O fast fashion quer ser sustentável; mas na teoria ou na prática?
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O fast fashion quer ser sustentável; mas na teoria ou na prática?

Kaluan Bernardo em 14 de dezembro de 2016

O Fast Fashion está destruindo o mundo. O modelo, adotado por grandes marcas para incentivar o rápido consumo de um vestuário que é descartável, resulta em grandes quantidades de recursos naturais extraídos para virar lixo. E o tamanho do problema é imenso.

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A indústria da moda é considerada a segunda pior para o planeta, ficando atrás apenas da do óleo. Ao menos 20% dos 32 bilhões de águas poluídas ao redor do mundo estão sujos devido ao tingimento de roupas. E 3,2% de toda água disponível no mundo é usada pelo setor têxtil — afinal, são necessários 2.700 litros para produzir uma camiseta, ou 10.000 litros para fazer uma calça jeans. Veja mais desses dados aqui.

Na China, as águas costumam ter a cor da estação. Se o verde, escolhido pela Pantone para representar a esperança em 2017, pegar, muitos rios chineses estarão verdes. A poluição das águas por lá é responsável por 75% das doenças e 100 mil mortes todos os anos. Ainda segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês), 84% das roupas não desejadas no país vão ou para um aterro sanitário ou para um incinerador.

Quando descartadas em aterros, essas roupas colaboram com a emissão de gases de efeito estufa; quando queimados, lançam uma série de toxinas no ar. E o número só cresce: em 20 anos, os estadunidenses foram de 7 milhões de toneladas de roupas descartadas todos os anos para 14 milhões — uma média de 3,6 quilos por cidadão.

Grandes marcas de fast fashion, como Nike, Adidas, Zara, Levis, H&M, compartilham boa parte dessa responsabilidade — inclusive algumas têm acusações de trabalho escravo em seu histórico. No entanto, tentam resolver a equação e trazer a sustentabilidade para mudar o cenário.

O que marcas de fast fashion podem fazer para se tornarem sustentáveis

Há uma tímida, porém crescente, demanda por moda ética. Relatório da instituição de pesquisas Euromonitor International, divulgado pela Bloomberg, mostra que 14% dos estadunidenses procuravam por roupas feitas com responsabilidade ambiental. Em 2015 o número era de 12,9%.

Nesse cenário, empresas sentem demandas também mercadológicas para mudar. A H&M, sueca que faturou US$ 25 bilhões em 2015, tem tomado uma série de iniciativas nesse sentido.

Foto: Istock/Getty Images

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Em 2014 lançou seu relatório de sustentabilidade, detalhando processos e gargalos de sua cadeia produtiva — da extração de matéria-prima ao transporte das peças. O relatório traz algumas iniciativas para melhor tratamento de animais usados no processo e esforços para reduzir o uso de água. No site da companhia é possível ver alguns nomes e endereços de seus fornecedores.

A empresa também destinou US$ 1,1 milhão à Global Change Award, uma premiação que incentiva cinco empresas a procurarem por inovações sustentáveis no mundo da moda. Ela ainda lançou um programa chamado RE100, no qual se compromete a utilizar 100% de sua energia vinda de fontes renováveis — algo que já faz na Holanda e no Reino Unido.

A Zara, do grupo Inditex, que em 2015 vendeu US$ 15,9 bilhões, chegou um pouco depois na discussão sobre sustentabilidade, mas foi eleita a empresa de varejo mais sustentável do ranking Dow Jones para o tema.

A companhia lançou em 2016 sua primeira coleção sustentável, a “Join Life“, na qual as peças são feitas de materiais como lã reciclada, algodão natural ou Tencel (uma fibra feita de celulose de madeira proveniente de florestas certificadas).

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Além disso, a empresa se comprometeu a reduzir o uso de energia elétrica e água. Ela tem como meta reduzir em 20% a emissão de gases de efeito estufa entre 2005 e 2020. Até lá, quer produzir zero descarte de material.

A Zara também publicou o nome e endereço de fornecedores ao redor do mundo para que o cliente possa acompanhar. Há um esforço especial em boicotar a produção de algodão do Uzbequistão, conhecido por empregar trabalho infantil e escravo. Até 2020 prometeu usar apenas algodão orgânico certificado por organizações ambientais.

Esforços de sustentabilidade no fast fashion ainda não chegaram no equilíbrio

Em 2015, a H&M lançou um programa no qual os clientes podem levar peças de roupas de qualquer marca e trocar por vouchers. No entanto, segundo reportagem da revista Newsweek, embora bem intencionado, o programa não é eficiente. Apenas 0,1% do material pode realmente ser reaproveitado.

O jornal The Guardian diz que a H&M passa por dificuldades técnicas para reciclar tecidos de algodão misturados a outros materiais. Com base em dados públicos, a reportagem conclui que levariam 12 anos para que a empresa pudesse reutilizar 1.000 toneladas de resíduos têxteis — quantidade que vende em apenas 48 horas. O jornal ainda critica a política de vouchers da companhia, acusando-a de apenas liberar a consciência dos consumidores para comprarem mais material que continuará a ser descartado.

Os esforços de transparência da empresa não foram suficientes para afastá-la de escândalos. A organização Clean Clothes, por exemplo, revelou que, dois anos e meio após a H&M assinar o Acordo de Bangladesh e se comprometer a oferecer mais segurança a seus trabalhadores, nenhum de seus fornecedores cumpriu a promessa.

Em 2016 a ONG Business & Human Rights Resource Centre identificou crianças refugiadas trabalhando em uma fábrica fornecedora da H&M na Turquia. No mesmo ano, uma unidade que oferece produção para a empresa teve um incêndio em Bangladesh e quatro funcionários ficaram feridos — 60 minutos antes, 6 mil deles estavam dentro do prédio.

A Zara também não foge desse tipo de crítica. Em 2011 foi acusada de empregar trabalho análogo à escravidão com imigrantes em São Paulo. A Clean Clothes também mostrou, em 2013, que a companhia usava jato em suas calças jeans, prática que prometera eliminar, uma vez que é conhecida por causar doenças fatais nos pulmões dos trabalhadores.

Por fim, em 2015 o jornal The Guardian afirmou que a companhia estava promovendo uma cultura de discriminação racial em Nova Iorque, sugerindo que clientes negros fossem potenciais ladrões.

Frente a tantos esforços e controvérsias, fica a questão se as empresas de fast fashion realmente conseguirão ser consideravelmente sustentáveis a ponto de realmente mudarem o cenário — que urge.

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