Tribo Viva: orgânicos e consumo colaborativo podem mudar a cara do país
organicos
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Tribo Viva: orgânicos e consumo colaborativo para mudar a cara do País

Camila Luz em 15 de setembro de 2016

Para o Chef Pietro Rocha e o publicitário Marcos Delgado, orgânicos e economia colaborativa têm tudo a ver. Para abastecer as casas dos moradores de Porto Alegre (RS) com alimentos saudáveis, criaram a Tribo Viva, um novo sistema de consumo formado por cidadãos e produtores locais.

A Tribo Viva nasceu em 2013, quando os dois sócios criaram um guia online sobre orgânicos e consumo sustentável. “Começamos a estudar economia colaborativa e vimos que as duas coisas se completariam muito bem, pois os orgânicos iriam diretamente para a mão do cidadão”, conta Pietro.

Bolaram, então, o modelo de negócios baseado no consumo colaborativo. “Pensamos em trabalhar com a inclusão social, a geração de renda e em não deixar que o controle fique todo nas mãos de grandes grupos de orgânicos”, completa.

Logística colaborativa

A Tribo Viva mapeia e contata produtores de orgânicos certificados que vivam no Rio Grande do Sul. De acordo com os alimentos que estão disponíveis naquela época do ano, a empresa publica ofertas no site para que consumidores adquiram as cestas de orgânicos.

A logística da distribuição é feita de maneira colaborativa. Consumidores interessados em coordenar o processo se cadastram para receber os alimentos do produtor em casa ou no trabalho. Dividem os orgânicos em cestas, conforme as quantidades informadas pelo site. Combinam dia, horário e local para que outros consumidores façam a retirada das cestas que compraram.

Em troca desse serviço voluntário, os coordenadores recebem a cesta de orgânicos da semana. “É um sentimento de rede. As pessoas vão até a casa do coordenador, se conhecem e até viram amigas”, diz Pietro.

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Vantagens em relação a feiras e supermercados

A Tribo Viva não é varejo e nem ecommerce. É uma rede colaborativa. Pietro explica que quando os alimentos saem das mãos do produtor, já têm destino certo. Por isso, são uma opção vantajosa em relação a feiras e supermercados.

Produtores que trabalham em feiras acabam perdendo alimentos que não foram vendidos até o final do dia. Já em supermercados, o desperdício é ainda maior: como essas grandes redes cobram mais caro, têm dificuldade em vender todos os orgânicos e acabam jogando muita coisa fora.

“[No supermercado] o produtor manda o alimento orgânico e ele fica estacionado na prateleira. Gasta-se com transporte, com mais embalagem, e o alimento fica lá parado esperando por alguém que tenha coragem de pagar a fortuna que estão pedindo”, diz Pietro.

Na Tribo, quando o alimento é colhido e transportado, ele já foi vendido antes. Nossa cadeia de produção tem desperdício zero, é mais prática e conveniente.

Pietro acredita que supermercados tornam os produtos orgânicos algo de elite e os vendem como se fossem raros. “Com relação ao supermercado, definitivamente é mais barato. Às vezes chegamos a oferecer os mesmos produtos pela metade do preço. Para os mercados,  o orgânico é uma perfumaria”, afirma.

As cestas de orgânicos vendidas pela Tribo Viva custam entre R$ 30 e R$ 50. Esse preço já inclui 20% de taxa para a rede e 10% para viabilizar a entrega. As cestas incluem entre 8 e 12 alimentos, que podem ser frutas, verduras, legumes, ervas, ovos e eventualmente grãos como arroz e feijão. Segundo Pietro, já chegaram a disponibilizar até sucos e vinhos.

Por enquanto, o consumidor não pode escolher os alimentos que prefere, pois isso ainda depende da oferta disponível de acordo com as estações do ano. Depende, também, da logística do sistema, que está sendo aperfeiçoada. No futuro, os dois sócios pretendem disponibilizar a opção de escolher os produtos, além de expandir os negócios para o resto do Brasil.

Comprar orgânicos de pequenos produtores pode mudar a realidade do nosso país

A Tribo Viva já recebeu solicitações de vários estados brasileiros, como Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais. Pietro acredita que há espaço para ela em todos o país. O chef, que é carioca, já trabalhou no Rio de Janeiro, em locais como o Copacabana Palace, em São Paulo, na Alemanha e na Inglaterra. Em Londres, chegou a abrir seu próprio bar. Mudou-se para Porto Alegre quando se casou com uma gaúcha  e foi ali onde decidiu dar uma guinada na carreira e investir no universo da agricultura familiar e agroecológica por motivos ideológicos.

homem segurando cesta de alimentos organicos

Foto: Istock/Getty Images

“Eu já havia tido contato com a agricultura local e sustentável na Europa”, conta. “Na França, por exemplo, há várias regiões e microclimas que produzem vegetais, alimentos, vinhos, conhaques, queijos. Isso é valorizado e faz parte da cultura, do turismo e permite que pessoas ganhem dinheiro vivendo no campo. No sul do Brasil, isso começou a acontecer no século 19, com a imigração italiana e alemã”, explica.

No entanto, de forma geral, o Brasil ainda está preso em um esquema de produção que vem da época colonial. “Produzimos para a exportação, destruímos o meio ambiente e obrigamos o homem do campo a ir para a cidade, o que acaba gerando pobreza e violência”, expõe.

Para Pietro, a melhor maneira de mudar esse quadro é investir em uma mudança de comportamento de consumo. É preciso valorizar a produção local e orgânica, ao invés de dar dinheiro para grandes redes alimentícias que fornecem produtos de má qualidade.

homem no meio de horta organica

Foto: Istock/Getty Images

O chef acredita que, no futuro, a produção de orgânicos será suficiente para abastecer todas as casas. “A produtividade do orgânico é muito boa. E quando você consome de alguém que está perto, acaba reduzindo em muito o desperdício. A cadeia convencional tem pelo menos 30% de desperdício até chegar no consumidor final. Dentro de casa, mais alimentos vão para o lixo”, explica.

Pietro acredita que a responsabilidade está com os consumidores, que devem mudar sua conduta e perceber a importância de comprar orgânicos direto do produtor. Também está com o governo. “O que falta para a produção de orgânicos são políticas públicas que forneçam crédito, assistência técnica, tecnologia, e também melhores canais de distribuição e informação”, defende.

Ele reforça que, para melhorarmos a realidade da nossa sociedade, devemos dar muita atenção ao que estamos comprando. “O futuro é dos pequenos, é de quem está próximo da gente, de quem podemos apertar a mão, entende?”, conclui.

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