“Tenho orgulho de estar vivo”, diz primeiro brasileiro a escalar o Everest
Waldemar Niclevicz
Foto: Reprodução/Site
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“Tenho orgulho de estar vivo”, diz primeiro brasileiro a escalar o Everest

Pedro Katchborian em 4 de maio de 2017

Há mais de 20 anos, mais especificamente no dia 14 de maio de 1995, a bandeira do Brasil tremulou mais alto do que nunca: a 8.848 metros de altura. Foi Waldemar Niclevicz quem colocou os pés no topo do Everest e escreveu a sua história e do País na montanha mais famosa do mundo. O alpinista foi o primeiro brasileiro a alcançar o feito, aos 29 anos. “Eu transbordei de alegria”, diz.

Makalu

Makalu Foto: Reprodução/Site

Hoje aos 51 anos, Waldemar é um dos principais nomes do alpinismo nacional e o Everest é apenas uma de suas tantas conquistas. Já escalou mais de 200 montanhas, sendo que pelo menos 120 delas estão entre as principais cordilheiras do mundo. Na lista estão o K2, segunda maior montanha do planeta e considerada a mais difícil, o Aconcágua, na Argentina e a Makalu, na China.

A história do alpinista com a natureza vem de berço. Nascido em um sítio em Foz de Iguaçu (PR), ele “aprendeu a viver com a natureza”. Aos 12 anos, mudou-se para Curitiba e encontrou uma paixão enquanto caminhava nas montanhas da serra do Paraná. “Elas tem um chamado muito forte. Foi algo natural. Fui em busca de um reencontro com a natureza e aí vi que existia o esporte e que existia conhecimento, preparação, técnica…Tudo isso me despertou o interesse”, conta Waldemar.

Colocando o Brasil no topo do Everest

Aos 21 anos, o alpinista viveu sua primeira aventura em uma montanha gigante: o Aconcágua. Waldemar diz que se tornou profissional após essa experiência. Em 1991, resolveu se tornar o primeiro brasileiro a tentar escalar o Everest, pelo Nepal. Não conseguiu chegar ao cume, mas subiu a 8.500 metros. Mesmo não atingindo o objetivo, considerou a jornada extremamente importante.

Ele conta que nos anos de 80 e 90 não havia tanta informação sobre a escalada do Everest: a maior parte Waldemar encontrava em livros. “Você não podia achar informações no Google. Hoje você acha informações confiáveis e atualizadas. Há 30 ou 40 anos era completamente impensável ir para o Nepal”, afirma.

Após a tentativa fracassada em 1991, ele esperou mais quatro anos para tentar novamente, em 1995 — muito por motivos financeiros. Na época, Waldemar teria investido cerca de R$ 17 mil para realizar a expedição. Para conseguir o dinheiro necessário para a segunda tentativa, o alpinista colocou em palavras o seu sonho com a publicação do livro “Tudo pelo Everest”.

Waldemar Niclevicz no cume do Everest em 1995. Foto: Mozart Catão

Foi então que conseguiu patrocínio para sua segunda tentativa, agora pelo Tibete. Desta vez, Waldemar preferiu escalar a montanha na primavera (entre abril e maio), quando as condições climáticas costumam ser melhores. Em 1991, ele havia tentado no outono.

Depois de cerca de 60 dias de escalada, às 11 horas e 22 minutos do dia 14 de maio de 1995, o alpinista fez o que nenhum brasileiro já havia feito: chegou ao cume do Everest. Nos últimos dois metros, esperou o seu companheiro de jornada, Mozart Catão, para que chegassem juntos ao tão especial pico. Ele conta mais sobre a experiência no livro “O Brasil no Topo do Mundo”.

O alpinista explica que foi necessária uma preparação mental e física para atingir o feito. “A pessoa está se expondo ao risco e precisa ter uma performance mínima. O equilíbrio emocional vai depender muito da fé de cada um, mas ele é adquirido aos poucos”, afirma. Ele conta que até pessoas com medo de altura conseguem alcançar o cume, basta investir em um treinamento para tal.

Atualmente, mais de 6 mil pessoas já conquistaram o Everest. “Naquela época, somente 342 pessoas tinham chegado ao topo da montanha”, conta. Além de Waldemar, outros 12 brasileiros também já escalaram o Everest até 2017. A temporada deste ano, segundo o alpinista, “está muito boa” e em curso. A expectativa é que mais dois ou três brasileiros alcancem o feito.

Os perigos da escalada

Pelo menos 288 pessoas morreram escalando o Everest. Entre eles, Vitor Negrete, um dos 13 brasileiros que chegaram ao topo. Mozart Catão, que foi companheiro de Waldemar em 1995, foi outro que faleceu, mas durante a tentativa de escalar o Aconcágua, em 1998. O esporte é perigoso, e o alpinista explica que é difícil encontrar a linha entre o desafio e o arriscado:

Você deve tentar até quando o risco estiver sob o seu controle. Mas é difícil julgar.

Uma perda recente no mundo do alpinismo foi Ueli Steck, apelidado de Swiss Machine (Máquina Suíça). Aos 41 anos e detentor de recordes de escalada rápida e dinâmica, Steck escorregou em uma escalada no Everest. Waldemar fala da importância de admitir que as condições não são favoráveis: “Se a montanha não deixa você chegar lá em cima, você não vai chegar de jeito nenhum. Com 51 anos, me orgulho muito de estar vivo e não ter nenhuma sequela”.

Parte do seu sucesso é creditado a maneira que o alpinista encara o medo. “O medo para mim é extremamente racional. Eu tenho muito conhecimento do ambiente que me envolve”, diz. “Quando se fala em esporte radical, muita gente pensa em adrenalina, o cara descontrolado e com muita coragem e pouca consciência do que faz”, completa. Para ele, é justamente o contrário: “eu tenho absoluta consciência do que estou fazendo. Conheço os meus limites”, afirma.

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Entre tantas conquistas, Waldemar não consegue escolher uma escalada favorita. “É impossível por que estou escalando há 30 anos”, diz. Ele cita montanhas como o Aconcágua e a Trango Tower como algumas das mais marcantes, mas afirma que o maior troféu é a K2 — a mais difícil.

Waldemar já escalou sete das 14 montanhas ao redor do mundo com mais de 8 mil metros. Um de seus grandes objetivos de vida é completar todas. No entanto, ele conta que o momento é difícil. “A crise pegou todo mundo”, explica. Sem patrocínio há cinco anos, o alpinista usa a renda de palestras motivacionais para conseguir fazer suas escaladas, mas o movimento não tem sido intenso. Até por isso, não confirma nenhuma expedição, mas diz que pretende ir em breve para Chile ou Patagônia e que deve voltar ao Himalaia no ano que vem.

Com tanta experiência, ele diz que os tempos mudaram. Se antes os alpinistas encontravam muita dificuldade para conseguir planejar a viagem ao Everest, agora há diversas agências que promovem expedições que chegam a custar US$ 100 mil para amadores e profissionais. O alpinista vê com bons olhos essa facilidade, mas alerta para a busca de um propósito da escalada.

“As pessoas desperdiçam a oportunidade de ter uma experiência mais profunda. Elas não valorizam a oportunidade“, completa. Segundo ele, antigamente falava-se sobre como a viagem causava uma mudança nas pessoas: “Hoje as pessoas continuam perdidas”.

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