Brasileira transforma tecidos africanos em negócio social
Shwe-The-Wearable-Library
Foto: divulgação
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Tecidos africanos e o negócio social da brasileira Julia Pinheiro

Diana Assennato em 15 de junho de 2016

Julia Pinheiro tinha o emprego dos sonhos quando conheceu um cara que mudaria a sua vida. Recém-formada em Marketing de Moda em Milão, Julia se quer pensava em abrir um negócio social: trabalhava como Relações Públicas para a marca Roberto Cavalli e a prestava consultoria de pesquisa para uma empresa global de tendências, a WGSN.

Um dia, sua colega de apartamento avisou que receberia um amigo. Guy, um guitarrista sul-africano, tocava violão no chão da sua cozinha quando Julia o viu pela primeira vez. Ali mesmo se apaixonaram.

Em pouco tempo, Julia pediu demissão, largou o seu apartamento e se mudou para Durban, a terceira maior cidade da África do Sul. Ao chegar lá, percebeu que arrumar um emprego na sua área seria uma tarefa difícil: a única indústria a sua disposição era o fast fashion. “Não tem como uma camiseta custar 5 dólares. É apenas impossível”, ela disse em entrevista ao Free the Essence.

Com a mudança, seus conceitos de vida também se transformaram. Mesmo sendo um país em desenvolvimento e de ter sido recebida por uma vida confortável, a desigualdade é uma constante na sua rotina. Julia contou ao blog Um Ano Sem Zara: “Sabe você ir ao supermercado, comprar um belo de um peixe fresquinho e, na hora de pagar, você morrer de vergonha porque o cara na sua frente está contando as moedas pra pagar o pão de forma e um litro de leite? Pois é, aconteceu comigo há uma meia hora. Sempre acontece.”

Tecidos africanos coloridos

Mas não demorou para que Julia sentisse que havia algo de especial nos shweshwe, tecidos africanos coloridos típicos da região. Eles são produzidos com uma grande variedade de cores e estampas, caracterizados por padrões geométricos complexos e bonitos. Julia não sabia costurar, nunca tinha trabalhado com produção de moda e não sabia nem por onde começar, mas sentia que aqueles tecidos acumulavam histórias de pessoas que mereciam ser contadas.

Desde que chegou a Durban, há quase três anos, Julia trabalhou e prestou consultoria para uma série de trabalhos sociais, mas, aos poucos, um projeto autoral começou a tomar forma. A Shwe, The Wearable Library (em tradução livre: A Biblioteca Usável), é o projeto dos sonhos que Julia está tirando do papel.

Um negócio social em formato de biblioteca

A empresa trabalha com mulheres em situação de risco ou vulnerabilidade (refugiadas, idosas, vítimas de violência doméstica ou que vivem abaixo da linha da miséria) que desejam aprender um ofício. O que não faltam são histórias extraordinárias, como a de uma jovem refugiada que foi do Congo à Durban a pé e teve o seu irmão comido por crocodilos em um rio que tiveram que atravessar nadando. Para Julia, o seu objetivo é conseguir ouvir as histórias destas mulheres, publicá-las em formato de roupas usando o tecido shweshwe como ferramenta de comunicação.

Cada peça está carregada de histórias dessas mulheres que a fizeram. Para Julia, não podemos continuar vivendo em um mundo de sonhos, onde nos fazem acreditar que tudo o que consumimos nasce em uma prateleira. Ela diz:

Tudo que você possui tem uma história, e tudo que você compra foi feito por uma pessoa que tem uma voz.

Em seu site, o projeto conta essa narrativa de forma detalhada, destrinchando os detalhes dessas mulheres de 16 a 80 anos de idade que fazem parte de seu negócio social.

Networking a partir do zero

Mesmo sem conhecer ninguém em Durban, Julia passou a contar a ideia da The Wearable Library para quem quisesse ouvir. “Eu faço tudo sozinha, mas cada vez que conto essa história alguém se oferece para ajudar. Não ofereça! Eu sempre aceito a ajuda”, ela ri.

Foi desse forma que a empreendedora social conseguiu criar um ecossistema ao redor do seu projeto. Julia convenceu a Universidade de Durban a criar um curso específico para suas funcionárias, onde, junto aos alunos, aprendem não só a costurar, mas a gerir um negócio. “Quero treinar essa mulher o máximo possível. Não quero que ela seja minha funcionária, ela é livre”, conta.

A marca, nascida em dezembro de 2015, ainda está descobrindo o mercado de seu negócio social que, graças ao Instagram, é muito mais global do que local. Julia vende para Dubai, Espanha, Califórnia e Brasil, mas não tem quase nenhuma cliente da África do Sul.

“Eu realmente acredito que a moda pode ser um jeito de mudar a vida das pessoas”, diz Julia. Essencialmente, o seu projeto traz roupas ao mercado da moda que não apenas vista as pessoas, mas que proporcionem algum tipo de troca social entre produtor e consumidor, revelando assim o contexto da vida das pessoas que vivem em Durban.

E você? Conhece algum outro negócio social da indústria da moda? Conte nos comentários abaixo.

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