Cerimônia do chá: o que é a prática nos dias de hoje
Sado (Traditional Japanese Tea Ceremony)
Foto: iStock/GettyImages
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Cerimônia do chá: o que é a prática hoje

Kaluan Bernardo em 4 de dezembro de 2016

O chá pode ser muito mais do que uma mera bebida. E não estamos falando apenas das propriedades medicinais dos mais diversos chás e infusões que existem, mas sim do ritual de preparar e ingerir — a cerimônia do chá.

Há a cerimônia chinesa e a japonesa, mas, nesse texto, vamos nos ater apenas à japonesa, um pouco mais difundida no Brasil. Conhecida também como chanoyu, chadō ou sadō, a cerimônia tradicional consiste em uma série de práticas para preparar, ingerir ou partilhar o chá e é baseada em quatro princípios: harmonia, pureza, respeito e tranquilidade.

Erika Kobayashi, artista, pesquisadora do chá e colaboradora da Escola de Chá Embahú, acredita que a cerimônia do chá é principalmente sobre estar presente no momento, colocando atenção plena no que se faz. Ela pratica a cerimônia todas as semanas. “Para mim é um momento tanto de aprendizado artístico, técnico e teórico quanto de prática e aprimoramento do espírito”, comenta. Ela também faz performances artísticas para museus, na rua e apresenta seu trabalho como instalação. Conversamos com ela para saber um pouco mais sobre essa prática que existe há séculos e tanto tem a ensinar à nossa sociedade.

Uma rápida explicação sobre o caminho do chá

Há muitas histórias sobre a origem do chá, mas uma das mais conhecidas e aceitas remonta ao imperador chinês Shennong, que viveu entre 2737 e 2697 a.C. Shennong, que significa “Fazendeiro Divino”, era muito ligado ao mundo das plantas e conhecido pesquisador de suas propriedades medicinais. Diz-se que um dia ele estava fervendo água, dormiu e caíram folhas na bebida. Ele percebeu a mudança, experimentou e assim descobriu os benefícios da combinação.

Muito tempo se passou até que o chá aparecesse no Japão — o que, segundo a Embaixada do Japão no Brasil, aconteceu durante o século 8. No entanto, foi só no século 12 que o monge Eisai, ao retornar da China, trouxe o matchá (o chá verde em pó ou moído) — que passou a ser usado por diversos monges. Um dos motivos para os monges usarem o matchá, explica Erika, é a cafeína, que os ajudava a lidar com horas de meditação sem adormecer.

Com o passar dos anos o chá se espalhou, chegou à Europa, à Índia, às Américas, foi pretexto para conflitos e colonizações. Uma longa história. No Brasil, chegou pelos portugueses, e mais tarde passou a ser cultivado por imigrantes japoneses.

Hoje, segundo o blog “Chá, Arte e Vida!“, de Yuri Hayashi, também professora da Escola de Chá Embahú, esses são os países que têm cultivo de chá:

Chá no mundo

Chá no mundo

A cerimônia do chá como ferramenta para ouvir a si mesmo, o outro e o mundo

Quando Erika faz a cerimônia do chá como performance artística, ela se dá certa liberdade poética. Pode ou não trabalhar com uma dança. Pode ou não fazer em um lugar fechado, e quando é em um espaço aberto, pode até simular a porta com suas mãos. Pode ou não usar instrumentos tradicionais japoneses. Por vezes, usa até mesmo cumbucas de feijoada. “É um exercício artístico”, comenta.

Erika Kobayashi

Erika Kobayashi

Mas não é só na performance que ela vê tal liberdade. É no dia a dia também. “Eu tento levar valores da cerimônia para o o cotidiano“, comenta. “Você pode fazer um simples chá em casa, mas preparando com um cuidado que, de certa forma, vai obedecer não só especificidades técnicas, mas principalmente as boas intenções”, diz.

O importante é se colocar num exercício de presença, de escutar o tempo, tomar cuidado, estar presente em tudo o que se faz. Erika diz que isso é mais importante do que aspectos técnicos. “Claro que é super livre e flexível para que cada pessoa, na hora de preparar o chá, use sua intuição ou experiência. Até experimente fazer coisas novas”, comenta.

Quando você faz o chá para alguém, por exemplo, o chá “certo” é aquele que te conecta de alguma forma com a pessoa. O mesmo vale para o recipiente onde a bebida é ingerida.

O mesmo vale para a escolha do chá. Erika recomenda que você escolha um que remeta a outro que já tomou com a pessoa, ou que possa ser uma experiência nova e agradável a ela. ” O importante é escolher cada elemento relacionado à sua história com aquele indivíduo”, diz. “É como preparar um jantar”, resume.

Mas e para tomar sozinho? Valem os mesmos princípios. “Aí você vai ter esse cuidado consigo”, diz. “Não existe muito certo e errado. Existem pontos de vista. O meu é esse: de que chá é aquilo que pode proporcionar uma experiência”, diz, lembrando que o ideal é apenas que “envolva respeito, porque o chá é algo que pode te proporcionar cuidado consigo e com o mundo”.

Ainda sobre a liberdade, vale ressaltar que, tecnicamente, chá é apenas o que vem da Camellia sinensis — que pode se tornar o chá verde, branco, preto, vermelho ou oolong. Todos os outros são infusões. Mas, para Erika, todos são válidos desde que possam te proporcionar a mesma experiência de contemplação. A regra também vale para o açúcar: “Quando me perguntam sobre o assunto, digo que não é legal porque o açúcar vai se sobrepor ao gosto do chá. Mas se for o mais gostoso pra você, beba assim. O melhor chá é o que proporcionar mais prazer”, comenta.

É claro que vale prestar atenção nas propriedades físicas de cada chá, que te trará diversos benefícios. Nos que se originam da Camellia sinensis há duas propriedades a se destacar: a cafeína e a l-teanina. A primeira, em diferentes dosagens com diferentes compostos, irá te deixar desperto de várias maneiras — muitas vezes mais sutis do que no caso do café. Já a l-teanina é conhecida por ajudar no foco e concentração — dois elementos importantes para quem procura um estado contemplativo.

No fim do dia, Erika diz que trazer elementos da cerimônia do chá para o dia a dia tem benefícios pontuais e essenciais. “Vai te ajudar a instaurar uma pausa no dia para viver uma experiência. Para isso, a preparação do chá é uma importante ferramenta para te colocar em um estado de consciência e atenção naquilo que está fazendo”, comenta. “Com tudo isso, o chá trará mais harmonia para seu dia”.

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