Por que a hipnose pode ser vista como uma forma de meditação
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Por que a hipnose pode ser vista como uma forma de meditação e autoconhecimento

Pedro Katchborian em 13 de janeiro de 2017

“Quando eu deitei na cama naquela noite, eu acabei ouvindo três médicos falando para os meus pais em outro cômodo que o seu filho ia morrer. Minha mãe então entrou com a cara mais serena que poderia existir. Eu pedi para que ela arrumasse o armário, que o colocasse na frente da cama em um ângulo específico. Naquele ângulo, eu conseguia ver, através do espelho do armário, a janela do outro quarto. Eu não queria morrer sem ver mais uma vez o pôr-do-sol“.

A triste história foi contada por Milton Ericksen, explicando como, quando tinha apenas 17 anos, passou por uma experiência auto hipnótica que o ajudou a sobreviver. Ericksen é considerado um dos pais da hipnose. A história é de quando Milton tinha poliomielite e corria o risco de morrer em uma noite. Sabendo disso, pediu para ver o pôr-do-sol mais uma vez. A experiência hipnótica, para ele, foi ver na janela um pôr-do-sol que cobria todo o céu. Um estado alterado da mente bloqueou a árvore que ficava a poucos metros da janela — tudo o que ele conseguia ver era o pôr-do-sol.

Esse acontecimento é bem diferente daquela ideia de um pêndulo que vai de um lado para outro, um sóbrio timbre de voz que guia e um estalar de dedos que hipnotiza. A cultura popular ajudou a criar um estereótipo da hipnose, uma vaga ideia do que é de fato esse processo psicológico descoberto pelo britânico James Braid no século XIX.

Uma rápida desconstrução da palavra hipnose mostra, parcialmente, o que significa o conceito: hipnos é sono, em grego, e osis é ação, em latim. Quando começou os seus experimentos com hipnose, Braid deduzia que esse processo se tratava de um sono induzido — o que, mais tarde, comprovou-se ser errado, já que estudos comprovam que o transe hipnótico não é um estado de sono convencional. Milton Erickson também escreveu sobre a diferença do sono e a da hipnose:

O estado hipnótico é, essencialmente, um fenômeno psicológico que não tem relação com o sono fisiológico e que depende, completamente, da total cooperação entre o hipnotizador e o sujeito.

No decorrer dos anos, o campo da psicologia passou a abordar e utilizar a hipnoterapia — o tratamento clínico com a técnica. Elman, Pavlov, Charcot, Freud e Erickson são algumas das principais mentes que ajudaram a disseminar o conceito hipnótico.

Basicamente, a hipnose consiste em trabalhar uma parte da mente que não é de fácil acesso. Para melhor compreensão do que é esse processo, o Dr. Luiz Carlos Crozera, criador do Instituto Brasileiro de Hipnologia, compara a mente com o intestino. “Há a parte consciente e inconsciente. O inconsciente é o intestino delgado, em que os nutrientes são retirados. Já o intestino grosso tem a excreção”, diz. “No nível consciente você não consegue ter essa excreção, vai acumulando. O lixo mental vai para o inconsciente e dali não sai”, afirma.

Há dois tipos mais conhecidos de hipnose: a clássica e a Eriksoniana. Os dois métodos utilizam um estado de transe para fazer regressões, sugestões e outros mecanismos para acessar um foco de atenção e entender a raiz de um problema. Crozera é adepto de um terceiro método, a hipnose condicionativa, que ele mesmo criou.

Há mais de 30 anos desenvolvendo ferramentas, Crozera destaca que muitas doenças podem vir da memória inconsciente e a hipnose pode ajudar no tratamento. Para ele, a principal ideia deve ser o foco de atenção. “Quando você está muito focado em um assunto, você cria canais de comunicação e vem o desenvolvimento”, diz ele.

A hipnose condicionativa criada por Crozera também trabalha no campo espiritual. “Trabalhamos o pensamento das pessoas”, diz. Atualmente, ela trata mais de 3 mil pessoas por dia.

Os usos da hipnose

Crozera afirma que os usos da hipnoterapia são muitos. Até na ajuda de problemas mais clássicos, como depressão, fobias e ansiedade, até em problemas familiares, problemas de rendimento escolar, na área de esportes, de mentes criminosas e muitos outros.

Mas a hipnose pode ir muito além de problemas psicológicos. Lúcia Desideri Junqueira é quem comanda o HypnoBirthing no Brasil. No HypnoBirthing, gestantes podem trabalhar a mente para terem uma experiência mais agradável no parto, diminuindo a dor e o desconforto, por exemplo.

Criado pela americana Marie Mongan na década de 90, o processo envolve a meditação. “São técnicas simples de expiração de um potencial interno”, comenta Lúcia. Depois de conhecer a técnica e ir até os Estados Unidos para conversar com Mongan, Lúcia foi autorizada a conduzir cursos de HypnoBirthing no Brasil. Ela conta que o grande objetivo é ajudar as pessoas a relaxarem.

“A gente parte do princípio do que ajuda o corpo a funcionar bem”, diz. “Quando estamos muito estressados ou angustiados, o nosso corpo não funciona muito bem. Agora quando estamos de férias e felizes, nós comemos bem, nossa percepção do corpo muda, ficamos com uma respiração tranquila”, completa Lúcia.

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O trabalho de Lúcia é colocar um foco de atenção para que a gestante se sinta mais confiante e relaxada. “Como o corpo está funcionando bem, o trabalho de parto é curto, com menos desconforto ou dor”, diz. “Temos uma gestante mais animada e uma família mais envolvida”, afirma.

Para Lúcia, existe um estereótipo da hipnose que deve ser quebrado: o da passividade. “Ela pode ser vista como uma forma de meditação“, diz. “A hipnose como é conhecida passa uma ideia passiva e estereotipada, mas ela e a meditação são muito parecidas”, afirma. “A gente se hipnotiza facilmente quando estamos assistindo um filme: colocamos foco em algo, foi você que colocou a sua atenção ali. Isso é hipnose”, diz. “O Hypnobirthing não parte do princípio que alguém vai hipnotizar a gestante. Ela se hipnotiza porque coloca todo o foco de atenção dela em algo”, completa.

A relação entre meditação e hipnoterapia não é nova: o próprio pai da hipnose, James Braid, estudou e praticou yoga para completar os seus artigos sobre a hipnoterapia.

As gestantes interessadas fazem um curso que dura 12 horas de Hypnobirthing e podem levar um acompanhante. As próprias mulheres que aprendem as técnicas e as fazem na hora do parto.

A hipnose de palco

Parte da concepção da hipnose como algo passivo pode vir da hipnose de palco. Ela consiste em um hipnólogo que induz alguém como parte de um show, um entretenimento para demonstrar o que a mente é capaz. A hipnose de palco existe há décadas, mas ganhou popularidade recentemente graças ao YouTube.

O canal do YouTube de Pyong Lee, que conta com mais de 3 milhões de inscritos, faz algumas dessas hipnoses em outros youtubers famosos. Pathy dos Reis, Aruan Félix e até Celso Portiolli são alguns dos personagens das sessões de hipnose de Pyong.

Outro canal que ganhou muito destaque recentemente foi o de Rafael Baltresca, chamado O Hipnólogo. Além de vídeos fazendo hipnose em pessoas, Baltresca também faz vídeos para pessoas se auto hipnotizarem.

Crozera detona a hipnose de palco: “Isso deveria ser proibido. A pessoa se expõe ao ridículo”, diz. “Você não consegue trabalhar a mente de uma pessoa tão rápido. No dia seguinte ela pode acordar em depressão”, afirma. Já Lúcia considera que esse tipo de iniciativa é uma boa maneira de mostrar o poder da mente, mas faz ressalvas. “Ele vai mostrar como o poder da mente é grande. Agora num processo terapêutico é um processo muito mais lento“, diz.

Com a busca pelo autoconhecimento e uma mente saudável em alta, Lúcia comemora que esse assunto seja tão discutido. “É uma boa oportunidade para nós. As pessoas estão se abrindo muito e espero que elas abracem esse caminho”, diz. Em relação a hipnose, ela acredita que deve-se fugir do estereótipo e do preconceito. “As pessoas acham que existe uma mágica para não sentir dor do parto. Não funciona assim”, completa.

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