Como o urbanismo militar leva a lógica da guerra às cidades
Midnight Military Mission
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Como o urbanismo militar leva a lógica da guerra às cidades

Kaluan Bernardo em 30 de outubro de 2016

Hoje as cidades não são desenhadas, pensadas e adaptadas pensando apenas na mobilidade e bem-estar dos habitantes. Em muitos lugares, o medo e o terror da guerra (ou da ameaça dela) fazem a lógica de guerra entrar no dia a dia . É o que se chama de urbanismo militar.

Substitui-se árvores por câmeras, por exemplo. Desta forma, ruas privilegiam segurança em detrimento do legado histórico e governos tratam problemas urbanos como bélicos (usando termos como “guerra às drogas”). É o que defende Stephen Graham, autor do livro “Cidades Sitiadas: o Novo Urbanismo Militar”, recém-lançado no Brasil e que chegou a ser indicado ao Prêmio Orwell de literatura política.

Graham, geógrafo e professor de arquitetura e planejamento da Universidade de Newcastle, diz, por exemplo, que após o 11 de setembro, Nova York se tornou mais semelhante à Bagdá do que muitos pensam. “Os métodos de controle, os equipamentos, a tecnologia e mesmo a doutrina militar usada em áreas urbanas de combate têm sido implantados amplamente nas nossas cidades. O centro de Manhattan não é tão diferente da Zona Verde de Bagdá”, comenta ao jornal Estadão.

Longe de ser uma exclusividade de cidades vítimas de ataques ou em meio a guerras, o urbanismo militar pode chegar em qualquer lugar que se tenha grandes receios de segurança pública.

Megaeventos como a Olimpíada no Rio de Janeiro também alteram a estrutura das cidades sob o pretexto de se evitar o pior. Na Olimpíada de Londres, em 2012, a cena foi parecida, com 13 mil militares nas ruas. Na França, após os atentados, instaurou-se clima de guerra dentro da cidade. A população se acostuma a ver homens armados nas ruas.

Como o urbanismo militar se aplica hoje

O urbanismo militar não é exatamente uma novidade. Na Idade Média, muitas cidades eram muradas e pensadas dentro dos padrões de segurança contra a guerra. Salvador, primeira capital brasileira, é um forte, por exemplo. As ruas de Paris, entre 1853 e 1870, foram pensadas de formas sinuosas para facilitar a construção de barricadas e evitar protestos.

Ao Nexo, Graham comenta: “O ‘novo’ urbanismo militarista nasce do aprendizado com essas histórias, mas tem de lidar com um contexto muito diferente: um mundo onde o labirinto do terreno urbano tem se tornado a norma, não a exceção; onde a vida urbana é de uma mobilidade intensa e não pode ser ‘murada’ em relação a um ‘exterior’; onde as cidades podem abrigar 40 milhões, 50 milhões de pessoas; onde a vida urbana é conectada e mediada por um fluxo vasto inimaginável e desconhecido de intercâmbios digitais na velocidade da luz; onde a guerra, a violência e a tentativa de controle social é mediada e organizada usando esse mesmo intercâmbio digital; e onde um número pequeno de super-ricos saudáveis cresce cada vez mais, às custas das massas urbanas”.

O urbanismo militar se dá de uma forma diferente em cada lugar, lidando com cada conflito e desafio próprio, mas há um fator comum: uma guerra, muitas vezes invisível, dentro da própria cidade. “Nas últimas duas décadas, tantos as forças militares quanto as forças de segurança domésticas estão usando aparatos que antes eram utilizados apenas nos campos de batalha pra controlar e dominar ambiente urbanos. É algo diferente. E novo. As tecnologias usadas na Guerra Fria, como mísseis de longo alcance, sistemas de interceptação por satélites, já não fazem mais sentido. E há uma questão fundamental nisso: o inimigo já não vive a milhares de quilômetros de distância”, diz ao Estadão.

Esse medo e status de uma guerra invisível e interna gera algo pior. Segundo, ele dá margem à procura de um inimigo interno – o que se traduz em preconceito: nos Estados Unidos com os negros, na França com os imigrantes árabes e no Brasil com os pobres. Tudo isso refletido no próprio desenho e planejamento urbano. “Quando o Estado, a polícia, começa a ver como alvos determinadas áreas, raças ou classes, é muito fácil que eles comecem a ver essa mesma população como um inimigo, no sentido militar da palavra”, comenta.

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