Sociedade 24 horas: por falta de tempo, estamos colonizando a noite
Pocket watches
Foto: iStock/GettyImages
Unplug > Corpo e Mente

Sociedade 24 horas: por falta de tempo, estamos colonizando a noite

Kaluan Bernardo em 4 de dezembro de 2016

Você já deve ter reclamado de falta de tempo. E já deve ter ouvido muita gente lamentando pelo mesmo motivo. Na verdade, possivelmente, deve ter percebido que essa é uma contestação cada vez mais frequente. Parece que as 24 horas dia não são mais suficientes para nossas vidas modernas. Leon Kreitzman, autor do livro “The 24 Hour Society” discute o tema desde 1999, quando passou a observar como fica o tempo nas intersecções entre nossa biologia e sociedade.

Ele nos conta que as coisas nem sempre foram assim. Houve um dia em que reclamamos menos sobre falta de tempo. Haviam menos regras e listas de afazeres. Isso foi antes do relógio, quando os eventos naturais nos davam a noção de tempo. Quando nossas vidas eram marcadas pelo sol nascendo e se pondo; pelas marés subindo e descendo; pelas estações do ano indo e vindo.

Nesses dias, lembra Leon, ver um amigo era mais importante do que entregar o trabalho ou concluir uma tarefa. “A priorização das afiliações ou relacionamentos é uma característica importante de sociedades em que o tempo é baseado em eventos”, comenta em artigo no site Aeon.

Ainda existem sociedades que se inspiram mais em eventos do que em relógios. Leon dá o exemplo dos monges birmaneses, que sabem que o momento de acordar é quando conseguem ver as veias de suas mãos. Outro exemplo: em certas regiões de Madagascar, se você perguntar quanto demora algo, poderá ouvir que leva o tempo de cozimento do arroz (meia hora) ou de fritar um gafanhoto (rapidinho).

Como a falta de tempo se tornou regra

O sociólogo Lewis Mumford escrevia em 1934, no livro “Technics and Civilization” (“Técnicas e Civilização”, em português”), que o relógio mecânico, e não a máquina a vapor, é a chave que nos trouxe ao mundo moderno.

Em 1998, o historiador David Landes escreveu em “A Riqueza e a Pobreza das Nações” como o relógio mudou nossa perspectiva:

A noção de produtividade é fruto do relógio: uma vez que alguém pode se relacionar com unidades uniformes de tempo, o trabalho nunca mais é o mesmo.

Saímos do camponês, com uma consciência de tempo orientada por tarefas, na qual um trabalho é feito após o outro, enquanto a luz natural permitir. E saímos do nível dos antigos servos domésticos, de sempre estar ocupados para preencher o tempo, e entramos na era onde todos os esforços são voltados a maximizar a produção por unidade de tempo. Ele vira dinheiro.

Leon Kreitzman lembra ainda que a noção de “emprego”, como temos hoje, mal existia até a Revolução Industrial. “As pessoas faziam o que tinham que fazer, e então seguiam com qualquer outra coisa”, nota. Foi nessa mudança que deixaram de serem pagas pelo que produziam e passaram a serem pagas por suas horas. “O relógio se tornou medidor não só de tempo, mas de dinheiro”, resume.

A partir daí, começamos a sentir cada vez mais a falta de tempo — como se ele invariavelmente corresse de nós. “O sentimento de ser ansioso e apressado continuamente é a doença da era. Falta de tempo se tornou uma reclamação comum. Para muitos de nós, não há horas suficientes no dia para fazer tudo o que queremos”, lembra o autor.

A falta de tempo e a colonização da noite

O tempo tornou-se dinheiro, mas não commodity. Não pode ser criado. É um recurso escasso. E quando algo se torna escasso, procura-se uma nova fonte. No caso, a noite. E assim criamos a sociedade 24 horas.

“Em uma sociedade 24 horas tentamos colonizar a noite”, afirma Leon. Ele dá o exemplo de um faraó descrito por Heródoto. Quando descobriu que tinha mais seis anos de vida, ele ordenou que se colocasse tochas por todo palácio para que sua noite se tornasse dia e, assim, tivesse mais 12 anos de vida. “Quando tempo é escasso, a noite é nosso recurso. Ao colonizar a noite, nós não criamos tempo, mas começamos a usar o tempo disponível mais eficientemente”, diz.

A sociedade 24 horas é mais do que aumentar o período em que estabelecimentos ficam abertos, é reestruturar toda nossa ordem temporal — o que, ocasionalmente, poderia nos liberar de atividades rotineiras e sentir menos o peso do relógio.

LEIA MAIS
Por que escolher tempo em vez de dinheiro pode te deixar mais feliz
LEIA MAIS
6 problemas que podem estar roubando seu tempo e produtividade no trabalho

Empolgados com isso, há quem faça propostas ainda mais ousadas, como criarmos dias de 28 horas. Com isso, elimina-se as segundas-feiras (afinal, quem gosta delas?), e cria-se uma semana na qual em vez de trabalhar oito horas em cinco dias úteis, você trabalha dez em quatro. Em compensação, deixa de ter 16 horas livres e passa a ter 18. Além disso, os finais de semana passam de 48 para 56 horas.

O problema é que não funcionamos assim. Os dias têm 24 horas porque é o tempo que a Terra demora para girar em torno de seu eixo. É o que faz os dias e noites. Nosso sistema biológico é sincronizado a esse ciclo. “A grande disrupção circadiana na qual vivemos desde a luz elétrica é ruim para nossa saúde mental e física. A sociedade 24 horas irá apresentar futuros riscos”, diz Leon. “E é exatamente isso o que deveria ser tema de debate público — preferencialmente depois de uma boa noite de sono”, conclui.

E nesse contexto, Leon ainda propõe três saídas: A primeira é parar de assistir TV ou gastar tempo com qualquer entretenimento vazio que te ocupa de três a quatro horas por dia. A outra é parar de comprar tantos bens e serviços, o que liberaria um pouco mais de tempo ao longo do dia. Por fim, se comprarmos menos, não precisaremos ganhar tanto e poderemos viver com menos dinheiro — isso é claro, desconsiderando as desigualdades existentes no mundo.

De qualquer forma, o autor é um tanto cético que essas opções aconteçam. “Nós podemos fazer tudo isso, mas as chances de acontecer é quase a mesma de porcos voarem”, aposta.

Gostou deste post? Que tal compartilhar:
ESCOLHA DO EDITOR
Últimos
Trend Tags
Array ( [0] => 205 [1] => 76 [2] => 12 [3] => 237 [4] => 97 [5] => 249 [6] => 222 [7] => 62 [8] => 157 [9] => 276 [10] => 259 [11] => 86 [12] => 267 [13] => 94 [14] => 68 [15] => 16 [16] => 167 [17] => 115 [18] => 186 [19] => 17 [20] => 102 [21] => 173 [22] => 238 [23] => 175 [24] => 92 )
Vídeos
Copyright © 2016 Free the Essence