O dilema do capacete para ciclista: quem anda de bike deve usá-lo?
capacete para ciclista
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O dilema do capacete: ciclistas que trafegam pela cidade devem usá-lo?

Camila Luz em 7 de dezembro de 2016

Cerca de 2% das vítimas fatais de acidentes por batidas de veículos são ciclistas. Segundo a organização estadunidense de pesquisa Helmets, as lesões mais graves são na cabeça e destacam a importância do capacete para ciclista.

Usar o capacete parece óbvio, pois protegeria ciclistas em caso de quedas ou batidas – principalmente os que trafegam pela cidade e enfrentam o trânsito intenso. No entanto, o assunto é controverso e é tema de pesquisas científicas ao redor do mundo. Em 2014, o famoso neurocirurgião britânico Henry Marsh afirmou que usar o item de segurança é inútil, segundo o site Telegraph.

“Eu ando de bike e nunca uso um capacete. Nos países onde o uso de capacetes é compulsório não houve nenhuma redução nas lesões em ciclistas”, disse. O neurocirurgião ainda citou evidências de pesquisa feita pela University of Bath (Inglaterra), que sugerem que usar o capacete pode até colocar os ciclistas em maior risco.

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Segundo o Telegraph, o estudo mostrou que os motoristas ficam cerca de oito centímetros mais perto dos ciclistas que usam capacete, pois identificam que estão mais seguros, são mais previsíveis e experientes. Portanto, não precisam dar tanto espaço à bicicleta durante ultrapassagens. Já os sem capacete – principalmente mulheres – são vistos como menos previsíveis e experientes. Portanto, condutores de veículos dão mais espaço durante ultrapassagens e são mais cuidadosos.

Outra pesquisa, publicada este ano pela mesma universidade e conduzida pelo mesmo professor de psicologia, Ian Walker, concluiu que usar o item deixa o ciclista menos seguro e mais propenso a assumir riscos.

Ciclistas que usam capacete tendem a assumir mais riscos

A pesquisa recente feita pela University of Bath convidou 80 participantes, que pensavam estar em uma experiência de rastreamento ocular. Eles foram divididos em dois grupos: metade usava o capacete para ciclista, enquanto a outra vestia boné.

Foto: Istock/Getty Images

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Os indivíduos deviam inflar um balão animado em uma tela. Foi dito a eles que o boné e o capacete serviam como apoio para um dispositivo de rastreamento dos olhos.

Cada balão inflado contava pontos para os participantes. Se o balão estourasse, todos os lucros eram perdidos. Em mais de 30 ensaios, os pesquisadores testaram a propensão de cada indivíduo a continuar a inflar os balões e usaram isso para medir a probabilidade de assumirem riscos, comparando os que usavam boné com os que usavam capacete para ciclista.

Segundo o professor Waler, o capacete poderia fazer zero diferença para o resultado, mas as pessoas que o vestiam assumiram mais riscos no que era essencialmente uma tarefa de apostas. “A implicação prática de nossas descobertas pode sugerir consequências não intencionais mais extremas do equipamento de segurança em situações perigosas do que se pensava anteriormente”, opina.

Replicado em ambientes reais, isso pode significar que as pessoas que usam o equipamento de proteção podem assumir riscos contra os quais não é razoável esperar que o capacete auxilie.

O que as leis dizem sobre o capacete para ciclista

Pelo Código Brasileiro de Trânsito, o ciclista não é obrigado a vestir o capacete, mas seu uso é recomendado. Campainha, espelho retrovisor do lado esquerdo, sinalização noturna dianteira, traseira, lateral e nos pedais são os equipamentos de segurança obrigatórios.

Muitos capacetes vendidos no Brasil não têm certificação do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Cair da bike usando um item pouco seguro pode trazer riscos maiores de lesões. Portanto, se for usar, é preciso estar atento à qualidade e escolher o acessório que realmente proteja.

capacete para ciclista

Foto: Istock/Getty Images

Em países europeus como Holanda e Alemanha, onde a cultura da bike está mais difundida e há mais ciclovias como boa infraestrutura o uso do capacete também não é obrigatório. Na América do Sul, a Argentina considera o uso obrigatório. Já o Chile obriga o uso apenas em áreas urbanas. Em outras nações,  o uso é obrigatório apenas para crianças.

A Austrália foi o primeiro país a estabelecer o uso obrigatório. Todos os seus estados adotaram a lei entre 1990 e 1992. Hoje, o Senado luta para derrubá-la, segundo o The Guardian. Para profissionais da saúde, a obrigatoriedade mostrou-se ineficiente já que reduziu o número de ciclistas. “Dissuadiu grandes porções da sociedade de usar suas bicicletas e provavelmente causou impacto muito pior na saúde da nossa nação, mantendo as pessoas longe deste tipo de exercício”, disse o dentista Andreas Schwander.

Para os defensores da queda da lei, usar a bicicleta como meio de transporte tem efeitos diretos na qualidade de vida e saúde dos indivíduos. Se a população deixa de usá-la, os impactos na saúde pública são mais graves do que os causados por acidentes sem capacete.

“Capacetes são uma barreira para novos ciclistas, particularmente para os ocasionais e não-regulares”, afirma Chris Rissel, professor de saúde pública da University of Sidney (Austrália). “A necessidade de usar o capacete reforça a mensagem de que andar de bicicleta é perigoso”, completa.

Criar a cultura da bicicleta é necessário

Deixar de usar o capacete é, então, o melhor a se fazer? Não necessariamente, pois não há consenso científico sobre o assunto. Capacetes de boa qualidade são essenciais para atletas que praticam esportes como Downhill ou Mountain Bike, situações com maior risco de queda e impacto.

Utilizá-los na cidade pode trazer seus benefícios, mas a segurança dos ciclistas também depende de que trafeguem com cuidado e atenção, respeitando as leis de trânsito. Além disso, é preciso educar todos os cidadãos – principalmente os motoristas – para que respeitem o espaço do próximo e sigam as regras.

Em casos como o do Brasil, é preciso que mais ciclistas conquistem as ruas para que a cultura da bike se desenvolva. “Em termos de segurança há um fenômeno chamado ‘segurança em números’”, explica Rissel. “Conforme mais pessoas andam de bicicleta, mais seguras nossas ruas se tornam para esses ciclistas”, completa.

Com mais ciclistas na ruas, motoristas se acostumam a lidar com eles e ajustam seu comportamento. A infraestrutura também tende a ser aperfeiçoada para atender ao ciclismo. “Mesmo se os ciclistas usarem capacetes, estarão menos seguros nas ruas onde o número de ciclistas no trânsito é reduzido”, finaliza o professor.

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