Como o skate abre novas portas para deficientes físicos
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João Henrique andando de skate. Foto: Arquivo Pessoal
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O skate é para todos: como deficientes físicos se relacionam com o esporte

Kaluan Bernardo em 21 de junho de 2016

Jack Bertin tinha apenas três anos quando subiu em um skate pela primeira vez. Ficou fascinado pelo movimento que um shape e quatro rodinhas lhe proporcionavam. Passou o tempo todo batendo em paredes e portas, mas de jeito nenhum descia daquele pequeno equipamento que seria seu parceiro pelo resto da vida.

Já João Henrique demorou mais tempo para andar em um skate. Ele tinha aproximadamente 18 anos e sempre via seus amigos andando em cima do shape, mas nunca havia subido em um. No seu aniversário, seus amigos fizeram uma vaquinha, comparam um skate para ele e o levaram a uma pista em São Bernardo do Campo (SP). Ali João descobriria uma paixão e o combustível para mais uma série de sonhos que viriam.

O skate é para todos

Tanto Jack quanto João são deficientes físicos e não têm as pernas. Para Jack, é seu principal meio de transporte. Para João, é onde ele se realiza, vence e mostra para o mundo quais são seus sonhos.

Jack tem 39 anos, é bancário e usa o skate para se locomover dentro de casa e no trabalho. Usa também para ir a baladas e shows. Ou ainda para percorrer pequenos trechos na rua. João tem 26 anos, é professor de dança e skatista amador tentando se profissionalizar. João conta:

Não consigo explicar como me sinto em cima do skate. Chego até a me emocionar. Aprendi muita coisa, fiz muitas amizades. O skate me mostrou que eu poderia vencer todos os desafios que aparecessem. Depois dele, vi o quanto eu era vitorioso e poderia ir atrás dos meus objetivos.

E de desafios ele entende. Nasceu com má formação e, aos cinco anos, teve que amputar ambas as pernas. Mas isso não o parou. Durante a adolescência jogou basquete, lutou karatê e jogou capoeira. Se formou em dança (break também é sua paixão) e virou professor.

Agora tem metas maiores: quer se tornar um skatista profissional e competir na Califórnia (EUA) e andar na megarrampa que o skatista brasileiro Bob Burnquist tem em sua casa.

João andando de skate em pista

Foto: Arquivo Pessoal

Outro sonho que João tem é criar um negócio social e ajudar outros deficientes físicos. Hoje ele trabalha na Associação Cartão Cristão do Brasil, em São Paulo (mas mora em Rio Claro, no interior do estado), onde dá suas aulas de dança.

Para alcançar seus sonhos, ele encontra alguns desafios. O primeiro é arrumar patrocinadores. Ele já tem como apoiadores a Jumper Equipamentos, que lhe deu a sua cadeira de rodas; e a Kemp Skates, que lhe oferece equipamentos de skates. Agora ele procura patrocinadores para lhe oferecer fraldas — algo que necessita e tem um custo muito alto para ele.

Outro grande desafio é a falta de competições de skate voltada a deficientes. A primeira vez que aconteceu um torneio voltado a portadores de necessidades especiais foi em 2016, no Campeonato Brasileiro de Street Skate Amador, que abriu a categoria “Paraskate”. “Reuniram sete competidores, mostramos que há pessoas interessadas”, conta João.

No entanto, a ausência de campeonatos específicos nunca foi um impeditivo. No Brasil, dois outros skatistas já mostraram que dá para voar alto sem precisar de pernas. O pernambucano Og de Souza, vítima de poliomelite na infância, já levou o vice-campeonato no Mundial da Alemanha de skate, foi reconhecido como herói por Bob Burnquist e estrelou o o documentário “Skate na Veia”. Já o curitibano Ítalo Romano, que perdeu as pernas em um acidente de trem, foi o primeiro deficiente a saltar de uma megarrampa de 27 metros de altura.

João em pista de skate

Foto: Arquivo Pessoal

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João trabalha para trilhar o mesmo caminho. Quando não está ensinando dança está treinando em cima de seu skate. Quer se profissionalizar em dois anos. Independente do que o futuro lhe oferecer, ele acredita que o skate já melhorou muito sua vida. “Antes eu não saia muito de casa, por conta das dificuldades de andar nas ruas. Depois que vi tudo o esporte me proporcionou, tive uma nova vida. Tem vez que deixo a cadeira em casa e saio só de skate”, conta. João diz que, entre as facilidades possibilitadas pelo skate, estão a praticidade.

Pegar ônibus de cadeira de rodas é muito difícil. Faltam políticas de acessibilidade não só para deficientes quanto para qualquer um. As calçadas são esburacadas. Muitas vezes temos que nos arriscar no meio da rua.

O skate como janela para o mundo

A opinião de Jack é praticamente a mesma. Ele nasceu sem as pernas. Até os 24 anos, praticamente não saia de casa por conta das dificuldades de movimento. Quando sai, no entanto, raramente usa cadeira de rodas. Para ele, o skate é muito mais prático e permite mais mobilidade.

“Há algumas rampas que são praticamente impossível de encarar de cadeiras. Com o skate até que dá. Para subir em um ônibus, de cadeira, é inviável. E, de carro, dá muito trabalho”, conta.

Para ele, o skate nunca foi um esporte, mas o meio de transporte que o permitiu sair de casa e conhecer o mundo. Faz manobras no apenas no corredor de sua casa, que tem um pequeno degrau onde ele brinca de vez em quando.

Jack em seu skate no quintal de casa

Foto: Arquivo Pessoal

Até hoje Jack só teve um emprego: caixa no Banco do Brasil, onde está há 15 anos. Começou lá aos 24, onde conseguiu juntar dinheiro e comprar seu carro. Só depois disso que começou a realmente sair para conhecer o mundo, ir a baladas e shows.

No entanto, ainda enfrenta dificuldades quando sai de casa. “Falta muita acessibilidade, mas o que mais falta é consciência das pessoas. Você ainda vê muita gente parando em vaga de deficiente. Ou vai à balada e vê um monte de cara comum usando banheiros especiais e ainda sujando tudo”, conta. Apesar de o skate lhe permitir andar nas ruas, grandes distâncias ainda são cansativas para ele. Cada vez que não encontra vaga próxima, é necessário fazer um enorme esforço para ir até onde precisa. Ele ainda conta que, de skate, também enfrenta dificuldades com buracos e cocôs de cachorro espalhados pelas calçadas.

Embora ainda falte muito em termos de acessibilidade e consciência, Jack acredita que muita coisa melhorou nos últimos anos. A mudança, segundo ele, está relacionada principalmente à educação. “Antes quando uma criança me olhava, os pais ficavam meio sem jeito, falavam para parar de encarar. Hoje já incentivam a vir e conversarem, perguntarem como é. Cabe a você saber responder da melhor forma possível e tentar instruir a pessoa sobre sua realidade“, afirma.

Essa mudança, segundo ele, deve incentivar mais pessoas a saírem de casa. “A gente vê que não adianta ficar depressivo, parado em um canto e não sair. Não adianta falar você não pode fazer isso. Nenhum deficiente é igual ao outro. Cada um tem um tipo de limitação e suas formas de superá-la”, diz Jack.

Tem gente que vai te ajudar ou ignorar. Mais gente vai te ajudar do que ignorar. Você tem que tentar. Só descobrirá até onde ir se for tentando. Você só sabe seu limite quando força — isso é básico para qualquer ser humano.

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