Apropriação cultural: o que é, quais os tipos e sua relação com o racismo
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Foto: Istock/Getty Images
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Apropriação cultural: o que é, quais os tipos e sua relação com o racismo

Aretha Yarak em 25 de agosto de 2017

Em fevereiro de 2017, uma garota branca de Curitiba, no Paraná, foi criticada por usar turbante. Thauane Cordeiro, de 19 anos, vestia o acessório para esconder a perda de cabelo intensa, resultado de um tratamento contra a leucemia mieloide. A jovem foi acusada de apropriação cultural por uma mulher negra, que postou tudo nas suas redes sociais. O assunto então viralizou.

Com a publicação, discussões sobre o que é ou não apropriação cultural e sua relação com o racismo começaram a borbulhar pela internet, que acabou polarizada. O debate foi intenso, enriqueceu opiniões e permanece vivo até hoje. Recentemente, a cantora Anitta protagonizou um novo capítulo dessa história ao aparecer usando tranças rastafári na gravação do clipe da música “Vai, Malandra”.

Mas, afinal de contas, uma mulher branca usar turbante, tranças ou dreads pode ser entendido como apropriação cultural em um mundo tão globalizado?

O que é apropriação cultural?

O termo é empregado quando há o uso de objetos e expressões de culturas marginalizadas ou de minorias fora do seu contexto original. Nesse “novo uso”, ela ganha um novo significado e perde todo a sua simbologia original. Normalmente, o que antes era visto pela cultura dominante com certo preconceito, ou como algo ruim ou de menor valor, passa a ser considerado cool depois de “reformulado”. É lançar aquele olhar feio para um negro que usa dread, mas achar descolada a garota de classe social mais alta que decide usar.

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Movimentos negros afirmam que esse “sequestro” geralmente ocorre quando uma peça do vestuário, por exemplo, vira “modinha” pela cultura dominante. Caso do turbante, do dread e do rastafári. A simbologia e os significados desses itens são apagados, em uma tentativa de eliminar o próprio negro, para torná-los mais aceitáveis.

O problema, portanto, não está no uso de um dread, mas no silenciamento do negro. Uma relação marcada por preconceito, exclusão, etnocentrismo, poder e capitalismo. Em entrevista à Revista Cult, Juliana Borges, pesquisadora e ex-Secretária Adjunta da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres de São Paulo, reforça: “símbolos como o turbante podem ser encarados como elos entre um povo e sua ancestralidade, suas origens perdidas. A crítica seria menos ao uso individual em si e mais a uma estrutura social que escrutina tradições de um povo enquanto aplaude as mesmas quando praticadas por outros”, explica.

Esse “sequestro cultural” ocorre dentro dos mais diversos setores da sociedade. Em 2015, por exemplo, a estilista francesa Isabel Marant foi acusada de plágio e também de apropriação cultural. Sua coleção continha elementos gráficos iguais e bem específicos que foram criados pela comunidade indígena Santa Maria Tlahuitoltepec, no México. Enquanto a peça francesa custava mais de R$ 1 mil, a original saía por R$ 65, numa clara valorização apenas do que entra para o mainstream.

É claro que a troca cultural existe desde o início dos tempos, e isso deixa muito tênue a linha que separa a apropriação do uso desses elementos com fins de inspiração e admiração. Para Susan Scafidi, uma boa métrica estaria na desvalorização e nos possíveis danos a certos bens quando apropriados.

Um grupo de pessoas defende, entretanto, que o conceito de apropriação cultural é um exagero. Para elas, a liberdade de expressão e a intensa globalização permitem que cada pessoa decida o que quer vestir, cantar ou comer. Sem barreiras.

Em uma reportagem publicada pela revista Época, o antropólogo Antonio Risério alega que no Brasil a separação entre negros e brancos não é tão profunda, como ocorre nos Estados Unidos. Assim, falar em apropriação cultural seria apenas uma maneira de incentivar a segregação em um país que nasceu da mistura.

A apropriação cultural é crime?

Juridicamente falando, quando pessoas brancas usam turbantes ou quimonos elas não estão cometendo nenhum crime. Não existe uma lei, seja em esfera estadual, federal ou municipal, que configure a apropriação cultural como um ato criminoso. Mesmo porque o debate sobre esse assunto é recente e ainda está longe de ser encerrado.

Mas o racismo é crime previsto em lei. Como vimos, a apropriação cultural é a assimilação de elementos de grupos marginalizados e de minorais, que são ressignificados para ficarem palatáveis à cultura dominante. Esse processo para apagar a herança de muitos povos é consequência de uma estrutura globalizada de racismo.

Na legislação brasileira, o crime de racismo está previsto na Lei n. 7.716/1989. Ele acontece quando atinge uma coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça. Esse crime é inafiançável e imprescritível. Uma série de situações podem ser enquadradas nessa lei: negar empregos, impedir o acesso às entradas sociais de prédios públicos, privados ou residenciais, ou a estabelecimentos comerciais.

Usar turbante é apropriação cultural?

O turbante é um acessório carregado de simbologia para a mulher negra. Ele está intrinsecamente associado à religião, à história negra e ao empoderamento feminino. Seu uso pela mulher branca com fins estritamente estéticos, sem reflexões sobre a opressão e a invisibilização do grupo que o produziu, é visto como uma forma de apropriação cultural, sim.

Em entrevista à revista Carta Capital, Marina Pereira de Almeida Mello, doutora em antropologia pela USP, levanta o seguinte paralelo: “Quando eu, mulher negra, afirmo no meu corpo elementos que são socialmente desprestigiados, o peso é diferente. No meu caso, estou resistindo a um movimento que pede a todo momento que eu alise meu cabelo e ’embranqueça’. Quando uma pessoa branca usa esses símbolos, ela não vai representar resistência ou ser excluída de nenhum espaço”, afirma.

Esse é um dos pontos cabais no uso de vestimentas tradicionais das minorias. No corpo da mulher negra, por exemplo, o turbante é um símbolo de retorno às raízes, autoafirmação e de luta contra o preconceito. Na mulher branca, é deslocado de contexto histórico, social e cultural, fazendo do turbante apenas um acessório da moda.

O que mais pode ser apropriação cultural?

Qualquer elemento cultural pode sofrer apropriação, inclusive a música. O rock, por exemplo, tem sua criação relacionada aos negros que viviam nos subúrbios dos Estados Unidos. Mas foi na voz de Elvis Presley, chamado de o rei do rock, que esse gênero ganhou o mundo. Na versão de Elvis, todas as referências africanas foram eliminadas.

Atualmente, a internet se divide sobre o sucesso da rapper australiana Iggy Azalea. Branca e loira, ela imita o modo de falar de uma afroamericana na música “Fancy”. Nomes como Eminem e Miley Cyrus também já foram acusados de apropriação cultural.

De acordo com o movimento negro, esse “sequestro” acontece apenas porque a população, no geral, quer ouvir esse tipo de som, gostam da música negra, mas na voz de brancos.

E você, qual sua opinião sobre esse assunto?

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  • Gézio Rosa Souza

    Que bosta de texto!

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