Retiros de silêncio se apresentam como solução para estresse
retiros silenciosos
Foto: Istock/Getty Images
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Retiros de silêncio se apresentam como alternativas para autoconhecimento

Kaluan Bernardo em 24 de dezembro de 2016

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“Um artista tem que entender o silêncio / Um artista tem que criar espaço para o silêncio para entrar em seu trabalho / O silêncio é como uma ilha no meio de um mar turbulento”, escreveu Marina Abramovic no “Manifesto da Vida de um Artista”. De fato, há milênios, o silêncio é utilizado como ferramenta de autoconhecimento, como forma de se ouvir e ouvir vozes que antes eram silenciadas pelos ruídos dentro e fora de nós.

Em um mundo cada vez mais hiperconectado e hiperacelerado como o nosso, mais pessoas procuram no silêncio uma forma de lidar com situações de estresse e ansiedade. É nesse contexto que muitos conhecem os refúgios de silêncio — períodos sabáticos, em grupo, com atividades de meditação, afastados da cidade, para se praticar o silêncio e buscar o autoconhecimento

Foto: Reprodução/Facebook Sandro Bosco

Foto: Reprodução/Facebook Sandro Bosco

“O silêncio sempre foi uma forma de as pessoas poderem entrar em contato com o que é importante para si. Sempre um momento de reflexão”, comenta Sandro Bosco, professor de yoga e meditação que realiza retiros voltados ao silêncio — o próximo será no carnaval . “Os Vedas dizem que há duas coisas que adoecem o ser humano: comer demais e pensar demais. Quando você fala demais, você pensa demais.E isso causa um excesso de dispêndio de energia que não nos damos conta. Falo da energia básica, vital, que te dá alegria pra viver e estar disponível para os outros, para o trabalho e para vida social e afetiva”, comenta.

A prática do silêncio não necessariamente tem relação com a religião ou misticismo. Mas está diretamente ligada à meditação. “Ambos são muito complementares. A meditação desenvolve o direcionamento da atenção. Quando sua atenção é externa, você coloca máscaras que não te permitem olhar para dentro. Suas questões internas ficam obscurecidas, num segundo plano. Mas quando você não pode se comunicar, não ouve as pessoas falarem, isso te obriga a trazer a atenção para o interior. E para isso tanto o silêncio quanto a meditação são essenciais”, comenta Mario Reinert, também instrutor de yoga e meditação que realiza retiros de silêncio pela escola Namaskara.

Como o retiro de silêncio nos coloca em contato conosco

Mario conta que, nos retiros de silêncio, algumas vezes acontece o fenômeno de algumas pessoas sentirem uma profunda irritação. “Aí ela percebe que a raiva vinha de dentro, não de fora”, comenta. Isso porque a prática do silêncio nos leva a um estado de observação de si. Com ele, descobrimos que muito dos que nos incomoda no dia a dia não é gerado por quem convive conosco ou pela situações que passamos, mas como lidamos com tudo isso, partindo de dentro.

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Foto: Reprodução/Facebook Namaskara Estudio de Yoga

O segredo, segundo Mario, nesse tipo de situação, é aproveitar a meditação e o silêncio para se colocar como um observador de si. “O fluxo de pensamentos é como um rio. Se você se identificar com eles, acha que vai se afogar e começa a sofrer as consequências reais de um pensamento que não tem materialidade em si. Você deve observar esses pensamentos com objetividade, sem se identificar. É como se olhasse o rio, mas pela margem. Coloque-se como espectador”, recomenda.

Sandro pensa semelhante. “O silêncio aumenta nosso discernimento para saber o que é bom e o que não é. Ele te coloca mais como observador de seus pensamentos. É como assistir a um filme e perceber que aquilo é só um filme”, comenta. “O silêncio vai tirando da frente as fantasias do que eu acho que sou. Ele tira de você a possibilidade de manter vivo e alimentado os algozes de seus problemas e sofrimentos. Você vê que não há algoz lá fora, é só você. Epicteto , o filósofo grego, dizia o que altera um ser humano não são os fatos em si, mas o que você acha dos fatos”, comenta.

O isolamento e o silêncio por si, podem não ser salubres para muitas pessoas. Por isso, nesses retiros há uma programação coletiva, que vai além da mera prática do silêncio. Em ambos, os participantes têm a oportunidade de observarem o outro, praticarem yoga, atividades de meditação etc.

Um dos efeitos da prática do silêncio aliada ao yoga, à meditação e ao grupo é a possibilidade de nos tornamos mais atentos ao outro também. “A pessoa fica mais atenta a tudo. Ela não atravessa na frente do outro e passa por um processo de ‘descondicionamento’, de não ser mais obrigada. A gentileza deixa de ser uma condição e se torna natural”, comenta Mario.

Para Sandro, o retiro funciona como um processo de limpeza. “Você enxerga onde está e para onde está indo. Vê como alimenta o estômago, os ouvidos e os olhos. Se você não muda esses alimentos, é difícil querer metabolizar outra coisa”, diz. Segundo ele, esse tipo de processo é especialmente interessante em momentos como início de um novo ano ou em paradas específicas, porque em vez de a pessoa se colocar promessas e metas que não cumprirá, ela consegue parar para perceber o que realmente quer.

Como trazer o silêncio para o dia a dia

O ideal é que esses momentos de silêncio possam ser aproveitados no dia a dia, não só dentro de um retiro. E para isso a primeira dica é tirar um pouco das distrações. “Estamos condicionados a sermos distraídos. Quando você entra no carro, a primeira coisa que faz é ligar o rádio. E aí dirige sem prestar atenção ao trânsito, à sua posição etc”, comenta Mario. “Eventualmente, experimente desligar o rádio, sentir o momento. Se você estressado, pergunte por quê. Tome contato com essas coisas que te incomodam ou dão prazer. São momentos de parar e ver por que precisa parar”, recomenda.

“As pessoas não conseguem ficar sem fazer nada, elas precisam ligar o computador, colocar a música… e muitas vezes são só formas de fugir. Se você quer ouvir música, faça isso colocando atenção na música. Os indivíduos estão perdendo a capacidade de manter a atenção”, diz Mario. Ele afirma que vivemos aquilo que colocamos atenção e questiona:

Quanto por cento do que aconteceu no seu dia você lembra?

“O que te afetará mais é aquilo que você colocará mais energia. E, muitas vezes, direcionamos apenas para algo ruim. A pessoa se torna escrava dos sentidos e é pega sempre por aquilo que chama mais, que agride”, diz. Ele afirma que, quando você direciona a atenção a algo de bom, percebe que sempre há algo de positivo acontecendo.

Sandro cita o exemplo de Mahatma Ghandi, que libertou a Índia e teve que lidar com o poderoso império inglês, mas mesmo assim não perdeu a capacidade de manter a serenidade. “Uma vez por semana, ele fazia jejum de palavras. Usava esse tempo para ler livros e responder algumas cartas”, comenta.

“Comece assim também. Fique um dia por semana em silêncio e sozinho, sem receber WhatsApp ou qualquer coisa do tipo”, recomenda. Se você acha que é muito, tente ficar ao menos uma hora por dia sem informação, “nem que seja caminhando, mas em silêncio. Tente trazer algo de diferente para seu cérebro que te empurra para fora de sua zona de conforto”, aconselha.

“Não estou falando de se tornar um iluminado, mas de trazer luz para seu discernimento pessoal e poder ter certeza do que é. Eu posso me desapegar disso ou daquilo porque sei o que eu quero, e sei o que é obstáculo para mim. Nesse sentido, o silêncio é um clareador dos processos sentimentais”, conclui Mario.

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