2017 é o ano do turismo sustentável: saiba como praticá-lo
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2017 é o ano do turismo sustentável: saiba como praticá-lo

Camila Luz em 22 de fevereiro de 2017

A ONU (Organização das Nações Unidas) declarou 2017 como o ano do turismo sustentável. Em tempos de mais consciência sobre o impacto da vida que levamos, viajar com responsabilidade vai além de visitar áreas preservadas. Deve-se avaliar o local da hospedagem, analisar o impacto do empreendimento na vida dos habitantes locais e até mesmo rever suas atitudes pessoais, enquanto turista.

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Durante a viagem, até os turistas mais conscientes deixam atitudes responsáveis em casa. No dia a dia, muitos reciclam lixo, consomem alimentos orgânicos, compram artigos de produtores locais, economizam energia e andam de bicicleta ou a pé. Mas quando tiram uma semana para descansar, se hospedam em empreendimentos que não compactuam com esses valores.

Grandes resorts, por exemplo, podem desperdiçar água e energia, comprar alimentos contaminados por agrotóxicos e causar grandes impactos ambientais negativos na área onde foram construídos. Além disso, trazem mão-de-obra de grandes centros urbanos, usando a local apenas para funções menos qualificadas.

Aí você argumenta: “Mas vou passar apenas uma semana no resort. São só sete dias abrindo mão das minhas convicções”. Para a cidade onde fica o hotel, são 365 dias por ano de impactos ambientais, sociais e econômicos negativos. Se o turismo fosse conduzido de forma sustentável, os impactos seriam minimizados e a população local beneficiada. Mas afinal, o que é turismo sustentável? Como praticá-lo da forma correta?

O que é turismo sustentável

Maurício Weichert, coordenador de pós-graduação em gestão sustentável do turismo da universidade Estácio, diz que o conceito é amplo. Primeiro, é preciso se basear nos três pilares da sustentabilidade: economia, sociedade e ambiente. Portanto, praticá-lo não significa apenas visitar áreas preservadas ou se hospedar em um hotel que recicle lixo.

“Turismo, assim como outras atividades, gera impacto. [O turismo sustentável] deve gerar impactos positivos e o mínimo possível de impactos negativos”, afirma. “É preciso respeitar a cultura local, incluir a comunidade na atividade e qualificá-la, explicando a importância do turismo. Também é preciso respeitar o meio ambiente, não poluir e gerar o mínimo de impacto negativo possível”, completa.

Leide Takahashi, gerente de projetos ambientais da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, concorda. “Se você vai visitar um lugar, tem que cuidar do impacto que vai gerar. Não é só separar o lixo. É analisar se o seu comportamento não interfere na cultura local e se é adequado”, afirma.

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Leide explica que o turismo sustentável ocorre em cadeia e atende tanto as necessidades dos turistas, quanto as das comunidades que o estão recebendo. Ele também protege a economia local, o meio ambiente e cria oportunidades para o futuro.

Portanto, o turismo sustentável é responsabilidade de todos: governo, empresários e turistas. O aparato administrativo deve enxergar a atividade como uma oportunidade de melhorar a região, criando hospitais eficientes, estradas bem cuidadas e mão-de-obra qualificada para atender a demanda que ali se instala.

Os empresários devem cuidar de seus empreendimentos para que gerem o menor impacto ambiental possível. Além disso, têm a responsabilidade de gerar retorno econômico e social positivo para a cidade e sua população. Já os turistas têm duas responsabilidades: escolher hospedagens e passeios responsáveis, além de cuidar de suas atividades durante o período de descanso.

Como praticar turismo sustentável

Se você deseja praticar turismo sustentável, é preciso tomar alguns cuidados na hora de planejar sua viagem. No momento de escolher a hospedagem, entre no site do hotel, pesquise e procure entender como ele minimiza seus impactos. A madeira é certificada? A mão-de-obra é local? Quem são os fornecedores? Como a água é captada e descartada?

O segundo passo é minimizar os seus próprios impactos negativos durante a viagem. Se você vai de avião, por exemplo, vai poluir o ambiente. Afinal, esse meio de transporte não é sustentável em larga escala. Durante o passeio, tente “compensar” andando a pé ou de bicicleta.

Ao procurar um local para comer, opte por restaurantes que trabalhem com orgânicos. Compre de produtores locais, não desperdice e tenha respeito pelo local. Não jogue lixo na rua, não deprede o patrimônio público e não tome atitudes que você não gostaria que fossem tomadas na sua cidade.

Diferenças entre ecoturismo e turismo sustentável

O ecoturismo é um dos braços do turismo sustentável. Feito na natureza, busca presevar o patrimônio natural e cultural enquanto forma uma consciência ambiental e traz retornos positivos.

Visitar reservas ambientais, por exemplo, é forma de praticar ecoturismo. Maurício explica que, nesses locais, há a análise de capacidade de carga. “Isso é importante para saber quantas pessoas aquele atrativo natural consegue receber sem degradá-lo”, explica.

Exemplo simples é uma trilha em uma floresta. Conforme mais pessoas andam, o solo vai ficando compacto e impermeável. O brasileiro tem o hábito de conversar, então vai querer andar ao lado do companheiro. Aí a trilha vai aumentando de tamanho. O barulho das pessoas afugenta os animais. Há uma série de impactos que podem ser calculados e medidos.

Além da análise de capacidade de carga, é preciso prestar atenção aos empreendimentos que rodeiam as áreas ambientais. “Não vale o rótulo de ecoturismo em uma região preservada se todos os empreendimentos forem de São Paulo e do Rio de Janeiro com mão-de-obra de lá ou de grandes capitais. Enquanto isso, a população local faz apenas serviços de arrumadeira, passadeira e assim por diante”, argumenta Leide. “É compromisso do empreendedor investir em mão-de-obra, redes hospitalares e redes de escolas para que a comunidade cresça junto sem degradar o meio”.

O turismo sustentável funciona da mesma forma, mas não se restringe a áreas ambientais. Visitar museus em São Paulo ou catedrais góticas na Europa, por exemplo, também entra nessa categoria.

O exemplo de Bonito

Bonito, no Mato Grosso do Sul, recebeu o prêmio de melhor destino de turismo sustentável do mundo em 2013. A premiação ocorreu em Londres (Inglaterra), durante a World Travel Market (WTM), considerada uma das maiores feiras da indústria de turismo da Europa.

Bonito, Mato Grosso do Sul. Foto: Istock/Getty Images

A cidade foi premiada pelo desenvolvimento de um sistema de controle do número de turistas que visitam as belezas naturais da região. O controle é feito por meio de um voucher digital que registra o nome da pessoas e as atrações que ela pretende visitar.

Maurício afirma: “Bonito é referência. Foi feito o levantamento de capacidade de carga em cada atrativo natural. O número de vagas é cadastrado em um sistema único, onde todos os passeios e atividades são gerenciados pela prefeitura e pelo conselho municipal de turismo. É um sonho de consumo para ser aplicado no restante do Brasil.”.

A cidade sul-mato-grossense não é o único lugar onde é possível praticar turismo sustentável no Brasil. Leide afirma que há locais certificados e destinos que chamam atenção, como Fernando de Noronha (Pernambuco), Abrolhos (Bahia) e a reserva de Mamirauá, na Amazônia. A especialista indica o site Wikiparques para tirar dúvidas.

Turismo sustentável, educação e geração de empregos

Ao declarar 2017 como o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento, o objetivo da ONU foi promover o turismo internacional, além de valorizar as culturas e patrimônios de povos do mundo todo. A organização entende que esse setor tem potencial para contribuir com o desenvolvimento mundial dos três pilares da sustentabilidade — economia, ambiente e sociedade.

O turismo sustentável tem o potencial de educar seus visitantes. Quando você aprende sobre outros povos e culturas na escola, ou quando tem uma aula de biologia sobre os biomas brasileiros, aquela informação está no plano das ideias. Quando você visita o local e tem contato direto, a importância de preservar e respeitar fica clara.

Além de gerar educação e consciência, o turismo sustentável tem um grande potencial de gerar emprego e movimentar a economia. “Com o turismo, você gera educação ambiental e isso se multiplica. Foi muito feliz a ONU tornar 2017 o ano do turismo sustentável, pois incentiva os dois lados: tanto os empreendedores, quanto os consumidores”, afirma Maurício.

Foto: Istock/Getty Images

Muitos pontos turísticos, principalmente no Brasil, ainda têm estradas maltratadas e baixa infraestrutura. Por consequência, unidades de conservação, parques e reservas são prejudicados, pois a visitação no local fica mais cara. Para chegar até lá, é preciso alugar um carro. É necessário trazer mão-de-obra de fora e criar condições para que os hóspedes possam usufruir da região.

“Tudo fica mais caro. A dificuldade de trabalhar com o turismo sustentável é essa. Há pouco investimento no setor para promovê-lo de verdade”, afirma Leide. “Tem muita gente que quer empreender e trabalhar com a comunidade, mas ela não é capacitada. Por exemplo, precisa trazer de outra cidade um Chef legal, que trabalhe com comida orgânica. Precisa de um carro 4×4 para chegar lá, pois não tem barco. Esse tipo de facilidade não tem apoio governamental e o empreendimento acaba falindo por conta [da falta] desse planejamento básico”, explica.

Nos locais onde há investimento, há a geração de empregos e melhoria do poder aquisitivo e qualidade de vida da população. Leide conte que, no final de 2016, o Serviço Nacional de Parques lançou um dado impressionante: mais de 300 mil vagas de trabalho foram geradas só em atividades relacionadas aos parques. Já pensou em quantos empregos surgiriam se houvesse ainda mais interesse no turismo sustentável?

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