Renda mínima para quem vive em locais biodiversos pode salvar o planeta
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Renda mínima para quem vive em locais biodiversos pode salvar o planeta

Camila Luz em 3 de fevereiro de 2017

A renda mínima universal é uma quantia oferecida a todos os habitantes do planeta para garantir sua sobrevivência básica. Para o professor e escritor estadunidense Ashley Dawson, esse valor deveria ser garantido especialmente aos moradores de locais ricos em biodiversidade. Em seu novo livro, “Extinction: A Radical History”, argumenta que defender ecossistemas é a forma de assegurar que a humanidade não será extinta.

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Para o autor, o capitalismo está destruindo nossas riquezas naturais: o solo foi degradado, tornando-se infértil e erodido em muitas regiões; a água é contaminada por lixo e substâncias químicas vindas de indústrias; o ar é poluído pela emissão de gases; matérias-primas vão se esgotando pela ganância do ser humano. Por consequência, os seres humanos estão sujeitos a serem extintos.

O atual sistema global estaria empurrando a Terra para um evento de extinção em massa. Mas para Dawson, há luz no fim do túnel: dar renda mínima garantida para populações que vivem perto ou nos principais pontos de biodiversidade do planeta. Seu objetivo é combater a caça furtiva, o desmatamento e outras atividades nocivas ao meio ambiente.

Capitalismo, o predador de espécies

De acordo com Dawson, que é especialista em estudos pós-coloniais, há cerca de 500 anos os europeus inauguravam o “capitalismo moderno”, um sistema enraizado no colonialismo, escravidão e destruição ambiental. “O capitalismo é um sistema econômico baseado na expansão incessante”, disse, ao jornal The Guardian.

[O capitalismo] Deve crescer a uma taxa composta ou experimentará crises econômicas e sociais convulsivas. As contradições deste sistema são evidentes: um sistema econômico baseado na expansão infinita deve inevitavelmente colidir com os limites naturais dos ecossistemas finitos.

Ao se expandir por todos os continentes, o capitalismo substituiu sistemas relativamente sustentáveis que o precederam. As comunidades harmônicas perderam espaço para ações genocidas e ecocidas, o que gerou uma crise na biodiversidade.

O imperialismo e o capitalismo enxergam os recursos naturais como produtos que podem gerar lucro e, por isso, depredam o meio ambiente.

Dawson aponta para exemplos como o comércio de peles de castor na América pré-colonial; a caça às baleias no século XIX e a dizimação dos bisões (mamíferos similares aos búfalos) durante a guerras entre indígenas e americanos. Hoje, o número de espécies ameaçadas é ainda maior. As tartarugas de água doce na Ásia estão quase desaparecendo; espécies de atum estão entrando em colapso e espécies de macacos, como gorilas e orangotangos, estão em perigo.

“A destruição ambiental é principalmente motivada por grandes interesses corporativos, na maioria das vezes com vínculos econômicos com bancos e o mercado do hemisfério norte global”, diz Dawson.

Para o autor, há duas soluções para evitar uma catástrofe: sociedades sustentáveis e o pagamento da “dívida ambiental” por parte dos principais causadores. Em poucas palavras, diz que exploradores devem garantir a renda mínima universal para quem vive nos locais explorados.

A renda mínima em locais biodiversos

Caso o argumento de Dawson seja aceito, a primeira opção é apoiar com dinheiro as populações humanas que vivem nos principais pontos de biodiversidades. Esses locais representam apenas 1,4% da Terra, mas abrigam quase 60% das espécies conhecidas.

Segundo o The Guardian, países subdesenvolvidos já argumentaram que nações ricas, como Estados Unidos e Reino Unido, estão em dívida e deveriam ressarci-los pelos danos causados pelas mudanças climáticas. Para Dawson, essa dívida poderia ser quitada por meio de uma renda universal:

Focar a renda mínima garantida no número relativamente limitado de locais biodiversos removeria o principal motivo econômico que leva as pessoas que vivem nessas áreas a destruir seu ambiente: a pobreza.

A renda mínima também permitiria que essas pessoas, muitas vezes marginalizadas, organizassem ações efetivas contra projetos corporativos ou governamentais que ameaçam os pontos críticos.

Por fim, o autor acredita que a renda poderia vir de um imposto sobre as transações financeiras de pessoas que enriqueceram às custas do planeta e foram responsáveis por transferir fundos dos países subdesenvolvidos para nações ricas.

Comunidades sustentáveis

A segunda solução, ainda que pareça distante da realidade atual, é possível na opinião do autor. Ele se baseia no historiador indiano Ramachandra Guha, que tem um conceito chamado “pessoas ecossistêmicas”. Esses indivíduos levam vidas sustentáveis e não-capitalistas, como certos grupos indígenas e agricultores que utilizam práticas conscientes e vivem perto da natureza.

“São esses grupos de pessoas que estão frequentemente na vanguarda das lutas ambientais contemporâneas”, diz. “Pense, por exemplo, no papel dos ativistas indígenas na luta contra a extração extrema e o capitalismo fóssil hoje, em Standing Rock (EUA), e na luta dos Sarayaky na floresta tropical equatoriana”, argumenta.

Tais comunidades seriam emblemas do que é possível no futuro. “As sociedades humanas ao longo da história demonstraram grande engenho em tornar os ecossistemas mais produtivos e, onde essa produtividade é compartilhada igualmente, as civilizações têm sido caracterizadas por longevidade significativa”, finaliza.

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