Por que a inteligência espacial está diretamente relacionada à memória
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Por que a inteligência espacial está diretamente relacionada à memória

Kaluan Bernardo em 7 de dezembro de 2016

Nossa inteligência espacial e memória podem estar muito mais relacionadas do que você pensa. É possível que as lembranças de nossas vidas esteja diretamente conectadas à noção de espaço que temos quando somos crianças. E as descobertas que neurocientistas estão fazendo nessa área são essenciais para o debate sobre a educação infantil.

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O cérebro humano tem uma pequena região semelhante a um cavalo-marinho conhecida como hipocampo. É ela a responsável por desenvolver mapas cognitivos de espaço para que possamos nos mover e lembrar de lugares. Além disso, neurocientistas também têm associado a região  à capacidade de armazenar lembranças sobre o passado, mais conhecidas como memórias episódicas.

Os cientistas não sabem ao certo como o hipocampo se desenvolveu para ir além da navegação espacial. “Uma conjuntura é que, em algum ponto de nossa história evolutiva, [o hipocampo] foi sequestrado para o propósito de memória episódica porque sua arquitetura neural era apropriada”, explica Nora. S Newcombe, professora de psicologia na Temple University à revista Nautilus.

O fato é que a cognição espacial e a memória se desenvolvem próximos. E ambos são essenciais para nossa sobrevivência. As lembranças do passado são pilares de nossa identidade; usamos elas para criar as narrativas de nossas vidas. Para nos contar qual é a nossa biografia. E para imaginarmos como deve ser nosso futuro.

Como a noção espacial se relaciona com a memória das crianças

Novas pesquisas indicam que as experiências espaciais das crianças, como explorar lugares, navegar pelo espaço, se movimentar, podem influenciar a forma como o hipocampo se desenvolve.

“Isso é muito empolgante porque a maturação do cérebro normalmente é considerada dependente do tempo e da programação genética”, diz Alessio Trabaglia, pesquisador no Centro de Ciências Neurais da New York University, à Nautilus.

“O que estamos mostrando é que o desenvolvimento do cérebro não é um programa, é sobre experiência. Então se eu sou um bebê em Nova York ou na floresta ou no deserto, as experiências que eu enfrento são diferente”, comenta.

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Teoricamente, essa nova percepção dos cientistas explica porque não conseguimos lembrar de nada que aconteceu quando tínhamos menos de dois anos. E porque as memórias até os seis ainda são meio vagas. Esse fenômeno, que por muito tempo foi um mistério, é conhecido como amnésia infantil.

Foi Freud quem cunhou o termo de amnésia infantil. Para o psicanalista, o fenômeno se explicava pela repressão — o cérebro está escondendo desejos e emoções infantis da psiquê adulta.

Pesquisadores posteriores desconstruíram a ideia e propuseram que a capacidade de memória a longo prazo da criança se desenvolve com a linguagem. Essa teoria, no entanto, também foi questionada quando perceberam que outros mamíferos, como ratos e primatas, sofriam de amnésia infantil.

Foi só em 1978 que os neurocientistas Lynn Nadel e John O’Keefe passaram a relacionar o fenômeno com o hipocampo. Em seu livro “The Hippocampus as a Cognitive Map” (“O Hipocampo como um Mapa Cognitivo”, em tradução livre), eles propõem que o hipocampo, além de oferecer a base para a memória espacial, orientação e navegação, também é capaz de armazenar episódios de nossas memórias. Na verdade, nossas lembranças são misturadas a contextos espaço-temporais.

Foto: Istock/Getty Images

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John O’Keefe descobriu que o hipocampo dos ratos continha neurônios, que ele chamou de “células de lugar”. Elas eram acionadas quando o animal estava em um ambiente novo ou familiar. E que diferentes células de lugar são ativas em diferentes partes de cada ambiente, criando mapas cognitivos. A pesquisa rendeu um Nobel a O’Keefe em 2008 e ajudou a diversos cientistas se aprofundarem nessa teoria, enquanto descobriam outras células do hipocampo que são usadas para memória espacial e navegação.

Cada uma dessas células é estimulada por movimentos, exploração e a experiência dos lugares. Algumas evidências sugerem que a riqueza e a complexidade de um ambiente influencia a quantidade de neurônios e, consequentemente, o tamanho do hipocampo. Em 1997, por exemplo, cientistas notaram que ratos que andavam em ambientes mais complexos tinham, em média, 40 mil neurônios a mais — o que os deixava mais inteligentes.

Os neurocientistas Pierre Lavenex e Pamela Banta Lavenex propuseram que, por volta dos dois anos, o hipocampo começa a maturar e agir contra a amnésia infantil. Há evidências de que quanto maior o hipocampo da criança, maior sua habilidade de lembrar detalhes de um momento. E é justamente nessa idade que a amnésia infantil desaparece completamente.

“O hipocampo não é uma estrutura que não está lá em um dia e então aparece no outro. Mas há uma gradual emergência de suas funções; é a maturação de uma rede e conexões entre as partes que te dão a memória episódica de longo prazo”, comenta Lynn Nadel à Nautilus.

O que essas descobertas podem fazer pelas crianças

Ainda há muito a se entender sobre os pormenores e os porquês desses fenômenos. Há um universo de descobertas a serem feitas sobre o cérebro e sobre o hipocampo especificamente.

Mas esses indícios científicos ganham destaque em uma época em que crianças são acusadas de viverem mais sedentárias e explorando menos espaços. Quais os impactos que esse tipo de mudança poderá ter em sua inteligência?

Além disso, descobertas sobre as relações espaço-temporais no hipocampo e a memória poderá ajudar crianças com problemas físicos a desenvolverem o cérebro. Há pesquisadores, por exemplo, que usam pijamas especiais para ajudar bebês com dificuldades de locomoção a engatinharem e, com isso, desenvolverem melhor sua noção espacial.

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