Competir e trabalhar: o esporte como ferramenta de produtividade
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Competir e trabalhar: o esporte como ferramenta de produtividade

Pedro Katchborian em 19 de julho de 2016

Todos os sábados, Ailton Sena passa por um ritual matutino de preparação: um café-da-manhã reforçado e a compra de litros e mais litros de água. O objetivo é se preparar para o campeonato amador de futebol que disputa à tarde. O cenário dos jogos transmite uma tentativa de chegar o mais próximo possível do profissional: árbitros, súmula e até entrevista pós-jogo. A história de Ailton é repetida por milhares de pessoas, em diferentes atividades físicas e é uma das facetas da nova e preocupante maneira de encarar o esporte: como ferramenta de produtividade. “Sempre me sinto nervoso e me canso duas vezes mais quando o jogo é sério”, admite Ailton.

Para Anderson Gurgel, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisador na área de comunicação e esporte, esse é o reflexo da hierarquia dos três tipos de esporte. “Há o educacional, ensinado em escolas, o amador e o profissional. O profissional está no topo da hierarquia e é sempre apresentado como mais importante, embora todos tenham a mesma importância”, explica.

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Aplicativos e a competitividade. Foto: Istock/Getty Images

Um dos reflexos dessa busca pelo alto rendimento são os aplicativos: ao mesmo tempo em que eles podem ajudar o atleta amador, eles podem ajudar nessa pressão pela competitividade. “Esse componente exagerado de competição torna o esporte uma forma de pressão e competição, corrompendo e deturpando a sua natureza”, conclui Anderson.

Outro problema de tentar captar o alto rendimento nas atividades físicas profissionais são as lesões. “Os atletas profissionais lidam com a dor constante. Alguém que corre muito, de maneira intensiva, todos os dias, pode ter problemas no joelho”, exemplifica Anderson. “As pessoas precisam buscar os seus próprios limites”, diz.

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Ailton assume que o nível de competitividade acaba trazendo mais estresse e passa longe da carga de relaxamento que a atividade física pode trazer. “Sempre penso muito no que pode acontecer e no que eu posso fazer dentro de campo. O jogo é mais pesado e o psicológico conta muito”, explica.

Esporte para relaxar a mente e trabalhar mais

Além da competitividade afetar a maneira com que encaramos a atividade física, existe um outro lado: o do esporte como ferramenta para desestressar — para assim poder trabalhar com mais eficiência e produzir mais. “Há um deslocamento do foco. O esporte não profissional era uma fuga, um lazer e uma forma de relaxar o corpo. Era hora de não ser produtivo”, explica Anderson. Para ele, o contexto mudou:

O que acontece hoje é que essa hora de não ser produtivo tornou-se uma ‘prática meio’, visando voltar ao trabalho e não uma ‘prática fim’.

Segundo Anderson, essa busca pela produtividade na rotina acabou tornando o corpo um fardo, que deve ser contornado para que se alcance o sucesso desejado no trabalho. Como várias pesquisas mostram a importância de um corpo saudável para a mente, pessoas praticam o esporte tendo como propósito desestressar, mas apenas para poder trabalhar mais posteriormente. Um exemplo é esta matéria da Zero Hora que mostra casos de estudantes que começaram a praticar atividades físicas para terem mais chances no vestibular.

Ou seja: o momento de esporte é praticamente um intervalo para ter as energias recarregadas para produzir mais. “Não é mais um momento de ócio. As pessoas podem ter problemas de saúde porque o corpo não relaxa”, completa. Para Anderson, é ótimo que existam benefícios mentais para o esporte, mas ele não pode ser encarado como um meio para produzir ou estudar mais.

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