Viver em Marte pode ser o futuro da humanidade, mas é ético?
Marte
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Viver em Marte pode ser o futuro da humanidade, mas é ético?

Kaluan Bernardo em 11 de janeiro de 2017

Talvez um dia a raça humana tenha que viver em Marte. Não só para fins turísticos ou científicos, mas criar famílias, comunidades e cidades por lá.

Marte - Red Dragon Space X

Red Dragon da Space X. Foto: Divulgação

Talvez isso aconteça porque estragamos demais a Terra e Marte seja nosso plano B. Talvez porque o ser humano queira se espalhar pela galáxia e precise começar colonizando o planeta vizinho. Ou talvez porque sejamos tantos que não caibamos mais aqui. As possibilidades são as mais variadas e não existem só nas mentes de escritores de ficção científica, mas também na de brilhantes cientistas e empreendedores contemporâneos como Elon Musk e Stephen Hawking.

Pode parecer uma realidade distante, mas não é descartável. A SpaceX, de Elon Musk, está criando foguetes justamente com o objetivo de levar a raça humana à Marte. E seu fundador acredita que será necessário no futuro. Ameaças como o aquecimento global levaram uma série de pesquisadores a considerar seriamente a possibilidade. Stephen Hawking diz que nós não temos mais de 1.000 anos na Terra.

No entanto, para vivermos em Marte, precisaremos executar um processo chamado terraformar — moldar o planeta para deixá-lo em condições semelhantes à Terra e, com isso, torná-lo habitável. O processo, artificial, envolve fazer com que Marte deixe completamente de ser o que é para se tornar o que queremos que seja. Mas isso é ético?

O argumento ético contra a terraformação de Marte

Robert Sparrow, professor Filosofia na Monash University, da Australia, escreveu um ensaio na revista Nautilus argumentando que eticamente e esteticamente o certo é deixar o Planeta Vermelho em paz, sem humanos.

“Não é porque podemos fazer algo que devemos”, escreve o autor. Visitando ideias de Aristóteles, Sparrow defende que há dois grandes problemas em terraformar Marte — um de natureza estética e outro ética.

O primeiro é sobre preservar a beleza natural do planeta. “Marte tem tantas características de beleza natural. É a casa do maior vulcão conhecido em qualquer planeta, o Monte Olimpo, cuja altura chega a 13,6 milhas [aproximadamente 21,9 quilômetros] — duas vezes e meio a altura do Monte Evereste. Marte também tem possivelmente o sistema de cânions mais espetacular do sistema solar, que se alonga por aproximadamente o comprimento dos Estados Unidos e tem canais de seis a sete vezes mais profundos do que o Grand Canyon”, diz.

“A paisagem marciana é um sistema fluído, esculpido pelo vento e outros ciclos atmosféricos e geofísicos complexos. Porque a terraformação traria de volta a água líquida para o planeta, mudaria radicalmente sua paisagem, destruindo sua beleza distinta”, conclui Sparrow.

Para o autor, ser insensível à beleza do planeta, mesmo que possa não existir vida lá, é um vício desumano. Isso porque o que nos torna civilizados — e não primatas — é justamente a nossa capacidade teórica de apreciar a beleza. “Apenas uma pessoa insensível à beleza não reconheceria que a destruição da paisagem marciana como uma tragédia”, defende.

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Já o argumento ético é sobre arrogância. “Algumas vezes a arrogância é autoevidente nos pronunciamentos dos entusiastas da terraformação, quando eles exultam um possível futuro no qual humanos têm poderes de quase-deuses e podem transformar planetas inteiros. A escala do projeto e sua potencial falha catastrófica também sugerem que a ação é arrogante”, comenta.

Essa arrogância, segundo o autor, faria com que a humanidade corresse um risco de ordem interplanetária. Além disso, a ideia de que podemos habitar um outro planeta porque não conseguimos cuidar desse é um sinal de imaturidade. Melhor do que transformar outro lugar em nossa “casa”, seria melhor cuidarmos da casa em que vivemos.

Os argumentos a favor de terraformar Marte

Nem todos enxergam da mesma forma. O jornalista Neel Patel escreveu no site de ciência Inverse que os argumentos de Sparrow são “entretenimento”. Para ele, o maior compromisso da humanidade é com ela mesma.

Marte

Foto: Istock/Getty Images

Em um cenário no qual futuras gerações têm a vida ameaçada na Terra, encontrar outras soluções para garantir sua sobrevivência é um imperativo moral. “Para garantir a sobrevivência da raça humana, precisaremos fazer tudo o que pudermos para garantir uma casa de backup às espécies na melhor forma para os colonizadores prosperarem”, comenta.

Ele ainda acredita que a possibilidade de começarmos um novo planeta, do zero, após aprendermos com os erros na Terra, permite que criemos uma sociedade muito mais equilibrada, tomando cuidados para não repetir os mesmos deslizes.

No entanto, ambos concordam em algo: é necessário, desde já, iniciar uma discussão sobre o assunto. Ela não só fala sobre um possível futuro, mas sobre o presente e nossa relação com o planeta em que vivemos.

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