A história de Dadá Moreira, deficiente e esportista radical
Dada Moreira
Foto: Arquivo Pessoal
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Dadá Moreira, deficiente e atleta: “Superação é comer comida que odeio”

Pedro Katchborian em 8 de setembro de 2016

Quando jovem, Dadá Moreira era um garoto paulista que vivia entre as rodas das bicicletas e bolas de futebol. Arriscava-se no bicicross e não deixava a pelada com amigos de lado. A paixão pela aventura e esporte era tanta que, mesmo quando foi diagnosticado com ataxia cerebral, doença degenerativa que afeta coordenação e equilibro, Dadá foi atrás de esportes radicais adaptados para deficientes.

Dada Moreira praticando esporte radical

Foto: Arquivo Pessoal

Jornalista de formação, Dadá conta que não consegue dizer ao certo como começou sua relação com o esporte, de tão cedo que foi: “Eu sempre gostei de esporte e pratiquei”. Nascido em São Paulo, visitava Visconde de Mauá para fazer trilhas. Mas foi só depois de doente que reparou no esporte radical. “Toda hora eu via gente praticando esporte radical na TV e pensei ‘caramba, eu quero muito fazer’”, conta. Ele diz que nunca questionou se seria capaz, mesmo com sua deficiência, que aos poucos foi debilitando seus movimentos. Hoje, aos 50 anos, Dadá usa a cadeira de rodas para se locomover.

Bem-humorado, ele conta que não hesitou em ligar para uma empresa que fazia esporte radical, a Canoar, especializada em rafting: foi ao local, estudou todas as possíveis adaptações para a prática, chamou um casal de amigos e resolveu tentar. A experiência foi bem-sucedida e Dadá percebeu que ali estava nascendo uma paixão: “vi que poderia fazer e queria ir toda semana“.

dada moreira praticando cascading

Foto: Arquivo Pessoal

Sabendo que não existiam muitas informações sobre esportes radicais para deficientes físicos, Dadá resolveu contar um pouco das suas aventuras em um blog, que deu o nome de Aventura Especial. Com a ajuda de uma amiga, montou o site em 2001, em que reunia depoimentos de pessoas com vários tipos de deficiência e que praticavam várias modalidades diferentes.

Dadá viu o potencial do projeto e o site virou referência para deficientes que buscavam aventuras do tipo. Roteiros para a prática de esportes radicais para deficientes eram feitos na página. As modalidades eram escalada, rafting, cascading, paraquedismo, parapente, tirolesa, rapel, entre outros.

A história de Dadá aos poucos ficou conhecida e ele passou a dar palestrar para falar sobre o seu projeto. Uma delas foi em 2004, na Adventure Sports Fair, feira sobre esportes radicais, em São Paulo. A Aventura Especial chamou a atenção no evento e Dadá Moreira encontrou Walfrido dos Mares Guias e Marina Silva, ministros do turismo e do meio-ambiente, respectivamente. Dadá recebeu apoio financeiro do governo e conseguiu montar o Projeto Aventureiros Especiais, que teve início em junho de 2005. O projeto consistia em divulgar informações e adaptar oito esportes para oito tipos de deficiências diferentes, tornando-se referência no assunto mundialmente.

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A ajuda do governo tornou o projeto mais conhecido e Dadá foi até convidado a palestrar na África do Sul. “A gente queria uma coisa grandiosa”, explica. Depois de alguns anos à frente da ONG, Dadá não conseguiu dar continuidade ao projeto e acabou e, em 2011, fechando a ONG. Entre os motivos para o encerramento do projeto foram os falecimentos de seu pai e de seu filho, afetados pela mesma doença.

Dadá Moreira: “É fundamental mostrar o que a pessoa pode fazer”

Dada Moreira praticando escalada

Foto: Arquivo Pessoal

Na opinião de Dadá Moreira, falta compreensão do que os deficientes podem fazer. “É fundamental mostrar o que a pessoa pode fazer”, diz. Dadá conta a história de dois amigos, Claudia e Sofia, que faziam rafting. Eles eram surdos e mudos e, durante o rafting, faziam linguagem de libras, como se estivessem gritando de emoção. “Eles queriam se expressar de algum jeito“, conta.

Além de promover esses encontros e explicar como era o esporte radical para deficientes, a ONG chegou a auxiliar em lançamentos de produtos, como uma bicicleta adaptada para fazer trilha e uma boia com uma maior flutuação. “Se um tetraplégico tivesse fazendo rafting, o próprio colete gira a pessoa para cima”, explica.

Em época de grandes eventos esportivos envolvendo deficientes, Dadá critica uma costumeira abordagem midiática de superação. Para ele, os deficientes gostam dos esportes e se dedicam como qualquer outro atleta. 

É até chato. Imagina, toda a vez que você faz é uma superação…Superação não é fazer um esporte. Superação é comer um prato de uma comida que não gosto.

Para ele, o que falta para mudar essa abordagem é cada vez mais deficientes praticarem o esporte. “Imagine uma mulher com um chapéu amarelo. Na primeira vez que ela passar na rua, vão apontar para ela. Mas se as pessoas as encontrarem todos os dias a mulher com o chapéu amarelo, vai deixar de ser notícia”, conta, comparando com o esporte para deficientes.

Dada Moreira pulando de paraquedas

Foto: Arquivo Pessoal

Dadá Moreira acredita que o incentivo aos esportes deve ir além da relação com deficientes. “As pessoas não fazem atividade física como deveriam. Precisa ser encarado como uma disciplina como português ou matemática”, diz.

Segundo a pesquisa Diagnóstico Nacional do Esporte, quase metade (45,9%) dos brasileiros não pratica nenhum esporte ou atividade física. “Não é só o deficiente que precisa. No meu caso pessoal, tenho uma doença séria e grave e consegui desacelerar o processo da doença por causa do esporte”, afirma.

Atualmente, as condições físicas de Dadá, que já fez paraquedismo, rafting, boiacross e vários outros esportes, não permitem que ele se arrisque tanto. Mesmo assim, ele brinca. “Ainda consigo fazer 10 flexões na barra“, completa.

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