Entenda por que a moda sustentável pode ser mais cara
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Foto: Istock/Getty Images
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Entenda por que a moda sustentável pode ser mais cara

Camila Luz em 27 de julho de 2016

A moda sustentável pode ter custo de produção mais alto do que marcas que não trabalham com consciência ecológica e social. Como não agride o ambiente e nem explora a mão de obra, há um valor agregado embutido em seus produtos que pode fazer o caro sair barato. Mas será que ela é mais cara mesmo?

meninas da PP acessórios ao lado de material usado

PP Acessórios. Foto: Reprodução/Site

Petula Silveira, fundadora e dona da PP Acessórios, diz que seus produtos não são mais caros do que outras marcas que também vendem bolsas e acessórios de couro. “No caso da PP, não é mais caro porque compramos peles de aprovação”, explica. Ela e sua sócia, Amanda Py, reaproveitam tecidos que sobraram da indústria calçadista para criar novas peças.

No entanto, Petula afirma que a moda sustentável tem todo um trabalho de produção artesanal, curadoria e busca por matérias-primas ecológicas que pode encarecer os custos. A PP, por exemplo, produz peças exclusivas. “Em uma produção em massa, você faz mil peças por dia. Nós fazemos 10”, explica.

A produção artesanal é mais justa e mais cara

Marcas que trabalham com sustentabilidade costumam investir na produção artesanal, que gera produtos mais exclusivos e de boa qualidade. Suas peças são produzidas em menor quantidade, o que encarece muito a produção.

Camila Puccini, uma das donas da marca gaúcha de vestidos Ada, conta que todas as peças são feitas por ninguém menos do que ela própria. “Estamos cogitando contratar uma estagiária para nos ajudar em breve, mas por enquanto sou só eu que costuro. O corte faço em maiores quantidades e vou terminando o acabamento aos poucos. Para uma pessoa só, é muita coisa”, explica.

 Camila faz todo o processo, como modelagem e costura, e tem todo o maquinário. Segundo ela, essa é uma forma de controlar a qualidade dos produtos que oferecem. Além disso, a Ada não trabalha com coleções, pois produzir dessa forma coloca peças no mercado que saem logo de moda e são substituídas, gerando desperdício. A marca gaúcha criou modelos prontos, com shapes e nomes específicos, que podem ser relançados em várias edições.

Um vídeo publicado por Ada (@conceitoada) em

A Ada tem peças acessíveis, a partir de R$ 120, e mais caras, que podem custar até R$ 327. “Alguns produtos são mais caros principalmente pelo tempo de produção que demandam. Geralmente a gente leve umas três horas para fazer um vestido normal. Às vezes, leva cinco”, explica Camila. “A questão principal é o acabamento. Procuro achar o melhor possível para cada tipo de tecido. Os mais caros são os de linho e os de jeans, que demandam um acabamento mais cuidadoso e detalhado”, revela.

mulher costurando sapato vinho com bolinhas brancas

Foto: Reprodução/Facebook Insecta Shoes

Babi Mattivy, uma das fundadoras da marca de sapatos veganos Insecta Shoes, também conta que produzir peças artesanais exclusivas aumenta os custos da produção. Seus produtos geralmente custam entre R$ 259 e R$ 289.

Ela explica que os formatos dos sapatos da Insecta são exclusivos. Eles são feitos a partir de tecidos veganos vindos de brechós e de outros materiais ecológicos e reciclados. “Uma peça de roupa faz, em média, cinco ou seis pares. Temos uma produção menor, exclusiva. Tudo é produzido em  um ateliê em Novo Hamburgo onde os funcionários são super bem remunerados” conta Babi.

O caro sai barato

Matérias-primas produzidas de forma responsável, como o algodão orgânico, são mais difíceis de encontrar e mais caras.

A moda sustentável no geral sofre muito com a falta de fornecedores ecológicos. Isso acaba deixando o custo da matéria-prima mais alto.

No Brasil, pode ser ainda mais difícil encontrar fornecedores que produzam matéria-prima ecológica em território nacional. “Você até acha, mas tem pouca opção”, diz Babi. Camila concorda e afirma que esse é um dos maiores desafios encontrados por ela e sua sócia, Melina Knolow.

A Ada trabalha com fibras naturais, como algodão e linho, mas ainda utiliza alguns tecidos de fibras sintéticas, problema que deve ser solucionado no futuro próximo. Além disso, elas têm planos de lançar uma linha feita só de algodão orgânico. Além de ser produzido de forma responsável, sem utilizar substâncias tóxicas que agridem o ambiente, é mais fácil de se descartar, pois se decompõe rapidamente. Peças sintéticas podem demorar até 200 anos para se degradarem por completo.

No Brasil, há algumas empresas que importam e revendem algodão orgânico. Mas Camila e Melina queriam que todo o processo fosse feito no Brasil e encontraram duas companhias que atendem suas ambições.

Queríamos valorizar a matéria-prima nacional. Infelizmente, o algodão orgânico é muito caro, pois todo o processo de colheita é manual, demora mais para crescer, é agredido por algumas pragas… tudo isso acarreta no valor final.

Apesar de custar mais caro, Camila afirma que esse algodão deve ser valorizado pelo baixo impacto ambiental que causa. Entretanto, muitas pessoas sequer entendem qual é o valor agregado de um tecido orgânico. Nesse ponto, entra a conscientização do consumidor.

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O real valor da moda sustentável

mulher de vestido almerinda cinza

Vestido Almerinda da Ada, 50 unidades produzidas. Foto: Reprodução/Site

Produtos sustentáveis carregam um valor agregado que diz respeito à sua produção consciente. Camila conta que em marcas de fast fashion, ou mesmo em lojas caras, o respeito não é o mesmo. “Você vai em uma loja e vê um vestido de seda por R$ 800, mas que está dentro do estoque todo esmagado em um micro casulo. E a pessoa que costurou aquilo não recebeu nem R$ 10”, argumenta.

Além disso, há lojas de fast fashion que vendem peças por mais de R$ 100, confeccionadas por trabalho escravo e feitas com tecidos sintéticos. “A pessoa entra em um desses lugares, compra várias e acha que está fazendo um bom negócio”, diz.

Conscientizar o consumidor sobre a origem das peças de moda sustentável pode ser importante para aumentar a demanda e, quem sabe, diminuir os custos de produção.  É nisso que acredita Camila. Para ela, os preços ainda podem ser mais altos por que a procura é baixa e o comprador não entende todos os impactos envolvidos.

Para Babi, detalhar para o consumidor quais são os custos envolvidos na produção dos sapatos veganos é uma forma de fazê-los entender por que podem custar mais caro. Ela conta que a Insecta Shoes tem planos de trabalhar com essa transparência em breve. A sócia afirma que algumas pessoas ainda têm preconceito com moda sustentável. “Às vezes a gente escuta pessoas perguntando por que tudo o que é feito de lixo é tão caro. Falta a missão de conscientizar e educar, pois muita gente ainda está ignorante sobre o assunto”, opina.

sapatos no chão com abelhas e flores bordadas

Sapato Insecta Shoes feito de fibra de banana. Foto: Reprodução/Site

O blog da Insecta Shoes bota em prática a missão de conscientizar, discutindo assuntos como reciclagem, preservação ambiental e veganismo.

Petula Silveira, da PP Acessórios, acredita que conscientizar o consumidor é essencial, mas não é a favor de divulgar custos como preços de embalagens, confecção e assim por diante. “Acho que temos que explicar que é uma peça feita com cuidado, artesanal, e que ela envolve questões éticas. A costureira, por exemplo, está ganhando o quanto merece e tem a carga horária certa”, explica. “A coerência e a verdade da marca têm sim que estar em evidência”, conclui.

Camila também acha que é preciso conscientizar o consumidor, mas sem precificar. “Provavelmente, uma pessoa de fora não entende que o lucro não vai todo para o nosso bolso. Ele vai para investir na empresa, em maquinário, novos funcionários”, argumenta. Para ela, o certo é formar valores nos quais a empresa acredita e tomar atitudes para que mais pessoas os adotem e os coloquem em prática.

Os resíduos produzidos pela Ada são doados para a marca gaúcha de acessórios Côté e para a ONG “Patas Dadas”, que cuida de animais abandonados. “Muitas pessoas não sabem que tecidos não podem ser descartados em aterros. No futuro, queremos fazer pontos de coleta para quem não sabe disso ou não tem tempo”, conta. “Mas no Rio Grande do Sul, há várias marcas que acreditam nisso, além de grupos que se reúnem para debater moda sustentável e conscientizar pessoas. De passinho em passinho a gente muda o mundo”,  finaliza.

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