Como a terapia com alucinógenos pode ajudar a tratar vícios
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Como a terapia com alucinógenos pode ajudar a tratar vícios

Pedro Katchborian em 6 de outubro de 2016

Imagine um homem de 52 anos que fuma dois maços de cigarro por dia há quase 40 anos. Ele já fez todo o protocolo para parar com o hábito: chicletes, adesivos e tudo indicado por médicos. Agora imagine que, em três sessões com um psicólogo, esse homem nunca mais fumou. Essa história já tem três anos e aconteceu por um tratamento peculiar: com alucinógenos. O americano Daniel Kreitman passou por um tratamento experimental com psilocibina, um alucinógeno derivado de cogumelos, feito no Johns Hopkins University of School Medicine.

O relato todo foi contado para a Nautilus. Segundo a publicação, os alucinógenos fizeram Daniel ver lagos, avenidas e montanhas e um homem em um barco, que ele cogita ser o seu pai falecido. A sua lembrança do que passou é clara: ele se lembra de dar risada e se sentir bem. Com um fone de ouvido tocando música, ele recorda de uma sensação bem específica: a de tocar fisicamente as músicas. A sensação de imersão e alegria fizeram da experiência algo inesquecível. “Eu estava vendo o infinito“, diz.

homem deitado em terapia

Foto: Reprodução/Site

Apesar de não se considerar religioso, ele diz que viu Deus. Para Daniel, a grande questão era o que aconteceria depois de tal experiência. “Se eu vi Deus e o infinito, o que acontece depois? Como isso me muda e muda minha vida?”, diz.

Um ponto muito curioso da história é como ele se sente em relação a fumar: “Eu não sinto que estou lutando contra o vício. É como se ele não estivesse em mim”. Antes de começar o tratamento, Daniel fez algumas consultas, criou um mantra sobre o fim do hábito de fumar e aprendeu a meditar — tudo como uma preparação do que estava por vir.

Moises Velasquez Manoff, do Nautilus, explica que o experimento foi pequeno, com apenas 15 pessoas.  O tratamento com alucinógenos já foi testado há séculos, mas só agora os cientistas estão testando as drogas como medicina. A ideia é tentar tratar problemas como vício, depressão e a ansiedade existencial de ter uma doença terminal. Os estudos são pequenos, mas os resultados são surpreendentes. No estudo em que Daniel participou, cerca de 60% dos fumantes que tomaram a psilocibina não fumaram nos últimos três anos.

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Para Moises, o sucesso desse tipo de tratamento pode até mudar como pensamos sobre as disfunções que trazem esses hábitos. “No passado, o vício era o resultado de uma falha moral. Hoje, ele é visto como uma condição psiquiátrica. Dependendo da dependência das pessoas, uma abordagem de tratamento consiste, nesse caso, em dar pequenas quantidades de nicotina. A terapia alucinógena dispensa essa abordagem gradual e procura uma mudança mais repentina. “Esse tipo de insight repentino, que William James cunhou como ‘conversão’, é central em várias religiões e tradições de meditação”, diz Moises.

A ciência por trás da terapia com alucinógenos

A questão é entender o que os alucinógenos fazem no cérebro das pessoas para gerar essas reações. Os cientistas observaram que há semelhança entre o que ocorre no cérebro dos meditadores e das pessoas que estão sob o efeito dos alucinógenos. “A terapia alucinógena parece tratar o vício não como um distúrbio do cérebro, mas como um distúrbio de propósito, de definir como nos enxergamos”, diz Moises.

Ou seja, os pesquisadores estão tentando descobrir um mistério central para a psicologia e psiquiatria: como as pessoas mudam e como escapam de padrões auto-destruidores. As pesquisas sugerem que a terapia com alucinógenos oferece uma nova perspectivas do entendimento sobre si mesmo, mostrando que as pessoas não são escravas de suas compulsões e medos.

Esses estudos indicam que o cérebro humano é conectado a essas experiências. “Você não precisa ser um santo ou um meditador, você não precisa ser sortudo ou sofrer de algum lapso mental”, diz. “Talvez por que somos animais extremamente sociais, a habilidade de sentir um senso de existência, o que parece terapêutico, é latente em nós. Os resultados sugerem que quase todos são capazes”, afirma Moises.

Os estudos na Johns Hopkins University School of Medicine foram liderados por Roland R. Griffiths, professor no departamento de psiquiatria e neurociência. Para ele, a contribuição dos alucinógenos pode ser uma ferramenta de aprendizado, uma maneira de aprender como a transformação humana funciona.

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