Solidão ativa nosso sistema de alerta e pode ser vantagem evolutiva
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Solidão ativa nosso sistema de alerta e pode ser vantagem evolutiva

Camila Luz em 20 de setembro de 2016

Para o filósofo britânico David Hume, a solidão é “talvez, a maior punição que podemos sofrer”. No entanto, segundo matéria produzida pelo site Nautilus, enfrentar a solidão por muito tempo pode trazer vantagens para o corpo, que aperfeiçoa seu sistema de defesa e evolui.

Em 2016, a escritora britânica Olivia Laing lançou novo livro, “The Lonely City — Adventures in the Art of Being Lonely”. A obra discute a experiência solitária vivida pela autora ao mudar para Nova York e como esse sentimento é comum em grandes cidades. Ela observa que “foi enfaticamente dito que a solidão não tem propósito”, citando inclusive estudos feitos pelo sociólogo Robert S. Weiss na década de 70.

Outros especialistas pensam diferente. Médicos e cientistas querem entender quais são as implicações para a saúde. Mas diferente do filósofo e poeta Thoreau, que discutia os benefícios da solidão para processos criativos da mente, os especialistas estão focados em mudanças evolutivas causadas por esse estado de espírito.

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A solidão nos deixa em estado de alerta

A solidão é um sistema de alerta”, diz a psicóloga da Universidade de Chicago (EUA) Louise Hawkley ao Nautilus. É nosso corpo dizendo que estamos nos desligando de vínculos sociais que nos nutrem como espécie. “Nós estamos falhando em satisfazer nossa unidade fundamental de se conectar com outros seres humanos”, completa.

Steve Cole, professor de medicina e psiquiatria da Universidade da Califórnia (EUA), diz que a solidão coloca nosso corpo em estado de auto-preservação. “Quando pessoas estão solitárias por muito tempo, o sistema de ameaça-defesa fica ativado. O corpo interpreta a solidão como ameaça”, explica.

mulher sentada em pedra olhando o mar

Foto: Istock/Getty Images

Segundo o Nautilus, estudo feito em 2009 testou se cérebros de pessoas solitárias são mais sensíveis a ameaças. Pacientes foram posicionados para visualizar uma série de imagens. Algumas eram agradáveis, como montes de dinheiro, e outras desagradáveis, como conflitos humanos.

Eles descobriram que cérebros de pessoas solitárias responderam de forma menos positiva às imagens agradáveis do que os de indivíduos que não sofrem de solidão. No entanto, ao encarar fotos de violência e situações sociais desagradáveis, foi o contrário: solitários reagiram mais fortemente.

Isso mostra que a solidão bota o cérebro em um estado de forte vigilância constante e tira a capacidade de relaxar. O solitário não aceita o mundo de forma passiva, mas o interpreta como um lugar hostil. Por isso, indivíduos solitários levam mais tempo para conseguir dormir e têm sono mais leve, acordando várias vezes durante a noite. Diz Hawkley:

A pessoa solitária não se sente segura, socialmente segura, e isso contribui com problemas para dormir.

A solidão e o cortisol

Solitários também apresentam níveis mais altos do hormônio cortisol, importante para ajudar o organismo a controlar o estresse, reduzir inflamações e regular os níveis de açúcar no sangue.

O cortisol é liberado periodicamente durante o dia ou quando nos sentimos ameaçados. Pesquisas mostram que pessoas solitárias têm mais cortisol em seus corpos e que mesmo um breve sentimento de solidão faz o cortisol circular mais pelo corpo.

Níveis mais altos de cortisol podem ser responsáveis por alterações físicas. Pesquisas sugerem que há ligação entre o sistema que regula o hormônio e o sistema cardiovascular. Hawkley encontrou uma correlação entre a saúde cardiovascular e a solidão. Em estudo, ela e seus colegas descobriram que adultos solitários de meia-idade são mais propensos a ter pressão arterial elevada. Eles também apresentam aumento da resposta inflamatória, o que está ligado a níveis mais altos de cortisol.

Indivíduos solitários apresentam 26% mais chances de ter morte prematura, taxa duas vezes maior do que a relativa a pessoas obesas. O quadro parece assustador, mas tem seu lado positivo. Esse estado prejudicial e indesejado pode ser vantagem evolutiva.

Solidão: vantagem evolutiva?

Leah Doane, psicóloga da Universidade do Estado do Arizona (EUA), disse ao Nautilus que se indivíduos percebem a solidão como fator de estresse, o corpo pode identificar o problema e reagir a ele. Ela também afirmou que um estudo holandês feito com 7.665 irmãos gêmeos descobriu que traços tipicamente associados a solidão são 50% hereditários. Isso sugere que a solidão é favorecida pela evolução.

Se a solidão é estímulo para a ação, há uma chance de sucesso. Olivia Laing, depois de chegar ao fundo do poço em sua experiência solitária, começou a se sentir inteira novamente. “A solidão, a saudade, não é sinal de que falhou, mas simplesmente de que está vivo. O que importa é ficar aberto, mantendo-se alerta”, escreveu.

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  • Simone Rebouças

    Tudo haver….

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