Por que o tédio pode ser essencial para nossas vidas
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Por que o tédio pode ser essencial para as nossas vidas

Kaluan Bernardo em 10 de dezembro de 2016

Há muitos séculos o tédio é assunto para filósofos e estudiosos do ser humano. Ora visto como bom, ora visto como péssimo, o tédio existe. Por mais que se tente fugir dele com o entretenimento ou hedonismo, em algum momento você se entediará. É algo tão certo quanto a morte.

E parece que estamos cada vez mais fugindo do tédio. “Somos menos entediados do que nossos ancestrais, mas também temos mais medo do tédio. Acabamos por saber, ou melhor, a acreditar, que o tédio não é parte natural de muitos homens, e que pode ser evitado com suficiente e vigorosa busca por emoção”, escreveu, em 1930, o filósofo Bertrand Russell, no livro “A Conquista da Felicidade”.

Para Russell, no entanto, a busca pela empolgação, como medo do tédio, é ruim. “Uma vida com muita excitação é uma vida exaustiva”, comenta na obra. “Uma pessoa muito acostumada à empolgação é como alguém com mórbido desejo por pimenta, que eventualmente não consegue mais saborear uma quantidade de pimenta que chocaria qualquer um”, compara.

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O filósofo acredita ainda que o tédio em si não é um mal, mas que o medo dele é. “O desejo de escapar do tédio é natural; de fato, todas as raças da humanidade mostraram isso quando a oportunidade surgiu… Guerras, pogroms e repressões foram todos parte da luta contra o tédio; até discussões com vizinhos foram vistos como melhor do que nada. O tédio é, portanto, um problema vital para o moralista, uma vez que ao menos metade dos pecados humanos são causados pelo medo dele”, diz o filósofo.

Há quem veja ainda diversas outras vantagens no tédio. Um artigo assinado apenas por “Adrian”, no site Lifehack, diz que o sentimento pode ser um a importante ferramenta para chegar à introspecção, para ser criativo, permitir-se descansar e procurar por soluções em nossas vidas.

O tédio é uma força da natureza

A psicoterapeuta e escritora Maria Cecilia S.R Vicente de Azevedo vê o tédio como algo natural. “O tédio é algo que está aí, não é uma coisa da qual a gente possa ter controle. Podemos saber lidar mais ou menos com ele, mas não há como negá-lo. Não é bom que você o negue nem que sucumba a ele. O importante é ter um jeito de lidar com ele”, comenta ao Free The Essence.

Tal como Russell, ela acredita que a busca constante pelo divertimento como combate ao tédio nos leva a problemas maiores. No caso, a um desencantamento do mundo — o que, a rigor, se torna um grande tédio.

“A questão é que, hoje, a forma de se viver dá pouca opção de conhecer o tédio e descobrir seu jeito de lidar com ele. Há aquelas vozes ocultas que dizem que você tem que comprar muito, ter sucesso, buscar sua fonte de juventude. E você fica só ouvindo essas vozes e dimensiona muito mal sua forma de lidar com o tédio. O resultado é um mundo entediante. É como se o mundo já estivesse esgotado de novidades e as pessoas então se entediam em massa”, comenta.

O remédio, segundo ela, é algo ainda mais difícil nos dias de hoje: viver o momento presente. “As pessoas têm o vício de sempre quererem ir para o futuro e não estarem onde estão. Sempre querer ir à frente pensando no que vão fazer à tarde, à noite. Tudo gira desse jeito. Precisamos voltar quase que à meditação oriental”, diz.

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