Retalhar dá novos destinos para restos de tecido que seriam descartados
restos de tecido
Foto: Istock/Getty Images
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Retalhar dá novos destinos para restos de tecido que seriam descartados

Camila Luz em 9 de agosto de 2016

Todos os anos, toneladas de restos de tecido são descartados em aterros ou incinerados, poluindo o meio e gerando gases como o gás carbônico (CO2). Para reduzir esse volume, a Retalhar dá novas utilidades a uniformes de empresas. Eles são transformados em objetos úteis, como brindes para funcionários e cobertores.

A Retalhar é um negócio socioambiental com foco na sustentabilidade e na economia solidária. Trabalha com geração de renda empregando grupos de várias regiões da Grande São Paulo, como Guarulhos, Campo Limpo e Brasilândia. Explica o sócio Leonardo Carvalho:

A gente fala que a Retalhar funciona como um pivô. Ela liga os pontos: liga o cliente que quer fazer o descarte consciente com grupos que precisam gerar renda.

Em 2010, a lei dos resíduos sólidos definiu que um tecido só é passível de descarte se não puder ser reinserido na cadeia produtiva. Se não estiver contaminado e não gerar risco algum para a sociedade, deve ser reaproveitado. No entanto, Leonardo explica que a fiscalização praticamente não existe e, por isso, muitas empresas descartam esses panos como bem entendem.

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Muitas soluções para restos de tecido

A Retalhar existe parar gerar soluções para essas companhias. Seu papel é receber o resíduo tecidual, separar, higienizar e encaminhar para um grupo produtivo que faz a descaracterização. Retira logos, botões, zíperes e qualquer outro aparato que não seja tecido. Ele pode ser transformado em brindes, que serão distribuídos pela empresa para seus funcionários, ou encaminhado para o processo de desfibragem.

Nesse último caso, o tecido desmembrado pode ser utilizado pela indústria moveleira, automobilística ou pode ser transformado em isolamento acústico para empresas de som e áudio, por exemplo. “Encaminhamos esse tecido para o setor têxtil, ou o reutilizamos para fazer novos produtos, como cobertores populares. As empresas acabam linkando várias coisas, como descarte correto, produção de brindes e campanha do agasalho”, conta.

Pela questão financeira, muitas empresas preferem pagar apenas pelo trabalho de desfibramento feito pela Retalhar. Ela encaminha os resíduos para a indústria, para que sejam reaproveitados. O sócio conta que eles já deram destino correto para cerca de 70 toneladas de restos de tecido. Além disso, de acordo com dados do site oficial, o volume de aterro poupado pelo negócio é 91,6m³. Cento e oitenta toneladas de CO2 também deixaram de ser gerados.

infográfico com dados refentes ao retalhar

Foto: Reprodução/Site

Reaproveitar X incinerar

Leonardo explica que a questão financeira dificulta um pouco a prospecção de clientes, já que os custos de descarte e incineração são bem mais baratos. “Tem roupa que é simples, como uma camiseta, mas algumas peças têm montes de aviamentos, o que afeta nosso tempo de trabalho, pois é todo manual”, explica. “Nosso trabalho é diferente de setores que fazem coisas semelhantes. Tem empresas que dizem fazer o descarte ambiental, mas mandam o tecido para incineração”, afirma.

arara com diversas roupas

Tecidos desfibrados também são provenientes de sobras de roupas. Foto: Istock/Getty Images

Além do impacto ambiental negativo, mandar restos de tecido para aterros ou para a incineração é um desperdício. Leonardo conta que o Brasil chega a importar tecidos desfibrados. Enquanto isso, a região do Brás sozinha produz quase 800kg de resíduos por dia. “Para onde está indo esse material? As próprias indústrias podiam desenvolver mecanismos que resolvessem esse problema. Sei que estamos remando contra a maré”, afirma Leonardo.

Para ele, há cada vez mais empresas antenadas na questão da sustentabilidade. Muitas acreditam que essa pode até ser uma forma de melhorar sua imagem no mercado. No entanto, o brasileiro ainda não desenvolveu consciência ambiental suficiente para entender o que significa jogar fora montes de resíduos que poderiam gerar valor de outras formas, sem prejudicar o planeta onde vivem.

A questão da segurança

Leonardo acrescenta que a Retalhar tem uma preocupação com a segurança. Quando a empresa entrega seus uniformes, quer ter certeza de que o novo produto fabricado a partir deles será totalmente descaracterizado e não terá seu logo.

Muitas vezes, uniformes descartados acabam caindo nas mãos de pessoas que se aproveitam dessa situação. Falsos funcionários de empresas de telefonia, por exemplo, podem visitar a casa de alguém para assaltá-la. Por isso, a Retalhar se certifica de que todos os logos foram retirados.

Para o futuro, Leonardo brinca e diz que pretendem montar um ONG para fiscalizar empresas, verificando se estão dando a destinação adequada aos seus resíduos. Ele acredita que a consciência ambiental está sendo construída no Brasil aos poucos. Hoje, já existem aplicativos para monitorar a origem das roupas que compramos, mostrando as condições em que foram produzidas, por exemplo. Um deles foi desenvolvido pelo projeto Roupa Livre, sobre o qual já falamos aqui.

A Retalhar foi criada em meados de 2013 pelo biólogo Lucas Corvacho, que coordenava processos produtivos na confecção de seu pai. Quando percebeu que transformar restos de tecido em outros produtos poderia ser  interessante para empresas, decidiu abrir seu próprio negócio social. Ele convidou Jonas Lessa e Leonardo Carvalho para participarem da luta. Hoje, Juliana Vilas Boas e Raffaela Loffredo também fazem parte do time.

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