Projetos oferecem tatuagens às mulheres que lutam contra o câncer
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Foto: Istock/Getty Images
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Projetos oferecem tatuagens às mulheres que enfrentam o câncer de mama

Rafael Nardini em 18 de dezembro de 2017

O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que o Brasil tenha registrado 58 mil casos de câncer de mama somente em 2017. Em 2015, cerca de 3,9 mil mulheres perderam a vida somente no Estado de São Paulo em decorrência da doença.

Entre as mulheres que enfrentam o câncer de mama, quase metade passa pela retirada de parte da mama. Há ainda aquelas que precisam fazer a retirada completa de uma ou das duas mamas. O Sistema Único de Saúde (SUS) está obrigado a realizar cirurgia plástica reparadora nas mulheres que passaram pelo procedimento da mastectomia. Mas, como você pode imaginar, a fila, a burocracia e a falta de condições para cumprir o que é lei acaba fazendo com que tudo não passe de um promessa longe de ser cumprida para a maioria.

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Mas há quem esteja disposto a fazer sua parte para melhorar a autoestima dessas mulheres que já sofrem com a doença e também lutam contra todo o preconceito que envolve a retirada da mama. Em 2005, o tatuador Miro Dantas foi procurado por uma paciente que havia passado por uma mastectomia e que precisava do trabalho dele para que fosse criado um mamilo realista. A experiência não largou Miro tão cedo.

Em 2014, ele daria vida ao projeto “Uma tattoo por uma vida melhor” para criar tatuagens reparadoras em mulheres que enfrentaram o câncer e optaram pela reconstrução da mama. O trabalho do tatuador é recriar a aréola, deixando a mama reconstruída com aparência mais natural possível.

“São muitas histórias, principalmente de superação. De mulheres que muitas vezes, por causa do câncer e das consequências da doença, são abandonadas pelos seus parceiros que não sabem ou não querem lidar com isso. Não dá pra entender porque um cara abandona a sua mulher, principalmente nesses momentos”, conta ele, ao Free The Essence. “É uma ótima sensação ver que o que eu dediquei tanto tempo, estudo e trabalho, em uma simples tatuagem, traz uma grande melhora na autoestima de uma pessoa que foi devastada pelo câncer”, comemora o tatuador, que foi parar no TEDx.

Nos últimos três anos, Miro atendeu gratuitamente 170 mulheres no estúdio Gelly’s Tattoo, na Vila Madalena, em São Paulo. “É um número muito importante, pois esse tipo de iniciativa não dura muito, ainda tento patrocínio para tentar retornar os atendimentos gratuitos”, conta ele. A ideia, no entanto, é tentar voltar a atender. “Estou sempre pensando e sempre pronto pra algum projeto social que caiba no que eu faço. Sou assim, não fico de braços cruzados. Tenho alguns planos… vamos ver mais pra frente”, diz ele.

Mas, no fundo, Miro sente que há mais palavras vazias que ações práticas capazes de mudar a vida de quem precisa. “Cara, é muito difícil e me frustra muito, vejo um monte de gente falando vou fazer isso, vou fazer aquilo… mas não vejo ninguém fazendo nada. Falar é mais fácil, entende? Colocar a mão na massa é outra história, vai dar trabalho, vai tomar o seu tempo… tem que querer. Falar menos e fazer mais. Eu tento fazer, provei que dar pra fazer, só querer”, comenta.

Tatuagem contra o câncer de mama

O tatuador Rodrigo Catuaba, de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, é outro que decidiu dedicar parte do seu tempo de trabalho para melhorar a vida das mulheres que passam por tratamentos contra o câncer. Com mais de uma década de profissão, há pelo menos três, Catuaba ajuda na reconstrução das mamas de pacientes.

“Uso uma técnica conhecida como realismo e aplico projeções de luz e sombra para dar o efeito 3D. É uma mistura de cores e formas. As mulheres saem daqui felizes e emocionadas, mas mal sabem que quem fica mais feliz sou eu. Nada é mais compensador do que ver essas mulheres refazendo as suas vidas, felizes, se aceitando, recuperando a autoestima. Esse é um trabalho que faço com o maior prazer e faço questão de não cobra-lo”, contou ele, ao G1.

Todos os meses, o tatuador, que já acumula 54 prêmios nacionais e três internacionais na categoria “realismo”, cede seu tempo para atender duas mulheres com as despesas totalmente cobertas por ele mesmo. Em outubro de 2017, no entanto, aproveitando a campanha Outubro Rosa, Catuaba organizou o atendimento de 50 mulheres.

Na capital fluminense, quem decidiu ajudar as mulheres foi o estúdio Kiko Tattoo, que criou a campanha “Espelho, espelho meu”. Com unidades Barra da Tijuca, Jacarepaguá e Gávea, o estúdio carioca atendeu as interessadas pela criação da aréola mamilar do mamilo em outubro deste ano de forma totalmente gratuita. O foco da campanha foi atender principalmente as pacientes que não tinham condições de pagar pelo procedimento que chega a custar 1,6 mil reais.

Tatuagem para curar cicatrizes

“Olar, esse espaço foi pensado para que todos se sintam bem. Aqui cabe: adulto, criança, mulher, homem, gay, lésbica, hétero, bi, pan, cis, trans, negro, índio, oriental, dogs. Só não cabe o seu preconceito”. É assim que o estúdio 33 Home Studio, na Vila Nova Conceição, em São Paulo, recebe seus clientes. Para 2018, a meta dos tatuadores e proprietários do estúdio — Lucas Felipe, Dio Pradini e Giovanna Cima — é cobrir cicatrizes de 33 pessoas e contar essas histórias nas redes sociais. Para isso, foi criado o projeto “Na Sua Pele”. “Queremos mostrar que tatuagem é algo extremamente positivo, principalmente no que diz respeito a autoestima. Serviu para nós e nos ajudou a superar algumas coisas também”, afirmam.

Os trabalhos serão feitos em 33 interessados em cobrir as marcas do passado com arte. As únicas exigências são ter passado dos 18 anos e estar disposto a enfrentar a dor das agulhas. Aqui, vale lembrar, as cicatrizes não são apenas as provenientes de intervenções nas mamas, mas também por outras doenças e traumas. As inscrições estão abertas para todo o País, mas, nesses casos, os interessados custeiam as despesas de transporte e hospedagem.

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