Do Império Romano às ruas de São Paulo: o grafite e a sua origem
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Foto: Istock/Getty Images
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Do Império Romano às ruas de São Paulo: o grafite e a sua origem

Pedro Katchborian em 27 de março de 2017

Tema em alta na cidade de São Paulo, o grafite tem uma história rica e vai muito além de uma forma de se expressar. Mas qual é a sua origem? Afinal, é arte? Qual é a diferença entre o picho e o grafite? Aliás, essa é uma das grandes dúvidas sobre o tema: é picho ou pixo? Por mais que a palavra no dicionário seja escrita com CH, “picho”, existe quase que uma licença poética para escrever com X, “pixo”, mais usado nas ruas e entre os artistas.

Veja essas e outras perguntas respondidas logo abaixo.

A origem do grafite

O grafite como conhecemos é recente, mas há séculos as paredes servem como plataforma para a expressão. As marcas em paredes datam do Império Romano, quando foram encontradas inscrições em paredes que não tinham como fim específico comunicar algo. Há também inscrições em Roma, Pompéia, Egito e outros.

Nos tempos mais recentes, manifestações artísticas do tipo ganharam destaque em muros dos Estados Unidos durante a década de 20 e posteriormente nos anos 40. A frase “Kilroy was here” com uma ilustração acabou sendo difundida em diferentes territórios nos Estados Unidos e ficou conhecida como um dos primeiros pichos. A forma contemporânea do grafite surgiu em Nova Iorque, nos Estados Unidos, na década de 70. Um grafite com os dizeres “Dick Nixon Before He Dicks You” se tornou popular na época, um reflexo da relação dos jovens com o então presidente dos Estados Unidos.

Nova Iorque: berço do grafite

Durante as décadas de 70 e 80, os locais preferidos dos grafiteiros eram trens, paredes e carros de Nova Iorque. Um dos principais nomes do começo da cena foi Jean-Michel Basquiat. Aos 17 anos, em 1977, Basquiat já fazia desenhos em prédios abandonados, sempre com a assinatura SAMO. Basquiat virou celebridade na cena underground da cidade na década de 80, também formando uma banda chamada Gray. Ficou famoso nacionalmente e foi até capa da revista do jornal The New York Times. Sua morte prematura, em 1988, por overdose, também ajudou a tornar Basquiat uma lenda entre grafiteiros e na arte urbana de Nova Iorque e do mundo.

Jean-Michel Basquiat

Jean-Michel Basquiat Foto: Wikimidia Commons

Apesar da importância de Basquiat, o grafite surgir antes dele, ao final da década de 60 e começo dos anos 70. Na época, artistas se espalhavam por bairros como Brooklyn, Bronx, Queens e outros locais de Manhattan e disputavam locais para espalhar as suas assinaturas. Os trens eram os principais escolhidos pois tinham o poder de disseminar a palavra de cada artista.

A moda dos rabiscos “ilegais” na cidade americana era tão forte que a Complex fez até um ranking com os 50 maiores grafiteiros da Big Apple nos anos 80 e 90: Taki 183 é o primeiro da lista, muito por conta do seu pioneirismo. Enquanto outros locais nos Estados Unidos já tinham grafiteiros, outros países demoraram para ver a arte. Em 1979, o artista Lee Quinones fez uma galeria em Roma com picho — o que, para muitos, foi o primeiro contato com o grafite.

Qual é a relação do grafite com diferentes movimentos?

Com a arte sendo difundida, o grafite começou a ter uma relação direta com o hip hop, já que fazia parte da contracultura e visava mostrar a realidade das ruas — objetivo parecido com o do hip hop. Artistas como Skeme, Dondi, MinOne e ZEPHYR ajudaram a fortalecer essa relação entre o rap e o grafite.

Para além do hip hop, parte dos artistas também estavam conectados com o punk e o rock and roll. Um dos grafites populares na época era um com os dizeres “Clapton is God”, uma menção ao ícone Eric Clapton.

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O fato de ser ilegal e de ter uma relação com a contracultura também aproximou o grafite do movimento hippie. Um dos mais famosos slogans grafitados pelo movimento foi o “Frodo Lives!” (Frodo Vive!, em tradução livre). O slogan é uma menção ao personagem Frogo Baggins, do livro “O Senhor dos Anéis”. Além de estar em grafites, a frase também se tornou populares em camisetas e adesivos.

Quando o grafite chegou ao Brasil?

Cidade com milhões de habitantes e uma enorme diversidade cultural, São Paulo segue o padrão de Nova Iorque e foi a primeira cidade a ter o grafite de maneira significativa como expressão.

Como lembra a BBC, o grafite era considerado crime pela legislação brasileira na década de 70 e 80, em razão da censura à liberdade expressão feita pela ditadura. “A própria ocupação da rua já era vista como um ato político”, diz o sociólogo e curador de arte urbana Sérgio Miguel Franco à BBC.

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Foto: Wikimedia Commons

O etíope Alex Vallauri, radicado no Brasil, foi um dos primeiros a trazer os grafites para a capital paulistana. Alex desenhava frangos assados, telefones e botas de salto fino em muros de várias paredes da cidade. Seus inscrições também tinham apelo político: desenhou frangos que pediam Diretas Já, movimento pelas eleições diretas. Morreu em 27 de março de 1987, o que é considerado o Dia do Grafite no Brasil.

Assim como nos EUA, o grafite nasceu no Brasil como contracultura e deu voz às periferias de São Paulo. A BBC também entrevistou Prades, membro do Tupinãodá, um dos primeiros grupos de grafiteiros do Brasil e responsável pela ocupação do Beco do Batman. Ele disse: “o pensamento que alimentava as ações de arte nas ruas era fruto da nossa tradição modernista, da anarquia antropofágica, da poética neoconcretista (…)”, afirmou.

Quais são os tipos de grafite?

Há diferentes maneiras de fazer grafite, mas a mais comum continua sendo a com spray. Além do grafite à mão livre, há o que usa o estêncil, que surgiu no começo da década de 80. Ele é criado cortando formas em um material rígido como papelão. Esse método também é popular pelo curto tempo necessário para fazer.

Quais são os grafiteiros mais famosos do mundo?

Há centenas de artistas com obras espalhadas pelo mundo. Muitos desses grafiteiros renomados têm a sua verdadeira personalidade disfarçada e atuam apenas com os seus apelidos. Entre os grafiteiros mais famosos estão Seak, Revok, Banksy, Daim, Saber, Blek le Rat, OsGêmeos e Ket. Alguns já são tem cara, mas grande parte prefere não revelar o rosto.

Afinal, qual é a diferença entre o picho e o grafite?

Marina Bortoluzzi é uma das fundadoras do Instagrafite, organização que discute a arte urbana e é focada em mídia, produção e curadoria de arte. Junto com o outro co-fundador, Marcelo Pimentel, os dois estão entre os mais influentes quando o assunto é grafite, arte urbana e picho.

grafiteMarina explica que parte da confusão entre o que é picho e grafite é a própria nomenclatura. A tradução do “graffiti”, em inglês, para “grafite”, em português, causou um mal entendido entre o que é cada um. O que consideramos como “grafite” por aqui é o chamado “street art” por lá, ou “arte de rua”, em português. O graffiti original, dos Estados Unidos, é marginalizado e ilegal como o picho é por aqui. “Qualquer coisa que seja ilegal deveria ser grafite”, explica. “A tradução está equivocada. O picho é a maior representação do grafite”, diz.

Ou seja, a arte que está em muros e é legalizada pela prefeitura, por exemplo, não é grafite em sua essência, já que não é ilegal: é arte de rua ou arte urbana. Em relação a confusão do que é picho e o que é grafite, Marcelo dá sua opinião:

O grande problema é que as pessoas acham que o grafite vai salvar a pichação. Para mim, os dois bebem da mesma fonte. Mataríamos vários artistas de rua renomados se não existisse o picho.

Marina explica que o picho é algo criado no Brasil e especificamente de São Paulo. “É a nossa identidade“, afirma. Fora do país, curadores já identificam o tipo de letra que existe nos muros de São Paulo como algo brasileiro. “É exportado para fora. Isso aumenta ainda mais a polêmica”, define.

Marcelo conta que a polêmica em São Paulo com o prefeito João Dória “é boa para a cena do grafite e do picho“. “Quando mais difícil for de pintar, mais verdadeiro vai ser quem pinta”, diz. “Antes, quando qualquer um podia pintar na rua, o propósito era meio desvirtuado”, diz. Marina conclui e diz que o Instagrafite “está na coluna do meio” da discussão. “A gente tenta criar um diálogo entre as duas partes”, define.

Quais cidades são famosas por seus grafites?

Além de São Paulo e Nova Iorque, vários outros locais viraram atração turísticas pelos grafites. Grottaglie, na Itália, recebe o Fame Festival, que reúne dezenas de grafiteiros de diferentes locais no mundo. Londres, na Inglaterra, também chama a atenção pela arte de rua. Além de ser um dos berços do grafite durante os anos 80, o local é a cidade natal do polêmico Banksy. Berlim (Alemanha), Cidade do Cabo (África do Sul), Los Angeles (Estados Unidos), Bogotá (Colômbia), Dublin (Irlanda) e Melbourne (Austrália) são outras cidades que também chamam a atenção pela arte de rua.

O que o grafite representa para as cidades?

Marcelo define o que, na sua opinião, representa o grafite para as cidade: “pelos exemplos que a gente vê, o grafite traz revitalização urbana”, diz. “A arte tem esse poder de ocupação, de revitalizar espaços e até de criar pontos de interesse e pontos turísticos pela cidade”, completa. Marina lembra de um feedback que recebeu ao pintar um mural na Cracolândia. “O mural deu vida para um lugar. É como se fizéssemos uma acupuntura urbana. Revitalizamos e energizamos aquele lugar”, completa.

E o picho? Para Marcelo, o picho tem uma função “social e não de estética“. “É um sinal de uma falência. As pessoas quando se deparam com um picho, não é uma coisa agradável — e nem é para ser agradável“, define.

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