados Unidos no último ano.

Além dos Estados Unidos não gostarem da ideia, pessoas que trabalham nesses mercados de segunda mão também podem ser prejudicadas. Um vendedor pode lucrar US$ 10 em um dia nesse mercado — o que é um valor decente nesses locais. A maioria das pessoas da área pode ganhar nem um décimo disso. Outro problema é que alguns especialistas duvidam que o banimento pode revitalizar a indústria local. Segundo Andrew Brooks, a produção local não necessariamente seria barata e poderia prejudicar os cidadãos mais pobres.

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