MateriaBrasil, o design sustentável e sua biblioteca de materiais
Desenvolvimento de produto pela MateriaBrasil
Desenvolvimento de produto pela MateriaBrasil Foto: MateriaBrasil
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MateriaBrasil, o design sustentável e a biblioteca de materiais conscientes

Camila Luz em 6 de junho de 2016

A sustentabilidade não está só no desenvolvimento de produtos que respeitam o meio ambiente, mas também na forma como a sociedade se comporta. Pensado nisso, a MateriaBrasil se tornou um escritório de design sustentável que presta consultoria à empresas que desejam aprimorar seus processos. Também criou uma biblioteca colaborativa de materiais conscientes, que pode ser acessada de forma gratuita por qualquer pessoa.

A MateriaBrasil trabalha com impactos socioambientais positivos. Isso significa que orienta projetos para melhorar o descarte de resíduos, substituir matérias-primas de forma consciente e implementar ações que não tragam prejuízos para ambiente e para sociedade.

“Trabalhamos com empresas do sul que fazem calçados, bolsas e roupas e querem trocar seus materiais, por exemplo”, conta Bruno Temer, sócio-fundador. “Também atuamos no setor moveleiro, com marcas que desejam trabalhar com linhas de produtos certificados. Já fizemos parcerias com a Embraer, WWF e clientes menores, como ONGs, associações e cooperativas de artesões”, explica.

Colaborar e mudar a conduta

A MateriaBrasil fica no Rio de Janeiro e está no mercado há dez anos. Foi fundada em 2005 por quatro sócios: Bruno Temer, Thiago Maia, Claudio Ferreira e Pedro Temotheo. Bruno conta que, no início, desenvolviam produtos como fibras naturais e resinas vegetais.

equipe do projeto materiabrasil

Equipe MateriaBrasil Foto: Victor Lanari

Em meados de 2009, entenderam que apenas desenvolver esses produtos estava aquém do que gostariam. Bruno é formado em design industrial, engenharia ambiental e tem mestrado na área de engenharia de materiais. “Me aprofundei nos processos produtivos, nos maquinários, nos materiais e acabei percebendo que o desafio no Brasil não é técnico”, conta.

Temos tecnologia para resolver os problemas ambientais. Mas também temos uma dificuldade no comportamento das pessoas e nos padrões de consumo.

A partir dessa conclusão, pararam de desenhar soluções novas e começaram a orientar empresas. “Hoje, a MateriaBrasil trabalha tanto na parte de design sustentável, desenvolvendo produtos próprios e para clientes, quanto na parte de consultoria”, diz o sócio. Muitas vezes, desenvolvem uma única solução que resolve o problema de dois clientes ao mesmo tempo.

Uma empresa não consegue reciclar os cartuxos de sua impressora, por exemplo. Tentamos resolver o problema mas, no final das contas, a solução é desenhar cartuxos novos, que sejam facilmente reaproveitados. O próximo passo é pensar produtos melhores com a fabricante de impressoras.

Para Bruno, muitas vezes, a solução está no campo do comportamento, estimulando cooperação e colaboração. “As soluções devem fazer sentido e não devem estar isoladas da realidade”, opina. Atualmente, a empresa está desenvolvendo uma máquina de reciclagem para a WWF, pois a organização trabalha com a despoluição da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. O plástico é um grande problema e a MateriaBrasil acredita que a solução é impedir que o lixo chegue até a água.

“Desenvolvemos uma pequena máquina que vai ficar rodando as comunidades e reciclando os resíduos”, explica o sócio. “Precisamos falar para as pessoas: olha, isso que você está descartando não é lixo, é reciclável e pode ter outros usos”, conta. Às vezes, a solução não é o produto em si, e sim o serviço e a mudança de conduta.

Materioteca e o design sustentável. Ou melhor, colaborativo e consciente

 A Materioteca é outra solução colaborativa desenvolvida pela MateriaBrasil. Em 2005, Bruno e seus sócios criavam produtos e materiais, como compensados com resto de palmito, bananeira e bambu. Quando começaram a trabalhar com consultoria, perceberam que seu acervo de materiais era um diferencial competitivo. “Mas para nós não fazia sentido ter tantos materiais sem que ninguém tivesse acesso a essas informações”, conta.

Decidiram criar a Materioteca em 2011: uma biblioteca colaborativa de materiais de baixo impacto ambiental.

screenshot do site

Parte de produtos da Materioteca.

A Materioteca é gratuita e o acesso é livre para fornecedores e usuários. Quem quiser expor seus produtos precisa cadastrá-los. Já os usuários devem fazer login para que a MateriaBrasil possa avaliar os acessos e melhorar a plataforma. “Não fazemos vendas e nem disseminação de compras. Apenas damos informações”, diz Bruno.

O objetivo é que pessoas tenham meios de desenvolver seus próprios produtos ou comprar materiais de forma consciente. Os itens do acervo são avaliados de acordo com seis direcionadores: ciclo de vida, energia, segurança, água, humano-social e gestão.

Assim, cada pessoa pode entender de onde os objetos e materiais vieram e quais são os impactos causados por eles no meio ambiente. Com consciência, fazem suas próprias escolhas.

Dificuldades de trabalhar com sustentabilidade no Brasil

A primeira versão online da Materioteca era bem simples. Primeiro, a MateriaBrasil fez um crowdfunding para pagar programadores e tornar o site mais interativo. Depois, veio uma nova solução: o projeto chamou a atenção da Embraer. A empresa de aviação pediu que os sócios montassem uma biblioteca de materiais para ela. Com a grana do serviço, aperfeiçoaram a plataforma e implementaram a versão que está no ar hoje.

“É um projeto dentro da nossa empresa que não visa lucro financeiro. Investimos nele todo mês e levamos prejuízo financeiro todo mês”, explica Bruno. “Mas há outros lucros, como social e ambiental”, diz.

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Hoje, estuda a possibilidade de abrir um instituto de fomento à educação, disseminação de informações e consumo consciente. “Como instituto, talvez a gente consiga alguma engenharia para que a Materioteca não dê prejuízo, pelo menos. Há companhias que querem apoiar, mas não podem dar dinheiro para uma empresa. Para um instituto, talvez”, diz Bruno.

O sócio explica que não existe um modelo de negócio social no Brasil. Só há duas possibilidades: abrir uma empresa que visa lucro financeiro ou uma ONG. Ele afirma: “no país, é complicado trabalhar com projetos de impacto social e ambiental. A sustentabilidade dificilmente é a essência do negócio”. Projetos sustentáveis não são a prioridade das empresas, a não ser que se convertam em eficiência financeira.

Esse é o maior desafio: transformar impactos socioambientais positivos em faturamento e lucro. Mas deveria ser mais lucrativo trabalhar de acordo com princípios de preservação do que queimar petróleo, não é mesmo? Na Europa, isso já acontece. No Brasil, não.

Hoje, a MateriaBrasil se mantém com o dinheiro das consultorias e da criação dos produtos. No passado, chegaram a ter uma marcenaria para produzir os materiais. Hoje, estão mais focados nos projetos para empresas e trabalham com parceiros quando precisam desenvolver soluções específicas. Ao todo, são sete pessoas trabalhando, incluindo quatro sócios.

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